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11 dezembro 2018
Texto de Sandra Costa Texto de Sandra Costa Fotografia de Luís Silva Campos Fotografia de Luís Silva Campos

Fazer a troca sem ganhar nem perder

​​​​​​​Ousou tratar os toxicodependentes, lutou e venceu.

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​Enfrentou, um a um, todos os obstáculos e impôs o Programa Troca de Seringas (PTS). Depois de descobrir o tipo 2 do VIH, Odette Ferreira combateu a propagação do vírus, ajudando a salvar milhares de vidas e a reduzir o preconceito.

Foi das primeiras pessoas em Portugal a compreender que o VIH/sida representava um problema de saúde pública. Identificou os primeiros casos e percebeu que os toxicodependentes e os homossexuais eram os grupos mais infectados. Rapidamente confirmou que as seringas usadas para consumo de droga, deixadas nas praias e jardins, eram fonte de contágio.

Da consciência do problema à proposta de solução foi um passo. O programa imaginado por Odette Ferreira é simples e prático, um espelho da sua forma de estar no mundo. A troca em massa de seringas usadas por novas, com um duplo benefício: evitar a reutilização de seringas pelos toxicodependentes e garantir que as usadas saíam dos espaços públicos. Pegando numa ideia que tinha ouvido ao médico Luc Montagnier, com quem tinha trabalhado em Paris, elegeu as farmácias como o local ideal para a realização da troca de seringas. Neta de um farmacêutico, ela própria farmacêutica, sempre acreditou que as farmácias deveriam ter um papel importante na promoção da saúde. «Queria diminuir a transmissão do VIH nos toxicodependentes. Mas cá dentro, cá dentro mesmo, eu queria mostrar ao Ministério da Saúde o potencial dos farmacêuticos», confessou em 2015 à Farmácia Portuguesa. O programa incluía uma vertente de educação para a saúde: cabia aos farmacêuticos alertar os toxicodependentes para os perigos do contágio e esclarecer a sociedade portuguesa sobre o vírus. Era preciso «combater a estupidez de as pessoas terem medo».

O projecto era inovador e tinha objectivos ambiciosos. Além de prevenir a transmissão do VIH e hepatites em consumidores de drogas injectáveis, ousava querer mudar comportamentos e mentalidades. Para muitos, seriam motivos suficientes para desistir. Não para Odette Ferreira. Sabia que a consideravam «maluca», mas agiu como sempre agia quando acreditava num projecto: com determinação. Não descansou enquanto não viu de pé o PTS, a que se chamou “Diz não a uma seringa em segunda mão”. Aconteceu em Outubro de 1993, menos de um ano após ter assumido o cargo de presidente da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida (CNLCS). Contou com o apoio da Associação Nacional das Farmácias (ANF), que financiou o projecto-piloto de três meses e manteve as farmácias alinhadas com o programa.



«Só pessoas como o dr. João Cordeiro e a professora Odette conseguiriam implementar um programa destes, à escala nacional, e vencer o estigma da época», elogia o actual presidente da ANF. O PTS causou uma tensão enorme dentro do sector.

Houve greves. Muitas farmácias não queriam avançar, receosas de que a presença dos toxicodependentes afastasse a clientela ou de serem acusadas de incentivar o consumo de drogas. Foi preciso assumir o risco. João Cordeiro fê-lo. «Outra pessoa, mais preocupada com a imagem, teria dito que não. Claro que era difícil dizer "não" à professora!», acrescenta Paulo Cleto Duarte, sorrindo. O antigo presidente da ANF deixa todo o mérito à professora, na entrevista que deu para o livro “Uma História das Farmácias”, publicado em 2015 pela associação. «Foi o motor de arranque. Além das relações de amizade que existiam, ela tem uma característica: quando se mete numa coisa leva tudo à frente! Quando alguém criticava a iniciativa, apresentava 40 ou 50 bons argumentos, completamente impossíveis de rebater. Não era possível parar aquela "automotora"», observava João Cordeiro.

Defensora do rigor, Odette Ferreira estudava qualquer tema até o dominar a fundo. «Quando argumentava, as pessoas percebiam que estava preparada. Sabia exactamente o que estava a dizer», conta a sua biógrafa, Sandra Nobre, lembrando que, na primeira reunião para preparar o livro, a professora lhe entregou uma mala de viagem com uns 15 quilos de papel, tudo o que tinha sido publicado na imprensa sobre ela. Disse-lhe: «Tens aí leitura para os próximos dias, depois começamos a falar». Preocupava-se em informar bem os jornalistas, para que transmitissem a mensagem correctamente, recorda a jornalista Dulce Salzedas (ver págs. 78-81).

Não se limitou ao trabalho de bastidores. Palmilhou os bairros problemáticos de droga da Lisboa de então. Percebeu as necessidades dos toxicodependentes, reajustou o conteúdo do kit criado no âmbito do programa, ajudou a montar um centro de enfermagem e um centro social no Casal Ventoso, ia pessoalmente agradecer às farmácias que trocavam mais de 100 seringas por dia.

A sua convicção mobilizava quem a rodeava. «Mostrava com o seu exemplo que não era preciso ter medo. Bebia pelo mesmo copo, beijava ou abraçava os doentes». Não era por simpatia, mas por humanismo, que Odette Ferreira tinha tão grande facilidade de se relacionar com toda a gente, fosse ministro ou traficante de droga, acredita Dulce Salzedas. Durante oito anos, o sociólogo Fausto Amaro conviveu com Odette Ferreira na CNLCS. Era voluntário, como a restante equipa, e não raras vezes ficava até às 22 ou 23 horas a trabalhar sem sequer jantar. Recorda como esses foram tempos de intensa satisfação profissional. «Estávamos envolvidos numa acção que considerávamos de grande valor, comandada pela professora Odette, que nós adorávamos. Era uma pessoa muito bem-intencionada, acreditava na sua causa e transmitia essa confiança, conseguindo a adesão das instituições e pessoas».

Há 25 anos, não era fácil para uma mulher viúva, católica, enfrentar aquela batalha. Chegou a ser alvo de preconceitos. Houve quem atravessasse o passeio para não se cruzar com ela e chegaram a sugerir que era perigoso que continuasse a leccionar. «Sentia-se exposta ao defender o uso do preservativo perante grupos de homens, padres ou políticos, mas como cientista sabia que era o correcto», explica Sandra Nobre.

O tempo deu-lhe razão. Odette Ferreira alcançou os resultados a que se propôs. De acordo com um estudo divulgado em 2002 pela Exigo Consultores, o PTS evitou 7.283 novas infecções pelo VIH/sida por cada dez mil utilizadores de drogas injectáveis. Até 2001, a estimativa de poupança mínima foi de 400 milhões de euros. Reconhecido internacionalmente, o programa perdurou até 2012, sendo reatado no início de 2015. Além de salvar vidas, levou as farmácias a receber os toxicodependentes, tratando-os como iguais. «Foram a primeira estrutura de saúde a fazê-lo», nota Paulo Cleto Duarte. «O PTS pôs as farmácias num patamar diferente, transformou-as num espaço de saúde pública».
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