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4 maio 2018
Texto de Maria João Veloso Texto de Maria João Veloso Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro

Grávida da própria cura

​​​​​​​​​​Quando foi mãe, ela venceu a leucemia.

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​A elegância não o denuncia, mas Michelle Búrigo confessa que não há melhor conforto do que uma boa lasanha com um copo de vinho a acompanhar. Está grata pelo que tem. «Estou numa das minhas melhores fases.». Um conceito abstracto de felicidade que inclui realização pessoal e duas filhas pelo caminho. 

Advogada num escritório em Lisboa, Michelle é ainda vogal do conselho de administração da Associação Portuguesa Contra a Leucemia.  Trabalhar ali fá-la dar o que não teve quando aos 20 anos descobriu que tinha leucemia mielóide crónica (LMC): esperança.

Na época vivia em Florianópolis e estudava para o exame de acesso à universidade. O cansaço excessivo levou-a ao hospital. Hoje brinca com a situação. «Dizem em Direito que a ignorância não ajuda, a minha beneficiou-me. Não sabia o que era a leucemia». Quando confrontada com a doença, achou que era uma anemia e que «com vitaminas e uma canja da mãezinha se resolvia.» Não aconteceu. O médico que a diagnosticou desconfiou da descontracção. E lá explicou que os valores das análises revelavam que os glóbulos brancos se estavam a multiplicar. A realidade foi assentando, negra. «Pensei que ia morrer.». Nas semanas seguintes deixou de fazer planos. «Não havia mais futuro, deixei de estudar. O vestibular (exame de ingresso na universidade) deixou de ser prioritário.». Foi a pior experiência da sua vida, puxaram-lhe «o tapete de uma esperança no futuro».

Há uns anos, a única opção para um doente de LMC era o transplante de medula, mas Michelle não tem irmãos 100 por cento consanguíneos. 

Começou os tratamentos com injecções de interferão alfa que, apesar de combaterem a leucemia, «comiam-me por dentro. O tratamento levou-me à inutilidade. E o interferão alfa não fazia efeito nenhum. Só havia uma esperança: o imatinib (Glivec), um medicamento inovador.».

Este medicamento é dispensado exclusivamente nos hospitais. Acontece que nem todos os hospitais brasileiros o tinham disponível. «Para se fazer valer o direito ao medicamento, tinha de se pôr uma acção contra o Estado. Para uma doente em fase blástica (aguda) conta-se os minutos. Não se conta os meses que uma acção corre em tribunal. Uma pessoa na minha situação morria, sem sentença e sem medicamento.».

Arranjou-o, então, de forma informal. Quando a embalagem chegava, «era assustador, saber que a medicação estava nas minhas mãos porque alguém já tinha morrido». Outra realidade era o mercado negro, que fazia dinheiro à custa das necessidades das pessoas; alguns comprimidos eram verdadeiros, outros feitos de farinha e açúcar.


Na Associação Portuguesa Contra a Leucemia usa a advocacia para apoiar os doentes

Um namorado português e a procura de melhores condições de saúde trouxe Michelle para Portugal. «Deixei a faculdade no Brasil e reinscrevi-me na Universidade Católica.» O médico no Brasil enviou os relatórios para o Dr. António Parreira, na altura director do serviço de Hematologia Clínica do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa. Ao vê-la numa consulta particular, o clínico disse-lhe que teria prioridade no IPO. «Casei e, ultrapassadas as burocracias, correu tudo bem.». Chegada ao IPO, descobriu que estaria a tomar 50 por cento abaixo da dose necessária. Passado pouco tempo, e com a dosagem certa, entrou numa fase de remissão. A doença nunca mais voltou para a fase crítica.

O pior dos tratamentos eram os vómitos e as tonturas, mas Michelle soube dar a volta à situação. Se antes a toma do comprimido era de manhã, o que a deixava debilitada metade do dia, por sugestão médica passou a tomar os medicamentos à noite. Jantava, fazia a digestão e adormecia antes de chegar o mal-estar.

No fim de 2008 descobriu uma gravidez nada planeada. «Embora quisesse muito ter um bebé, sabia que o Glivec era uma sentença. Qual não foi o meu espanto e dos médicos quando engravidei.». Na altura gostaria que alguém lhe tivesse servido de exemplo, que lhe tivesse dito também estive grávida e correu tudo bem. Perante várias possibilidades, resolveu levar adiante o Glivec e a gravidez. «Foram 11 meses sofridos.». No primeiro trimestre corria o risco de aborto espontâneo, no segundo era uma fase complicada em que fez exames que as outras grávidas não fazem. Finalmente, no terceiro trimestre vivia com o pesadelo do parto prematuro. «Mas a miúda aguentou-se até aos nove meses. Nasceu aos gritos, perfeita e maravilhosa.». O problema seguinte surgiu quando lhe disseram que não podia amamentar enquanto estivesse a tomar Glivec. «Aí, sem perguntar a ninguém, decidi parar. Parei dois meses e tirei todo o leite que tinha para tirar. Fiz um stock; esvaziei o frigorífico, a prioridade era o leite.» Depois da pausa regressou ao Glivec. Voltou a tomá-lo. «As análises continuavam normais, o corpo não tinha sofrido com a ausência.».


Quando foi mãe, interrompeu a medicação sem dar conhecimento aos médicos. Como resultou, na segunda gravidez foram eles a convidá-la a parar
A segunda gravidez já foi planeada. Ao informar o médico das suas intenções, ele respondeu-lhe, desconfiado: «A Michelle de seis em seis meses chega com uma novidade». O Dr. Almeida, o hematologista que a seguia, entretanto, contra-atacou com outra novidade: «Quer parar de tomar o medicamento?». Será que tinha ouvido bem? Um dia tinham-lhe dito: «Se chegar ao Brasil e se esquecer do medicamento, o melhor é voltar no primeiro avião.». Mas claro que queria parar.

Apesar de «ter ficado com 'dores de órfão'», quatro meses antes de engravidar da segunda filha parou completamente o Glivec. «Desde Março de 2010 que não tomo o medicamento». Hoje vive a olhar para o presente e a perspectivar o futuro. A doença pode voltar? Pode, «mas tanto para mim, como para o vizinho do lado». Jamais deixará de viver por causa disso. «Nem de trabalhar, ter filhos e criá-los, ter amigos ou ir jantar fora. Como qualquer outra pessoa normal.». Mais normal do que isto é impossível.

 

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