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14 outubro 2019
Texto de Carina Machado Texto de Carina Machado Fotografia de Mário Pereira Fotografia de Mário Pereira

A cidade dos homens-pássaros

​​​​​​​​​​Viagem à capital da aeronáutica.

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Conhecer Vila Franca de Xira é tropeçar em histórias de homens que ousaram ser pássaros, e desafiaram regimes repressivos.


O enfermeiro Fábio Espanhol no Museu do Ar, visita obrigatória de todas as crianças do concelho 

Fábio Espanhol é um apaixonado pela etnografia e tradições folclóricas do concelho, onde reside desde criança. O enfermeiro, de 28 anos, sabe que a cidade tem segredos seus e das freguesias, que quer desvendar.

O ponto de partida é pessoal. Como boa parte dos miúdos do município, foi no Museu do Ar, em Alverca, que viu pela primeira vez um objecto histórico. As raízes da aeronáutica na região são profundas. Aqui nasceu o primeiro aeroporto português, na pista do Campo Internacional de Aterragem, que serviu as primeiras ligações aéreas civis. Instalou-se, em 1918, o parque militar aeronáutico.


Santa Cruz, aeronave usada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral na primeira travessia aérea do Atlântico Sul

Em Alverca, hoje um dos três pólos do Museu, pode ver uma das maiores colecções  de motores no mundo, que  o director, coronel Rui Roque, descreve como «a nossa coroa de glória». Orgulhoso, fala também da réplica do Santa Cruz, um dos hidroplanadores utilizados em 1922 pelos comandantes Gago Coutinho e Sacadura Cabral na primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Levando como únicos instrumentos de navegação um horizonte artificial e um sextante, foi das águas do Tejo que se elevaram rumo ao Brasil.

Em Alhandra, nos anos 40 do século passado, "Gineto" e "Gaitinhas" sobreviviam nos esteiros, canais estreitos do rio Tejo onde se labutava no lodo pelo barro. Da janela do quarto, Soeiro Pereira Gomes era testemunha indignada do afã dos «moços que parecem homens e nunca foram meninos». Crianças, forçadas pela miséria a trocar a escola pelo trabalho na indústria da telha e do tijolo.​

Imortalizados no romance “Esteiros”, os moços de Soeiro cruzam-se com os «ciganos do rio», de Alves Redol, pescadores que no Inverno largavam o mar da Praia da Vieira (no concelho da Marinha Grande, Leiria) e vinham à faina nas águas mais mansas do Tejo, e cuja vida árdua o escritor da terra retratou em “Avieiros”.​

Os dois autores são apontados como os percursores em Portugal da corrente estética neo-realista, um movimento que brota no concelho, em meados dos anos 30, da vontade de denunciar as paupérrimas condições socioeconómicas da maioria, inspirado por uma ideologia adversa ao Estado Novo. Nos vários campos de expressão artística, o povo explorado é glorificado e elevado à condição de herói.


O Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, é o único no mundo dedicado àquela corrente estética

Em todo o mundo, há um museu dedicado ao neo-realismo. «Vila Franca de Xira é o seu lar natural», assegura Manuela Ralha. A vereadora da Câmara Municipal com o pelouro da Cultura explica que aqui irrompeu a grande força do movimento. Muitos neo-realistas fizeram no concelho as suas investigações de campo, «nas salinas, nas fábricas, nos telhais, nas lezírias, no rio».


O varino "Liberdade" faz a navegação  do Tejo em cinco rotas distintas

Na cidade ainda é possível encontrar uma comunidade de avieiros, homens e mulheres que em tempos substituíram o embalo das embarcações bateiras para se fixarem em casas palafíticas ao longo das margens do rio. «Talvez seja das maiores que restam», arrisca o mestre Luís, que leva 58 anos de vida no Tejo, 26 à frente do barco varino “Liberdade”.

O varino nasceu “Campino” em 1945, em Abrantes, onde foi construído. Transportou de tudo no Tejo: couves, vinho, sal, madeira, lixo. Nos anos 60, encheram-lhe de pedra a barriga, onde lhe abriram um buraco e afundaram-no. Nos anos 80, a Câmara Municipal resgatou-o ao lodo e restaurou-o, deu-lhe um novo nome e uma nova vida. Hoje tem estatuto de Núcleo Museológico, e nele é possível navegar por cinco rotas fluviais, todas com partida do cais de Vila Franca.​


Luís Godinho, mestre do Liberdade, trocou a informática pelo Tejo

A bordo do “Liberdade”, a vista é deslumbrante. É possível avistar muitas das 200 espécies que nidificam no estuário e reconhecer, na baixa-mar, outros varinos menos sortudos, presos no lodo. O passeio junto à emblemática Praça de Touros Palha Blanco, onde os touros roçavam o abdómen do toureiro Mário Coelho. No mundo das lides, o seu é um nome maior, e na Casa Museu com o seu nome, em Vila Franca, percebe-se porquê.


O menu do "Voltar ao Cais" presta homenagem aos frutos do rio

No “Voltar ao Cais”, em Alhandra, o touro vem à mesa. O lombo, servido à portuguesa, é parte da homenagem que o restaurante presta aos frutos das lezírias e do Tejo.

Localizado num dos armazéns que compunham um complexo de armazenamento de arroz, trazido da outra margem nas barcaças do rio, o restaurante oferece uma ementa sazonal, onde se destacam o sável e as enguias, bem como o queijo de cabra da Maçussa, produzido artesanalmente naquela aldeia de Azambuja.


A produção de vinha na Subserra chega às mesas com o rótulo “Encostas de Xira"

O vinho fica a cargo da Câmara Municipal. António Félix, vereador com o pelouro do Turismo, fala de «uma rara iniciativa de promoção do concelho», assente na exploração vitivinícola na seiscentista Quinta Municipal de Subserra, em São João dos Montes. “Encostas de Xira” mostra o rótulo.


António Félix, vereador da Câmara Municipal de vila Franca de Xira, na Quinta Municipal da Subserra

Depois das vindimas, Fábio descobre no Cabeço da Rosa, em Alverca, o que australianos e americanos há muito conhecem: o Morgado Lusitano. Instalado na Quinta da Portela, este turismo rural oferece a proximidade aos cavalos lusitanos e a aprendizagem da arte equestre.


Cavalo lusitano na Quinta da Portela, sede do Morgado Lusitano

Em Arcena, na ermida onde se eleva a Capela de São Clemente, ouvem-se vozes de outros tempos. «Oh freguesa! Venha ver os meus queijos!».


O Rancho Folclórico da Casa do Povo de Arcena estuda e preserva os costumes do concelho

Fábio sopra a sua ocarina e segue no encalço do pregão. A música que arranca ao tradicional instrumento de sopro em barro embala a vista que abarca ao longe o Tejo e serve de mote aos bailadores do Rancho Folclórico da Casa do Povo da vila. Dançam e cantam a canção do “Enleio”.
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