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2 junho 2022
Texto de Vera Pimenta Texto de Vera Pimenta Fotografia de Ricardo Castelo Fotografia de Ricardo Castelo Vídeo de Nuno Santos Vídeo de Nuno Santos

Sopro de vida

​​​​​​Ana encontrou na música a força para enfrentar a doença, um dia de cada vez.​

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“Romance” é o título da composição de José Vianna da Motta que ecoa nas paredes do auditório principal do Conservatório Regional de Música de Vila Real (CrMVR). Com a sua flauta transversal, Ana interpreta a melodia do compositor clássico português, acompanhada ao piano pelo colega Vasyl Tsanko.

Aqui, Ana sente-se em casa. Com o olhar atento na partitura, a paixão pela flauta chega até à plateia em notas afinadas e no tímido balanço do corpo ao ritmo da música. Cada sopro transparece a força com que enfrenta a doença silenciosa que, há 11 anos, quis pôr pausa na sua vida. E o motivo por que todos os dias sai vitoriosa.

Ana Miranda sempre teve o «bichinho da música». «E cheguei a um ponto da vida em que não fazia sentido ser mais nada», confessa. O dom, evidente desde os tempos de criança, acompanhou-a ao longo de todo o percurso académico e musical.

Aos 39 anos, enumera com orgulho as colaborações em bandas e orquestras nacionais, e os cursos que continua a colecionar. Uma das suas investigações deu origem ao livro “Método de Flauta - Iniciação”, focado nas necessidades de aprendizagem dos mais pequenos.

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A paixão pelas aulas de música deu origem ao livro "Método de flauta - Iniciação"

Em 2004 foi convidada a ingressar no CrMVR como professora de flauta transversal e descobriu o seu propósito. «Adoro os miúdos», conta. «É muito bonito vê-los crescer».

A flautista garante que as aulas são um momento de escape, em que «não se pensa em mais nada». Apesar de tantas terem sido as vezes em que a vida lhe deu muito em que pensar.

A história começa em fevereiro de 2011, tinha Ana 28 anos. Eram as primeiras férias com o marido, também ele professor de música, com quem se tinha casado em outubro. Depois de um ano de paragens recorrentes nas urgências, o corpo dava sinais cada vez mais fortes de que alguma coisa não estava bem. Ao cansaço extremo juntava-se a perda de peso, a incapacidade de comer e as cólicas insuportáveis que teimavam em não passar.

Naquele mês, os sintomas agravaram-se ao ponto de se ver obrigada a desistir do cargo que ocupava na Direção do Conservatório. Apesar das perdas de sangue e consequente anemia, os médicos continuavam a insistir que a culpa era do excesso de trabalho, do stresse e da ansiedade.

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​​Acompanhada ao piano por Vasyl Tsanko, Ana interpreta "Romance", de Vianna da Motta

Nos nove meses que se seguiram, a cada consulta Ana era dispensada com uma receita de anti-inflamatórios e sem qualquer pedido de exames complementares de diagnóstico. «Não me sentia ouvida», lamenta a professora. «Estava muito assustada».

Encaminhada por uma médica amiga, foi numa consulta de gastrenterologia que ouviu falar pela primeira vez numa possível doença inflamatória intestinal. A colonoscopia confirmou as suspeitas. «Quando entrei no quarto e vi uma equipa de médicos, percebi que alguma coisa de grave estava a acontecer».

Ana foi diagnosticada com pancolite ulcerosa, uma doença autoimune que afeta todo o revestimento interno do intestino grosso. «Um dos médicos disse: “Nunca vi um caso tão grave”», recorda. «Fiquei sem chão».

Depois de tanto tempo em busca do diagnóstico, a doença tinha atingido uma fase aguda. Nos quatro anos que se seguiram, houve várias tentativas de tratamento sem sucesso. Cada vez mais fragilizada, Ana viu-se obrigada a mudar-se para perto dos pais, que cuidavam dela enquanto o marido trabalhava.

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«Adoro os miúdos. é muito bonito vê-los crescer», conta a professora de flauta transversal

Quando os corticoides não foram suficientes para controlar os sintomas, o tratamento passou a incluir medicamentos biológicos e imunossupressores. Durante dois anos, o corpo aguentou as doses, embora poucos fossem os sinais de melhoria.

«Até que, numa toma, tivemos de suspender completamente, porque eu fiz uma reação muito grave». E, por instantes, Ana perdeu novamente a esperança.

No entanto, foi nesse momento que, como por milagre e para grande surpresa dos médicos, a doença começou a estabilizar. «Foi como se o meu corpo tivesse feito reset». Desde então, apesar da pancolite continuar a manifestar-se diariamente, os períodos de crise são alternados com períodos de maior normalidade.

Ultrapassada a pior fase, foi tempo de se adaptar à nova rotina e encontrar estratégias que permitissem aliviar os sintomas. Associada à medicação, a alimentação adequada é a maior aliada. Ana aprendeu a importância de controlar a ingestão de fibras e de evitar alimentos processados, optando por refeições sem molhos ou condimentos excessivos.

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Ana sempre teve o «bichinho da música»

Por ter um sistema imunitário fragilizado, é essencial prestar atenção redobrada a vírus e bactérias. Por isso, no conservatório onde dá aulas, os encarregados de educação têm o cuidado de não levar os filhos ao mínimo sinal de doença. «Se não houvesse essa compreensão, facilmente eu ter​ia de ficar 15 dias em casa».

O apoio incondicional da família é, até hoje, uma fonte de força e motivação para dar a volta por cima. «Foi uma aprendizagem para todos», explica. «Porque não é só o doente que tem a doença. É toda a gente à volta dele».

Depois da aventura de uma vida, Ana recorda o quão complicado foi o seu processo de aceitação. E descreve como o aspeto físico contribuiu para aumentar essa dificuldade, juntando a perda descontrolada de peso ao inchaço provocado pela medicação. «Foram anos muito difíceis», afirma. «Não me sentia eu própria».

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Na música, Ana encontrou energia para enfrentar com otimismo a panc​olite ulcerosa

A quem possa passar pelo mesmo, Ana deixa uma palavra de alento: «Não ignorem os sintomas e, se não forem ouvidos, batam o pé as vezes que forem necessárias».

Um dia de cada vez e «com um bocadinho de otimismo», a doença ensinou-lhe que, de uma maneira ou de outra, há sempre uma forma de contornar os problemas. Que, como na música, é essencial fazer-se ouvir no mais ruidoso dos cenários. E que, mesmo quando nos vamos abaixo, o caminho é em frente. Porque «parar não é solução».