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16 julho 2020
Texto de Carlos Enes, Irina Fernandes, Rita Leça e Sandra Costa Texto de Carlos Enes, Irina Fernandes, Rita Leça e Sandra Costa

O vírus da liberdade

​​​​​Doentes mais frágeis conquistam o direito a escolher a sua farmácia.

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​​Cátia Chagas fazia todos os meses viagens de autocarro de ida-e-volta, entre Olhão e Lisboa, para levantar a hormona de crescimento do filho. Daniela Sequeira, de São Brás de Alportel, pagava do seu bolso o comboio e os táxis, a fim de aceder ao mesmo medicamento para a filha. Há nove anos que Mónica Descalço ia de Beja a Setúbal levantar os seus comprimidos e as injecções para o pai, de quem herdou uma esclerose múltipla. Fabrício Benevides, de 20 anos, metia-se num avião com a família, no Aeroporto de Ponta Delgada, para renovar no IPO de Lisboa a medicação para a sua doença genética rara, que lhe cobre a pele de tu mores. Também o septuagenário João Rocha era obrigado a fazer deslocações mensais de São João da Talha, onde vive, ao Hospital Curry Cabral, de Lisboa. Andava nesse vaivém desde que foi transplantado, vai para doze anos.

A COVID-19 trouxe a estas pessoas o direito a escolherem livremente a sua farmácia, como qualquer cidadão. Antes da pandemia, doentes oncológicos, transplantados, portadores de VIH/sida, artrite reumatóide, esclerose múltipla e outras doenças incapacitantes tinham de viajar pelo país para renovarem a terapêutica, em dias marcados, aos balcões de ambulatório das farmácias dos hospitais centrais. Para além do incómodo, essa obrigação era muitas vezes um problema. Os doentes mais pobres e envelhecidos, a viver longe das grandes cidades, sem carro ou carta de condução, empenhavam-se, pediam favores, passavam dias em transportes públicos. Quando esses expedientes falhavam, interrompiam os tratamentos.

Com a pandemia, as deslocações de doentes imunodeprimidos e com patologias incapacitantes aos hospitais, sem qualquer necessidade clínica, passaram a constituir um risco desnecessário e insuportável. No dia 19 de Março, a Direcção-Geral da Saúde e o Infarmed publicaram uma norma com vista a «agilizar a dispensa de medicamentos hospitalares através da farmácia comunitária».


Hospitais foram informados da disponibilidade das farmácias para continuarem a trabalhar gratuitamente, enquanto o valor do serviço é avaliado

Estava assim autorizada a Operação Luz Verde (OLV), uma iniciativa conjunta das Ordens dos Médicos e dos Farmacêuticos, a pensar na segurança dos doentes mais frágeis. As 2.923 farmácias comunitárias passaram a dispensar medicamentos dos hospitais, a título gratuito, de acordo com a livre escolha dos doentes. A operação logística foi suportada pelos distribuidores e pelo fundo de emergência Abem, da Associação Dignitude.

«Esta é a ajuda que nos faltava!», alegra-se a olhanense Cátia Chagas. Fazia todos os meses viagens de 300 quilómetros para cada lado, entre a cidade algarvia e Lisboa. Agora, levanta as injecções de somatropina, hormona do crescimento que administra diariamente ao filho, na farmácia da sua rua.


Os pais de Álvaro Jesus faziam viagens mensais de 600Km para ele ter a sua hormona de crescimento

A vitória mais importante da vida dela foi conseguir reverter o atraso no desenvolvimento físico de Álvaro Jesus. Quando ele nasceu, aparentava ser um bebé saudável. Os primeiros sinais de alerta só apareceram no jardim de infância. «O peso e a altura dele não correspondiam à idade. Tinha valores como se fosse dois anos mais novo», recorda a mãe. Aos sete anos, pesava 18 kg e media 1,06 metros. Foi quando iniciou o tratamento no Dona Estefânia, em Lisboa, hospital de referência em Pediatria para a região Sul e ilhas. As injecções revelaram-se eficazes. Álvaro, agora com 13 anos, já pesa 60 kg e mede 1,53 metros, está dentro dos padrões considerados normais para a idade.

A mãe deseja agora uma segunda vitória: continuar a tratar do filho sem ter de perder um dia de trabalho e de gastar 40 euros por mês nas viagens de autocarro. «Eu sou empregada doméstica, faço limpezas, e o meu marido é pescador, esse dinheiro faz-nos falta», afirma Cátia Chagas. E assume, com mágoa, que no passado «já aconteceu não podermos ir buscar as injecções a Lisboa por falta de dinheiro». Por mais chocante, não é caso único.


Rita Sequeira precisa de hormona de crescimento. Por isso, a família tem de ir de São Brás de Alportel a Lisboa todos os meses

«Será que estamos no fim do mundo? Isto não tem cabimento, parece uma coisa de um país do terceiro mundo », indigna-se Daniela Sequeira. É mãe da Rita, uma criança frenética e feliz, com o mesmo problema de Álvaro. Aos dez anos, mede 1,21 cm e pesa apenas 20 kg.


​«Não me importava de pagar pelo serviço, porque agora gastamos perto de 200 euros e perdemos um dia a tratar do assunto», protesta a mãe, Daniela Sequeira

A família luta há ano e meio contra «o absurdo» das viagens mensais de ida-e-volta entre São Brás de Alportel e o Hospital Dona Estefânia. Levantar a hormona de crescimento na farmácia da sua terra foi para ela uma grande conquista. «Não me importava de pagar pelo serviço, porque agora gastamos perto de 200 euros e perdemos um dia a tratar do assunto», contabiliza, revoltada.

 


O serviço, para já, permanece gratuito. No final de Maio, a Associação Nacional das Farmácias escreveu aos hospitais manifestando a disponibilidade das suas associadas para continuar a resolver os problemas dos doentes, a título gracioso, até o valor do serviço ser objecto de avaliação independente e de contrato.

«Muitas pessoas estão a torcer para que esta medida continue após a pandemia», relata a farmacêutica Lúcia Tibúrcio, de 43 anos, responsável pela dispensa de medicação hospitalar na Farmácia Nobre Sousa, de Olhão.
 

«É tempo perdido para o cidadão. Aqui, tem os medicamentos em minutos», afirma o farmacêutico Jorge Santos, da Farmácia São Brás

«Ter de fazer 600 quilómetros num dia é cansativo para qualquer pessoa saudável. Imagine-se o que isso significa para uma pessoa que é doente», observa a directora-técnica, Maria João Nobre de Sousa. «Não tem lógica a pessoa ter de se deslocar ao hospital para obter a sua medicação. É um acréscimo de trabalho desnecessário para a farmácia hospitalar e tempo perdido para o cidadão, que muitas vezes tem de faltar ao trabalho. Aqui, tem os medicamentos em minutos», descreve o farmacêutico Jorge Santos, proprietário da Farmácia São Brás.


«Com este serviço, estamos a proteger o utente e a fazer um trabalho de Saúde Pública», sintetiza Ana Monge, directora-técnica da farmácia Silveira Suc

«Todos os meses perco um dia de trabalho para ir buscar a medicação. Gasto mais de 50 euros em gasolina, portagens e alimentação. Por isso, gostava que esta medida fosse mantida após a pandemia», testemunha Mónica Descalço, de 35 anos, portadora de esclerose múltipla e residente em Beja. Graças ao novo serviço, deixou de ir ao Centro de Hospitalar de Setúbal renovar a medicação para si e para o pai, diagnosticado com a mesma doença. A Farmácia Silveira Suc, de Beja, não só lhe resolveu o problema como lhe entregou os medicamentos em casa. «O médico até me deixa sair à rua, se tiver os devidos cuidados de protecção. Como tomo imunossupressores, prefiro não arriscar», explica Mónica. O pai, António, de 62 anos, tomou a mesma decisão: escondeu-se do vírus no monte da família, juntamente com a mulher e outra filha. «Com este serviço, estamos a proteger o utente e a fazer um trabalho de Saúde Pública», sintetiza Ana Monge, directora-técnica da farmácia preferida pela família Descalço.


Mónica Descalço, de Beja, em vez de ir a Setúbal recebeu os medicamentos em casa

A epidemia abriu uma oportunidade de melhoria de qualidade de vida aos doentes mais frágeis. O problema é que a inércia é como a doença: não respeita idades. João Rocha tinha 18 anos quando o fígado lhe deu as primeiras arrelias. «Era internado a toda a hora. Só num ano, fiquei lá cinco vezes», recorda. Em 2008, foi submetido a um transplante no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. Daí para cá, o marceneiro reformado, agora com 70 anos, voltava lá todos os meses, só para ir buscar os medicamentos de que precisa para sobreviver. No início do ano, deixou de poder conduzir porque perdeu a visão do olho esquerdo. Teve de pedir ao filho mais velho, Carlos Manuel, 46 anos, para ir ele ao Hospital Curry Cabral.​

 



Por ironia, graças ao novo coronavírus, João Rocha teve uma palavra a dizer sobre o assunto, pela primeira vez em 12 anos. Escolheu a Farmácia Luna, em São João da Talha. «Agora, é só descer a rua, é tudo mais fácil», relata o septuagenário. Como ele seguiu o confinamento à risca, a mulher ou o filho levantam os fármacos, que também podem ser entregues ao domicílio. «Dirigimos estes utentes para uma porta lateral da farmácia, para que não estejam à espera em filas», relata a farmacêutica directora-técnica. «Alguns deles não têm carro próprio. Deslocarem-se ao hospital fica caro. De táxi, não gastam menos de 30 euros para cada lado», descreve Patrícia Luna.


«Dirigimos estes utentes para uma porta lateral da farmácia, para que não estejam à espera em filas», relata Patrícia Luna

Por incrível que pareça, há muitos insulares forçados a fazer viagens ao continente para levantar medicamentos. É o caso do açoriano Fabrício Benevides, de 20 anos, que vive em São Miguel. Sofre de neurofibromatose de tipo 1, uma doença genética rara que origina tumores a nível cutâneo. Toma um medicamento de manhã e à noite para prevenir o crescimento e a degeneração dos tumores. No seu caso são benignos, mas multiplicam-se pelo corpo e cobrem-lhe o rosto. Desde os quatro anos, quando a doença foi diagnosticada, já foi operado seis vezes, para a respectiva remoção cirúrgica.


Fabrício Benevides, de 20 anos, não tinha acesso a medicamentos na ilha de S. Miguel

A consulta que tinha agendada no IPO de Lisboa para meados de Abril foi adiada devido à pandemia. O médico sugeriu então à família o envio da medicação para a ilha. A mãe aceitou de imediato. Podia ter escolhido ir levantar os medicamentos ao hospital de Ponta Delgada, mas achou mais seguro recebê-los na Farmácia da Santa Casa da Misericórdia da Maia, a quatro quilómetros de casa. Ela e o marido são doentes crónicos, sofrem de diabetes. «Não queremos arriscar-nos», justifica Zélia Benevides. A farmácia mostrou-se honrada com a escolha. «A nossa missão, enquanto farmacêuticos comunitários, é prestar um serviço cuidadoso e eficiente à comunidade», considera a farmacêutica Teresa Silva.


«Se puderem continuar a enviar os medicamentos para cá, eu agradeço», pede a açoriana Zélia Benevides

O erário regional paga as viagens de avião. Mesmo assim, muitas famílias não gostam de pernoitar nas pensões escolhidas pelo Serviço Regional de Saúde (SRS), nem das alterações de alimentação e hábitos. Queixam-se de que o subsídio às deslocações «não chega para cobrir as despesas». Zélia Benevides deixa bem claro que não tem prazer algum em andar sempre a correr para Lisboa. «Tomara eu que a gente não tivesse de ir. Uma coisa é irmos para fazer exames ou consultas, lá terá de ser. Já os medicamentos, se os puderem mandar para cá, eu agradeço muito», pede a micaelense.

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