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14 outubro 2019
Texto de Sandra Costa Texto de Sandra Costa Fotografia de Pedro Colaço Martins Fotografia de Pedro Colaço Martins

Toca o sino

​​​​​​​​A extensão de saúde fechou em 2010. Resta o posto farmacêutico, que abre todas as tardes.

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Posto farmacêutico de Chã - Chã, Vila Real

O toque electrónico do sino da capela marca a passagem do tempo. As ruas estão desertas, mas os ruídos que chegam do interior das casas provam que ali há gente. Vozes de crianças que choram, da mãe a ralhar, do adolescente que canta sobre a música alta. Os campos estão cultivados, o burro espera amarrado, há roupa estendida, flores enfeitam a frontaria das casas. Continua a haver vida na Chã. Mesmo se a vegetação cresce nas ruínas das casas tradicionais de granito e muitas vivendas ostentam tabuletas a dizer “Vende-se”. O automóvel com matrícula francesa recorda o país de emigrantes que continuamos a ser. As moscas dentro das casas anunciam a presença próxima do gado. Chã é, continua a ser, uma aldeia transmontana. Lá habitam 200 almas.


Há cada vez menos crianças e jovens na Chã. A freguesia perdeu metade da população desde 1960

Chã faz parte da freguesia de Vila Chã, a sete quilómetros de Alijó, a sede do concelho. Os censos de 2011 dizem que a freguesia perdeu metade da população desde 1960. De então para cá são os olhos de quem lá vive que registam as baixas. Uns partiram “para o outro lado”, a juventude foi embora para o estrangeiro ou as cidades. Foram «governar a vida, que aqui não há grandes meios», resume Maria Filomena. Nascida na Chã há 66 anos, tem a sorte de manter grande parte da família junto a si. 


«Toda a gente foge. Só ficamos cá nós, os velhotes», desabafa José Cardoso

Até 2008, a aldeia era local de passagem obrigatória para quem, vindo do Norte, ia para Alijó, Favaios ou Pinhão. A construção de uma variante à Estrada Nacional 212 desviou da Chã boa parte do movimento e fez perigar muitos negócios. Sobreviveram meia dúzia. Hoje, o posto de combustível, a zona industrial, a dois quilómetros, e o posto farmacêutico são os pólos de atracção da aldeia. «O que acontece na minha aldeia é o que acontece em várias», diz José Cardoso. Com 75 anos, expressa-se com desenvoltura, apesar da terceira classe incompleta. «Levaram tudo das aldeias para as capitais de distrito. Toda a gente foge, uns por motivos de trabalho, outros para terem uma vida mais limpa. Só "ficamos cá" os velhotes».


«Sentimos que estamos a ajudar as pessoas», afirma com orgulho o farmacêutico Augusto Pires

Na última noite de ano novo, um enfarte arrastou José Cardoso para o hospital. Pouco passava da meia--noite e meia quando iniciou o percurso de 35 quilómetros para ser atendido em Vila Real. Noutros tempos, dez minutos seriam suficientes para socorrê-lo no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Alijó, aberto toda a noite. Fechou em 2007. Também a extensão de saúde da Chã encerrou, em 2010. O posto farmacêutico, criado em 1989, esteve moribundo durante anos. Em Outubro de 2017, Augusto Pires, proprietário da Farmácia de Favaios, reabriu-o. É o único serviço de saúde da aldeia. 


O centro de saúde é em Alijó. São oito euros de táxi para ir e voltar

O posto da Chã funciona todos os dias entre as 14h30 e as 16h30. Mal abre as portas, logo ali se reúnem muitos vizinhos, em alegre cavaqueira. Maria Filomena e duas irmãs, o senhor Cardoso com a esposa, outros vizinhos. Todos se conhecem, muitos nunca saíram da Chã. As conversas cruzam-se no pequeno espaço do posto. É um ponto de encontro tão ou mais animado do que os dois cafés da aldeia. O “tio” Maurício compra ali tudo o que precisa para a cabeça de 94 anos «regular melhor». «Hoje estou aqui, amanhã já cá volto», brinca. Mora a 50 metros. Sem o posto teria de deslocar-se a Alijó, oito euros de táxi para ir e voltar. Outra vantagem é comprar fiado. «Se tenho dinheiro, levo, se não tenho, levo também», diz alegremente, para logo lembrar que não deve nada a ninguém.


Mal o farmacêutico abre as portas, logo se reúnem muitos vizinhos, como Maria Filomena, à direita na foto, e duas irmãs

Maria Filomena acrescenta que ainda foi, com alguns vizinhos, a Alijó «fazer uma revolução» por lhes fecharem a extensão de saúde. De nada adiantou. Gostava que reabrisse, mas não tem muita esperança. «Os nossos políticos é que mandam, que pela vontade do povo estaria aberto». José Cardoso confirma que a saúde já viu dias melhores na aldeia. Está satisfeito com a reabertura do posto farmacêutico. «Facilita-nos a vida». Mora próximo, na casa mais bonita da Chã, que comprou com as poupanças amealhadas em França ao longo de duas décadas. «À farmácia vamos a pé, nem que seja agarrados a um pau. A Alijó já não podemos ir e, além disso, lá não fica tão bem ficar a dever».


Fernanda Pimentel, 70 anos, aprecia a paciência com que o farmacêutico lhe explica o que não entende nas bulas

Fernanda Pimentel é responsável por uma família de acolhimento. Já teve ao seu cuidado muitos idosos, hoje são só dois. Mais não pode, ela própria já conta 70 anos. Acolhe-os, gere a medicação, acompanha-os aos serviços de saúde. Dos cinco filhos, quatro emigraram. Só tem consigo uma, que sofre de autismo. Não poupa nas críticas aos serviços de saúde. Do centro de saúde de Alijó diz que é «um triste remedeio». Um dia acompanhou lá uma idosa, esperaram cinco horas. Já a farmácia é uma «mais-valia para o povo». Não a trocava por nada, garante. «Ó doutor, preciso de fraldas! Preciso desta medicação e não tenho receita. Ó doutor, pode trazer-me a receita de Alijó?». Também aprecia a paciência com que o farmacêutico lhe explica o que não entende na bula. «Tenho mais ajuda do doutor da farmácia do que do médico de família».

A pequena equipa desdobra-se em atenções. Dois farmacêuticos e um técnico de farmácia repartem-se entre o posto e a Farmácia de Favaios. Dispensam medicamentos, prestam serviços, entregam ao domicílio. Não se limitam a entregar, atendem em casa quem não se pode deslocar ao posto. Esclarecem dúvidas, aconselham. Quando é preciso, trazem de Alijó encomendas que nada têm a ver com produtos farmacêuticos. Às vezes, as pessoas vêm ao posto comprar um ben-u-ron e saem quando as portas se fecham. «Fazemos de psicólogo, não me vou atrever a dizer de padre, fazemos de médico, de assistente social…», conta Augusto Pires, com uma ponta de orgulho. «Sentimos que estamos a ajudar as pessoas, já somos parte do dia-a-dia de muitas».

 

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