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10 setembro 2018
Texto de Irina Fernandes Texto de Irina Fernandes Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes

A ilha que Deus pintou

S. Jorge, nos Açores, guarda inúmeros segredos para quem a visita.

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​O sol forte aquece a pele. Varandas e montras estão enfeitadas com colchas e as avenidas coloridas com pétalas de flores. Homens, mulheres e crianças exibem os melhores tecidos e penteados. É dia de homenagear o santo que empresta o nome à ilha.
 
«São Jorge é o nosso padroeiro. É ele quem nos lembra o sentido da nobreza e da generosidade». José Bettencourt, padre, dá voz à homilia em dia de feriado municipal, em Velas. Os tremores de terra e as erupções vulcânicas que fustigaram a ilha levaram o povo a procurar cedo a palavra santa.
 
Os 22 terços do Divino Espírito Santo são, ainda hoje, motivo de cântico e reza. E a Torre da Urzelina – única parte da igreja que resistiu à erupção de 1 de Maio de 1808 – é, até à data, vista como um «sinal de Deus».
 
Germano Bettencourt, farmacêutico jorgense, 37 anos, está no largo da Igreja Matriz de São Jorge à hora do almoço, onde dezenas de jorgenses aguardam o arranque da procissão. «Há muita devoção ao Divino Espírito Santo. É a festa religiosa mais importante nas nove ilhas dos Açores».
 

Germano Bettencourt faz longas caminhadas na ilha
 
Natural da freguesia de Rosais e a trabalhar há 13 anos na Farmácia Tristão da Cunha, na Calheta, revela as riquezas da ilha. «A seguir vão ser dadas as sopas do Divino Espírito Santo».
 
Manda a tradição que a festa seja feita com oferendas. Criadores da ilha matam «cinco ou seis vacas» para dar sustento às sopas. Não falta à mesa o bolo típico: as Espécies de São Jorge. Com forma de ferradura têm recheio de especiarias como erva-doce e canela.
 
«Vamos indo até à costa Norte, que agora ainda há sol», sugere Germano. De braços abertos para o Oceano Atlântico, a ilha de São Jorge parece um jardim. Dos pastos às falésias há verde. O castanho – que empresta apelido à ilha – define-lhe as formas ondulantes. Uma cordilheira vulcânica atravessa-a de lés a lés. Com 54 quilómetros de comprimento e 6,9 quilómetros de largura é a ilha mais comprida dos Açores, depois de São Miguel.
 
A data em que foi descoberta é incógnita. Alguns historiadores mencionam o dia 23 de Abril (por ser o Dia de São Jorge) de 1439.
 
«Desde já, peço-vos desculpa se falar com muito entusiasmo…É que sou muito orgulhoso da minha terra», solta o farmacêutico. Por aqui, onde o Homem em pouco ou nada tocou, olhar para o relógio é coisa rara. Germano está, desta vez, apreensivo com o tempo, pois quer fazer justiça aos encantos da sua ilha.
 
«São Jorge é a ilha das fajãs, são mais de 70».
 
Primeiro ponto de paragem: Fajã dos Cubres. Eleita, em Setembro, Aldeia de Mar no concurso “7 Maravilhas de Portugal”, da RTP, a fajã exibe-se solarenga e pujante nas cores. «Há fajãs onde já não é permitido qualquer tipo de construção». Línguas de terra estendidas ao mar, as fajãs – de origem lávica ou desabamento de terra, são exemplo da simbiose entre a natureza e o Homem. «Antigamente ninguém ia para lá, agora quem é de cá e tem lá casa vai ao fim-de-semana e nas férias!».
 

Fajã dos Cubres, eleita ‘Aldeia de Mar’ no concurso ‘7 Maravilhas de Portugal’ (RTP)
 
O ar puro e o silêncio – interrompido só pelos sons da natureza – com o mar e as lagoas à espreita, tornam as fajãs lugares idílicos. «São o retiro dentro do próprio retiro que já de si é a ilha».
 
Uma outra fajã faz-se ver: a Fajã da Caldeira de Santo Cristo. «É a pérola da ilha! Acreditem: é um lugar imperdível!», garante o profissional, alertando que «o acesso até lá abaixo só se faz a pé ou de moto 4». Aqui fica um dos recantos preferidos do farmacêutico: a poça natural de Simão Dias. «A água fica com uma cor maravilhosa quando o sol incide!».
 
Com dezenas de cascatas e ribeiras, São Jorge é um paraíso para a prática de desportos de água. O canyoning – descida a pé ou a nado de cursos de água – e o rapel fazem as delícias de iniciantes e especialistas. Os trilhos pedestres completam o cartão de visita.
 
No extremo nordeste da ilha está o Monumento Natural da Ponta dos Rosais – que se eleva aos 376 metros de altitude, acima do nível do mar – convidando à contemplação e ao recolhimento. «O pôr-do-sol aqui é fantástico! Não deixem de cá vir», insiste Germano, elogiando o lugar onde existe um farol abandonado e é comum avistar cagarros, ave marinha.
 
Na outra ponta da ilha, na costa sul, a Fajã dos Vimes é lugar «imperdível», em especial para os apaixonados por café – propõe o farmacêutico. Aqui fica a única plantação de café na Europa.
 

Manuel Nunes produz café biológico há 21 anos, na Fajã dos Vimes
 
«O processo de torra é feito em casa, nas sertãs antigas. Fazemos uma torra de cada vez, com um máximo de 1,5 kg», explica Manuel Nunes, de 66 anos, proprietário de 500 pés de plantação de café. Imagem de marca da ilha e embaixador gastronómico, o queijo de São Jorge, que se faz a partir de leite cru, tem travo único. Quanto maior o tempo de cura, mais seco e picante o queijo se torna. «Curiosamente, o queijo que é mais apreciado quer pelo turista continental quer pelo estrangeiro é o mais seco», conta Germano Bettencourt. 
 
O passeio à Fajã da Caldeira de Santo Cristo, zona de Reserva Natural e Área Ecológica Especial, é desafiante e demorada. O ideal é sair logo de manhã. À espera estão quatro quilómetros de trilho acidentado. Os grãos soltos de terra pedem olhos bem assentes no chão, não vá o pé pôr-se em destino errado. «Sempre que tenho cá amigos a visitar-me, trago-os aqui».
 
Uma hora depois, as águas da icónica lagoa impressionam. Tudo à volta é imponente. O tubo à tona da água de um mergulhador denuncia um tesouro raro. A Fajã da Caldeira de Santo Cristo é o único local dos Açores onde se desenvolvem as tão apreciadas amêijoas (Ruditapes Decussatus), e que são uma iguaria local. «Faço este serviço há 13 anos, mas o caminho é sempre bonito», diz o guia, David Moreira.
 

 
Dentro de cinco horas, Germano voltará ao serviço na farmácia. Mas não sem antes ‘namorar’ mais um pouco a sua querida ilha.
 
«Vocês vão-se embora e eu vou dar um mergulho ou fazer pesca submarina. Está um dia tão bonito!».​
 
 

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