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11 dezembro 2018
Texto de Sandra Costa Texto de Sandra Costa Fotografia de Direitos Reservados Fotografia de Direitos Reservados

Essa candeia que queremos acender

​​​​​​Tem uma família de amigos, que fala dela no presente.

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Os anos pareciam não passar por ela e nem a morte, que chegou a 7 de Outubro, parece conseguir roubar-lhe a vida. Os amigos continuam a falar dela no presente. A professora é, continua a ser, a «pessoa fascinante» que inspira quem com ela privou.

A faceta mais conhecida é a de lutadora incansável, capaz de mover o mundo para concretizar as missões que abraçava. A este traço de carácter junta-se outro. «Era prodigiosa na arte de aceitar. Depois, guardava a energia para mudar aquilo que efectivamente podia», conta a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, sua amiga durante 27 anos. Sabia retirar o melhor de cada experiência e vivia feliz com o que Deus lhe reservava. Era profundamente católica, não por educação, mas por escolha, feita ainda em criança.

«Tinha uma vida absolutamente preenchida, cheia de actividades e alegrias», garante Ana Paula Martins. Todos os dias ia para a "sua" faculdade, onde o telefone nunca parava. Havia sempre alguém que queria informação sobre doutoramentos ou bolsas, ou ajuda para chegar a determinadas pessoas. «A sua opinião era muito valorizada. Foi, até ao fim, uma facilitadora em prol do outro», conta a sua biógrafa, Sandra Nobre. Já este ano, foi convidada para membro fundador de uma academia, no Norte do país. «Aceitou imediatamente, muito animada com a esperança de que fosse mais uma pedra importante na construção de uma profissão científica aberta ao mundo. Era assim a professora Odette aos 93 anos», alegra-se Ana Paula Martins.

A infância em África moldou-lhe a personalidade. No arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, onde viveu até aos dez anos, habituou-se a subir aos coqueiros e brincar à chuva. «Tinha a liberdade de estabelecer as suas próprias regras», diz Sandra Nobre. De África, trouxe a necessidade de sol e espaços amplos, que em Portugal satisfez na praia, o que explica o tom bronzeado que ostenta em todas as fotografias.

Maria Odette dos Santos-Ferreira sempre se guiou por convicções, e era dona de um espírito jovial e uma cabeça aberta. Do seu grande círculo de amigos, vários eram bastante mais jovens. «Tinha uma tolerância incrível perante os outros, dava-me conselhos com um à-vontade que muitas amigas da minha idade não têm», conta outra amiga, Dulce Salzedas. Ana Paula Martins confirma: «Ela era mais jovem do que eu, de cabeça. Podíamos falar de tudo». E conta um episódio: «No dia seguinte a ter conhecido o meu actual marido, fui de férias com ela para a Tunísia. Quando lhe contei que tinha conhecido um rapaz a quem achei muita graça, disse-me logo: “Tens de telefonar-lhe”. Oh, professora, eu não costumo telefonar a rapazes, respondi-lhe. Mas ela insistiu: “Claro que tens de telefonar!”».

Não teve filhos, mas criou uma grande família. Além das duas filhas do marido, foi uma ‘segunda mãe’ para muitos amigos. «Adoptou-me, no sentido literal, como adoptou vários de nós», conta o presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF). «Na faculdade, tratava-me como nos tratam as nossas mães. Chamava-me a atenção para a forma como eu falava em público, como me vestia, se fazia a barba». Por uma vez, zangou-se a sério. Foi quando Paulo Cleto Duarte decidiu abandonar a Comissão Nacional de Luta Contra a Sida (CNLCS). «Ao fim de dois anos, percebi que não ia ser funcionário público, por mais que gostasse de trabalhar com ela. Respondeu-me que eu era um tonto, onde é que alguém ia tratar-me como ela me tratava, que era muito mais giro o que fazíamos ali, porque estávamos a mudar a vida das pessoas».

As amizades nasciam da convivência, graças à «capacidade de transformar as coisas mais institucionais em pessoais, porque era uma pessoa muito simples e pragmática», explica Paulo Cleto Duarte. A amizade «improvável» que criou com Dulce Salzedas começou quando a jornalista da SIC procurou a professora, então presidente da CNLCS, para perceber mais sobre o VIH. Ficou comovida com a sua generosidade. «O termo professora encaixa nela como uma luva. Partilhava todo o conhecimento.
Tinha uma paciência de Job para me ajudar».

Eram as peripécias e o gosto pela vida que consolidavam as amizades. Numa viagem a Londres, com amigos, não descansou enquanto não conseguiu vender um bilhete para o teatro, caríssimo, que tinha sobejado ao grupo. A bastonária recorda: «Puxou-me para a esquina do quarteirão, enquanto os outros fugiram um bocadinho de nós, envergonhados, e foi chamando as pessoas até conseguirmos vender o bilhete. Foi uma festa».

Com Ana Paula Martins, gostava muito de andar às compras. Adorava moda, não prescindia da maquilhagem e o cabeleireiro chegava a ter nela um ‘efeito terapêutico’. «Uma profissional que se preza deve andar bem arranjada», dizia. A preocupação com a imagem não era vaidade, antes uma forma de estar na vida. «Se olharmos para o espelho e não gostarmos de nos ver, é perigoso», conta no livro “Uma luta, uma vida”. Mesmo nos momentos mais duros, obrigava-se a sair de casa, nem que fosse «para comprar uma caixa de fósforos», como lhe recomendou uma amiga como forma de não cair em depressão. Não se limitava a sair, arranjava-se com esmero para fazê-lo.

A morte do marido, aos 53 anos, revolucionou a sua vida. Optou por não voltar a casar e redireccionou a sua capacidade de entrega para o trabalho. Dormia três ou quatro horas, não porque sofresse de insónias, mas porque precisava do tempo para trabalhar. Chegava a trabalhar de pé ao computador para não adormecer. «Se dormisse oito horas por noite, o vírus [tipo 2 do VIH] ficaria por descobrir», dizia.

O apoio dos amigos foi essencial para continuar em frente. «Tinha duas famílias e dizia-o com grande satisfação», lembra Dulce Salzedas. Foi madrinha de casamento de Ana Paula Martins, com quem passava os dias de Natal e da Mãe, ao domingo ia à missa com Paulo Cleto Duarte, com estes e outros amigos passava fins-de-semana e férias. Para todos era um membro da família. «Era extraordinariamente divertida e uma grande conversadora, eu adorava passear com ela», recorda a jornalista. Os almoços e jantares prolongavam-se por várias horas, preenchidas com estórias. «Não as contava para se vangloriar, mas para que partilhássemos alguns dos momentos que viveu e achava muito engraçados». Ana Paula Martins garante que a professora não era nada centrada nela própria.

Rodeava-se de pessoas que partilhassem os seus princípios de lealdade e honestidade. Aos que amava, gostava de agradar. «Era muito afectuosa, atenta às necessidades das pessoas. Preocupava-se muito com as nossas vidas pessoais, se éramos felizes», conta a bastonária. Foi confidente e acompanhou todas as fases importantes da vida dos amigos, as novas relações, as separações, as dificuldades com os filhos, os êxitos profissionais. «Era uma extraordinária amiga, esteve sempre lá», diz Dulce Salzedas. Os amigos retribuíam. Todos os anos organizavam uma festa de aniversário surpresa, onde as velas do bolo não tinham números, porque «ela não tinha idade, só vida».

Amava profundamente animais. Um chimpanzé foi o seu melhor amigo de infância. Quando a família regressou a Lisboa, o Chico teve de ficar na Guiné. «Maria Odette chorou mais lágrimas do que tinha chorado até aos dez anos da sua existência», conta Sandra Nobre na biografia. O amor era recíproco, e Chico deixou de comer e morreu. Outra «grande paixão» foi Afonso, o yorkshire-terrier com quem viveu quase 14 anos. O cão, oferecido pelos colegas da CNLCS, acompanhava-a para a Comissão, a faculdade e, até, nas reuniões com o ministro.

Odette Ferreira não tinha por hábito queixar-se ou falar de temas negativos, como a morte e doenças. Dulce Salzedas conta que, no Verão passado, num passeio à beira-rio, um elevador avariado obrigou-as a subir uma grande escadaria. A professora tinha um problema na perna que lhe causava algumas dificuldades, mas encheu-se de coragem. «Subiu tudo e disse-me, a sorrir: «Olha, ainda bem que isto nos aconteceu. Nunca pensei subir estas escadas tão depressa». O episódio mostra como nunca desistia, mesmo diante das maiores adversidades. «Era o ADN dela: lutar, trabalhar, não desistir».
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