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13 abril 2020
Texto de Irina Fernandes Texto de Irina Fernandes

«Se não viesse a casa ia ser complicado»

​​​​​​​​Na Ilha do Faial, Açores, idosos recebem medicamentos em casa durante pandemia COVID-19.

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Pastos verdejantes de perder a vista. Manadas de vacas ao seu redor e sempre a acertar o passo. Para António Silveira, pastor, nada o fazia mais feliz nesta vida. Porém, em 2018 o inesperado aconteceu: a “máquina” quase parou. «Uma das válvulas do coração nunca funcionou bem. Nesse ano, o meu marido sentiu-se muito mal. Teve de ser operado», conta Olívia Silveira, 78 anos.  

«O que mais me custa é já não poder tratar das vacas. Trabalhei toda a vida como pastor. Ainda estive numa fábrica por dois meses, mas vim-me logo embora. Sempre fui homem do campo, da Natureza».



Aos 83 anos, o coração, garante António, vai «palpitando bem» graças à vigilância da farmacêutica e directora-técnica Diva Bettencourt, da Farmácia Lecoq.

Com a televisão e a rádio a lembrar que os dias são de confinamento social e os mais frágeis não devem sair à rua, o octogenário conta com as visitas da profissional para que a medicação não lhe falte e, assim a “máquina” continue a portar-se bem.

«A farmácia é a nossa segurança», afiança o faialense.

Da Farmácia Lecoq, localizada na cidade da Horta, à aldeia dos Cedros, onde António e Olívia vivem, vão 20 km. Antes do coronavírus chegar ao arquipélago dos Açores, António e a mulher costumavam ir de carro à cidade da Horta «para fazer compras e também ir à farmácia». Agora, sabem bem que ao fazê-lo correm riscos.
 
«Não é por falta de não conseguirmos andar… Não quero é confrontar-me com lugares que estejam infectados. Com a doutora a vir à nossa casa, não corremos riscos de ficar infectados», afirma aliviado António. 

Os Açores registam 94 casos, cinco dos quais na ilha do Faial (dados de dia 13 de Abril).

Em tempos de insegurança e longe de a pandemia ter fim anunciado, a farmacêutica Diva Bettencourt é uma brisa de Verão em cada casa que entra. «Faço uma média de dois domicílios por dia, ou de manhã ou ao final do dia pois estamos a trabalhar com a equipa reduzida. Vou ao encontro de pessoas mais desprotegidas. Não têm a quem recorrer», descreve a profissional de 38 anos.  

Doente cardíaco, António Silveira é polimedicado. Toma «Concor, Zarator, Cosopt, Tansulosina, Norvasc e Omeprazol, todos os dias», explica a farmacêutica. Também Olívia tem problemas de saúde, que não podem ser descurados. «É hipertensa e tem colesterol. Toma Lescol, Omeprazol e Biloban, todos os dias», detalha ainda a profissional.

A terapêutica faz-se de nomes complicados, mas Olívia e António não se deixam atrapalhar. À distância, ou agora no conforto do lar, sabem que podem contar com Diva Bettencourt para tirar «qualquer dúvida». «É uma pessoa muito responsável e prestável», elogia Olívia. 

Numa altura em que na ilha «está tudo fechado» e «só uma ou outra papelaria está a trabalhar», a Farmácia Lecoq tem as portas abertas cumprindo as regras de protecção individual e de segurança. A bem da saúde dos utentes e da equipa. 



«Colocámos placas de acrílico a percorrer o balcão e marcas de segurança fixadas no chão. Quando vou ao posto dos Cedros (freguesia do município da Horta, uma das maiores da ilha do Faial com 1 048 habitantes, segundo Censos de 2001) e faço domicílios, uso máscara e óculos de protecção», conta a responsável que, garante, que a Farmácia Lecoq tem «tido dias de muito, muito trabalho». 

Quando as primeiras notícias do vírus chegaram à ilha, a população correu à farmácia para comprar medicamentos. «Instalou-se pânico. As pessoas vinham e queriam levar de uma só vez vários medicamentos e produtos. Pediam-nos de tudo, e também termómetros», lembra a profissional. 

Para quem, como António e Olívia, se vê agora confinado a estar em casa, e em situação vulnerável, a farmacêutica é, para muitos, a ajuda certa e que não falha.
«No outro dia, fui a casa de uma senhora que se queixava das pernas. Estavam muito vermelhas, precisava de levar injecções para activar a circulação. Se eu não tivesse ido lá, ela teria sido internada pois já estava a entrar numa flebite», relata Diva Bettencourt. 

Se, antes da pandemia do COVID-19, ajudar o próximo já era uma preocupação, a «missão» ganhou agora ainda mais expressão. «Faço os domicílios porque gosto. Se fossem os meus pais nesta situação também gostava que alguém olhasse por eles. E, acima de tudo, os domicílios são uma maneira de assegurar, de forma segura e com aconselhamento, a continuidade da terapêutica».

Porém, nem só de aconselhamento farmacêutico e dispensa de medicamentos se faz o trabalho de Diva Bettencourt quando anda de porta em porta. Por estes dias de confinamento e recato social, a farmacêutica ajuda também a população a resolver pequenas tarefas como tratar da pensão de reforma ou de documentação.



«Pedi à doutora para ir às Finanças pagar o selo do nosso carro e também para ir à Segurança Social tratar do cheque da minha reforma dos EUA. Pedi-lhe porque agora não posso ir à cidade», conta Olívia Silveira. 

Na última ida a casa, Olívia e António Silveira presentearam a farmacêutica com «limões e um ramo de flores». «É uma amiga de todos os dias. Se não viesse cá a casa iria ser complicado, sublinha a septuagenária.

A pronúncia americana na voz de António denuncia a vida de outros tempos. 

Durante 12 anos, o casal viveu nos EUA – país onde a pandemia COVID-19 está a progredir mais rapidamente, com 432 mil casos de infecção e 14.817 mortes. «Lá, esta coisa do vírus não está boa. Andam todos aflitos», relata António. 

Com um filho a viver na Califórnia e o outro no Estado de Washington, o coração está longe de ter sossego. «Temos quatro netos e uma bisneta. O meu filho mais velho quando liga para cá só tem uma fala para a gente. Está sempre a avisar-nos: ‘Deixem-se estar em casa!’».

A pandemia de COVID-19 já matou mais de 87 mil pessoas em todo o mundo e mais de 1,5 milhões estão infectadas.

Quando for seguro voltar à rua, Olívia e António Silveira já têm programa definido. Vão retomar os passeios pela cidade da Horta, e voltar a entrar na Farmácia Lecoq. Desta vez, pelo próprio pé.​