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10 dezembro 2018
Texto de Maria João Veloso Texto de Maria João Veloso Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro

O viajante ecológico

​​Luís Baião venceu um cancro e reaprendeu a andar no mundo das viagens.

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«Na terra dos sonhos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal», canta Jorge Palma. Essa canção parece pairar, radiante, sobre a Casa dos Sonhos, em Mação. O projecto foi idealizado por Luís Baião, um homem que irradia uma energia difícil de reproduzir, como se soubesse o segredo da paz. O melhor é que sabe e tem prazer na partilha. Se um dia viu a morte a passar, não lhe deu tréguas, fintou-a com um sorriso atrevido e hoje está cá para contar a história. À volta da mesa está Vitália, a mãe causadora da sua vitalidade, António, o pai sempre a ajudá-lo a concretizar os sonhos, e Daniela, a mulher que escolheu para o acompanhar na vida e nas viagens.

A Casa dos Sonhos, espaço eco-familiar de retiros, funciona há três anos. Como tudo na vida de Luís, nada foi premeditado. Há um quarto de século a família quis fazer uma casa no campo. De repente já estava a trazer até ali os mesmos grupos que o acompanham nas viagens por Marrocos, Índia, Nepal e Butão, entre outros países do mundo. É neste pequeno paraíso onde couves portuguesas convivem paredes-meias com um pomar biológico, que Luís nos resume a aventura. 

 

​​Até 2011 Luís era um curioso, aquele viajante que chegava de uma jornada com um álbum de fotografias e andava pelos cafés do bairro a partilhar as histórias. A sua vida era o mundo. Foi em Marrocos que sentiu um caroço no pescoço. Quando chegou a Portugal foi ao médico e o tratamento prescrito foi uma «pomadinha». O caroço ainda viajou com ele até à India.

Até que um amigo angolano o desafiou a acompanhá-lo ao Brasil. «Fazem-te lá um diagnóstico certeiro», disse-lhe. Em Janeiro de 2011, uma hora depois de o avião ter aterrado, deram-lhe a notícia. Tinha um cancro de nível IV na língua, já em estado bastante avançado. «Eu? Cancro? Nem sabia bem o que significava aquela realidade. Mas o médico foi fantástico e disse-me que eu ainda era novo para me “degolar” e escolheram outra abordagem». Iria fazer quimioterapia e radioterapia, e só em último caso seria sujeito à cirurgia.

O tratamento do cancro demorou seis meses. Luís brinca que, por ser viajante, haveria de ser «fora do país». Sentiu-se seguro, até porque a mesma equipa tinha tratado com sucesso Michael Douglas, com um problema oncológico semelhante. A casa-mãe atravessaria o Atlântico ao seu encontro. Os pais estiveram com ele em São Paulo durante o processo. A missiva era irrecusável: «Mãe, preciso de uma cozinheira». Cortou com os açucares e refrigerantes, e passou a comer apenas alimentos biológicos.

Para se sentir efectivamente em casa escolheu um bairro típico da cidade. «Praticava chi kung ao nascer do Sol, antes dos tratamentos, porque naquela hora tem-se mais energia». Com uma quimioterapia portátil, fazia caminhadas pelo Parque Ibirapuera.

A alimentação foi fundamental. «Dois meses só a comer arroz integral. Os médicos diziam-me: "As tuas análises estão fantásticas e a alimentação ajudou". No meio de uma dose industrial de processos químicos, eu tentava dar vitaminas ao meu corpo».


 

​Luís meditava e escrevia muito. Numa fase em que quase nem água conseguia engolir e demorava umas duas horas a comer, a meditação foi a tábua de salvação. «Entrava em processos meditativos. Se tivesse ficado tantos dias sem descansar tinha entrado em colapso.» Vencido o cancro, Luís enfrentou outro problema: as cabeças dos fémures tinham sido destruídas pelo tratamento. Já em Portugal, esperou dois anos pela regeneração do corpo para receber as próteses. «Era uma operação grande e invasiva». Durante esse tempo, Luís soube o que era não poder andar. «Estava deitado na cama e as pernas não dobravam». Foram anos intensos e introspectivos.


 

​​Daniela Ricardo, hoje sua mulher, regressou à vida de Luís na fase crucial anterior à operação. Trazia a “poção mágica”: uma lancheira de comida biológica. Tinham-se conhecido uns 15 anos antes, num curso de macrobiótica. Ele achou-a «uma miúda gira, toda arranjadinha. Ela olhou para mim e via um pedante. Já com as minhas calças da Índia e o meu japamala [terço budista]». Daniela ouve atentamente a entrevista e corrige: «Era um armante».

Estão juntos desde então e garantem ter o melhor dos mundos. «Ela cozinha para mim e, como consultora de alimentação, dá aulas e workshops de nutrição; e encaixa perfeitamente nos projectos de viagens». Literalmente, a Zen family, empresa que organiza viagens aos lugares mais exóticos do mundo, “casou-se” com a Biofamily de Daniela. A empresa de Daniela ficou em 2.º lugar no Gourmand World Cookbook Awards 2018, na categoria de receitas fáceis, com o livro “Cozinhar com Amor”.

 

 

​Há uma data que Luís não esquece: 14 de Fevereiro de 2014. «Foi o dia em que voltei a andar». A primeira coisa que lhe apeteceu fazer foi andar de bicicleta. «Ainda não tinha força nos músculos mas já me conseguia equilibrar no parque da cidade do Porto. Quando peguei na bicicleta parecia uma criança, chorava e ria». Esse foi um momento marcante. E faria ali também uma promessa: a de voltar aos locais que o apaixonaram. Vou mostrar ser possível, mesmo com próteses». Depois disso subiu ao Machu Picchu, no Peru, ao Ninho do Tigre, no Butão, e já fez o Caminho de Santiago pela costa portuguesa.​


No Porto, cidade onde mora nos intervalos das viagens e dos retiros espirituais, avisa: «Se avistarem alguém a rir em cima de uma bicicleta, não pensem que estou doido, estou mesmo contente porque ainda tenho presente a memória de não poder andar». As mesmas pernas um dia inertes agora dançam, praticam ioga e fazem de Luís Baião um milagre da ortopedia. O cirurgião ouve vezes sem conta a piada: «Oh Correia Martins, temos de acertar as contas, porque paguei as próteses para andar e elas até já dançam quizomba.»​



 
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