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8 abril 2020
Texto de Carlos Enes Texto de Carlos Enes

Farmácia histórica em risco

​​​​​​​​​O COVID-19 infectou a equipa e agora ameaça o negócio.

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A Vitália, loja histórica da baixa do Porto, foi a primeira farmácia atacada pela epidemia que deixou Portugal de quarentena. No dia 12 de Março, fechou as portas em sobressalto e suspendeu a actividade devido à infecção de três farmacêuticos por COVID​-19. «Apanhámos um susto, mas felizmente estamos todos bem», recorda o director-técnico, Armindo Cosme.  

Com 87 anos, celebrados no dia 4 de Fevereiro, a Farmácia Vitália pertence a um grupo de risco. O coronavírus ameaça seriamente a sustentabilidade económica do serviço de saúde instalado no belo Palácio das Cardosas, um dos edifícios históricos da baixa do Porto. «Ultimamente, os turistas eram muito importantes para nós, sem eles não sei como vai ser», desabafa o farmacêutico, genuinamente apreensivo. A farmácia esteve encerrada 13 dias para toda a equipa fazer uma quarentena profiláctica, de acordo com as instruções dos médicos de Saúde Pública.

Reabriu no dia 25 de Março, após uma desinfecção integral das instalações. Adoptou um protocolo exigente de segurança, só não acordou do pesadelo. Só abre a porta a duas pessoas de cada vez, mas nem assim acumula filas. No sábado, 28 de Março, serviu ao todo 35 pessoas. Na sexta-feira, 3 de Abril, esteve de serviço nocturno sem fazer um único atendimento. A enorme cruz vermelha ficou a piscar para ninguém na elegante fachada art-déco. A mobida portuense, gostosa combinação de vinho do Porto, gin importado, calor humano e nevoeiro, é agora uma cidade fantasma. Daquela multidão vibrante, a trocar sotaques e línguas madrugada fora, não ficou o eco, nem as sombras.

Duas semanas sem facturar um cêntimo são a primeira parcela de prejuízo de uma nova crise, que se anuncia, ainda antes da crise geral que se abateu sobre as farmácias ter ficado resolvida. Na última década, com as medidas de austeridade e o êxodo de muita população residente, a facturação da Vitália caiu para metade. Em 2009, a porta não fechava, pontualmente às 21 horas, sem antes pelo menos 500 pessoas terem saído servidas e satisfeitas. A equipa tinha 15 pessoas, agora tem nove. A pequena empresa não consegue conservar os postos de trabalho. 

A aproximação do final da moratória para a livre actualização das rendas das lojas históricas é uma espada de Dâmocles, de lâmina afiada e presa por um fio, sobre um serviço com a rentabilidade diminuída. «Os residentes estão a ser comidos», descreve Armindo Cosme, que teme vir a ser mais uma vítima da especulação imobiliária. Centenas e centenas de casas de família passaram para o alojamento local, mas não foi apenas isso. Também fecharam agências bancárias, clínicas médicas, pequenos e grandes comércios. A fábrica dos Chocolates Arcádia foi para Gaia. Ficou a loja, mas levou com ela os operários. A Santa Casa da Misericórdia mudou-se para a Boavista. Os produtos de saúde e bem-estar, com IVA a 23 por cento, ganharam um peso maior na facturação, à medida que foi caindo o receituário. «Os turistas foram uma almofada de segurança para nós, mas alguém sabe quando voltam?», preocupa-se Armindo Cosme.
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​Uma farmácia que presta bom serviço conserva os seus clientes, por mais que o Palácio da Bolsa abane e por mais longe vão viver da Torre dos Clérigos. Domingos Moreira, 85 anos, vive no Campo Lindo. Não troca a Vitália por nada. Prefere meter-se no metro ou esperar meia-hora na paragem do autocarro 600. «Só posso dizer maravilhas do trabalho deles, resolvem-me sempre todos os problemas», conta o octogenário. De cachecol e casaco, continua a sair à rua sem medo para as compras de cada dia. À parte o aparelho auditivo, não sofre de grandes doenças. A mulher, que já morreu, essa sim, «gastava muita medicação, que às vezes ​era difícil encontrar noutro lado». Agora vive com um filho, que foi operado aos intestinos, e cuida dele pela segunda vez na vida. Na Vitália aprendeu tudo sobre os cuidados a ter com os sacos de colostomia. «Nunca deixam que lhe falte nada», agradece o octogenário.

Para além de elegante, a Vitália é grande que se farta. São três pisos de cem metros quadrados cada um. E já ocupou o prédio todo, no tempo em que tinha alvará de fábrica de medicamentos. Falta de espaço nunca foi problema nos edifícios art-déco, basta lembrar como eram os cinemas dessa época, com piolho, duas plateias, balcões e camarotes. Montras e portas de vidro enormes, com molduras de ferro de origem, apresentam à Praça da Liberdade uma gama impressionante de produtos de saúde e de bem-estar, sete postos de atendimento e muita, muita tecnologia. O aparato digital do século XXI reveste de luz branca, como as batas dos farmacêuticos, uma farmácia antiga, com um laboratório de medicamentos manipulados a bater forte no coração.​



A Vitália ainda produz todos os dias, agora com a arte centenária da manufactura dos antigos boticários. Do laboratório saem cápsulas de carbonato de cálcio para doentes hemodialisados, xaropes para crianças, pomadas e cremes dermatológicos, produtos específicos de veterinária. O serviço de manipulados oferece às crianças do Porto uma série de medicamentos que não têm versões pediátricas disponíveis no mercado. E responde, ao miligrama, às receitas “secretas” dos médicos mais exigentes, com destaque para os dermatologistas. O maior cliente são outras farmácias, mas também é procurado directamente por muitos portuenses com necessidades terapêuticas específicas, para quem a indústria farmacêutica não oferece soluções, pelo menos na dose adequada. Uma pomada para a psoríase e outras doenças, que ganhou fama de curar só pela pronúncia do nome, recebe encomendas de todo o país.

A farmácia já não tem máscaras para venda ao público, mas apenas para protecção da própria equipa. Já os desinfectantes não são problema. A Vitália dilui a sua própria água oxigenada e manipula álcool-gel. Está a vendê-lo a 9,90€, em frascos de 500 ml, um valor mais baixo do que o preço de mercado das apresentações industriais. O surto especulativo de fornecedores de ocasião está a dar cabo dos nervos aos farmacêuticos comunitários. «Estou à espera de frascos para as apresentações mais pequenas e de matéria-prima. Chegaram a propor-nos garrafões de cinco litros de álcool a 70 euros, uma loucura indecente», lamenta o director-técnico. O que lhe doeu mais na temporada de três semanas de reclusão em casa foi ver a rede de farmácias ser acusada na televisão pelos crimes económicos praticados a montante. «É uma falácia chamarem-nos especuladores, nós ajudamos as pessoas todos os dias», protesta Armindo Cosme. A dispensa a fiado ainda é uma tradição na Baixa do Porto. «Temos uma carteira de clientes a crédito significativa. Esse dinheiro dava-nos agora muito jeito, mas nós estamos cá para ajudar as pessoas quando elas precisam», confidencia o farmacêutico, com saudades do serviço.