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9 setembro 2019
Texto de Vera Pimenta Texto de Vera Pimenta Fotografia de Ricardo Castelo Fotografia de Ricardo Castelo

Cidade que cura

​​​​​​​​​​​​​​​​Água mágica dos romanos brota do chão a 76 graus.

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Há cerca de mil anos, chovia no planalto da Pedra Bolideira, em Trás-os Montes. Na profundidade da terra, a água adquiriu os minerais das rochas encaixantes e percorreu 17 quilómetros até Chaves. O trajecto de um milénio permite hoje mergulhar na água mais pura de Portugal, que brota do chão a 76 graus.

Todos os anos, milhares de aquistas visitam a região, à procura das propriedades terapêuticas e medicinais das termas. Na água mais quente da Península Ibérica, aliviam-se patologias inflamatórias, degenerativas ou pós​-traumáticas. E esquece-se a azáfama do dia-a-dia.

Os romanos foram o primeiro povo a perceber que, ao mergulhar nessa água milenar, recuperavam rapidamente das mazelas sofridas durante as longas caminhadas e épicas batalhas. Essa descoberta haveria de impulsionar o crescimento da cidade em torno das termas. Mas a herança romana não fica por aqui. 


O castelo oferece uma vista panorâmica do centro histórico

Em pleno centro histórico, num mural ao fundo do Largo do Arrebalde, pode ler-se Aquae Flaviae. O nome com que os romanos baptizaram Chaves denuncia o local onde está guardado um dos maiores tesouros da cidade, descoberto por mero acaso em 2005. 

«Durante a construção de um parque subterrâneo surgiu um balneário de termas romanas que, depois de limpo, começou a funcionar como há 2000 anos», relata o farmacêutico flaviense Afonso Castro. Este surpreendente espaço será aberto ao público em breve, enquanto Museu das Termas Romanas de Chaves. 


O pitoresco e colorido centro histórico de Chaves

Em volta, vislumbram-se casinhas de todas as cores, que iluminam alegremente as pitorescas ruelas do centro. Nos vários andares, varandas de madeira em tons garridos abraçam os edifícios. «Diz-se que antigamente, devido às casas serem tão pequenas, as varandas eram uma forma de aumentar o espaço», conta. 

A viver em Chaves desde 1985, o farmacêutico de 58 anos tem memória das mudanças que o tempo foi trazendo à cidade. E garante que o casamento entre a História e a modernidade tornam Chaves no sonho de qualquer turista.

Do cimo da torre de menagem, avista-se a Ponte de Trajano, que une as duas margens do rio Tâmega. A paisagem pintada de azul e verde, deixa-se completar pela ciclovia que acompanha o rio ao longo de sete quilómetros.


O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso foi projectado por Siza Vieira

Na margem direita, o moderno Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA), projectado por Siza Vieira, ergue-se imponente nas suas linhas rectas. Lá dentro celebra-se a genialidade do pintor flaviense Nadir Afonso, entre quadros que expressam a sua paixão pela matemática e a geometria. 

Aberto ao público em 2016, o espaço conta com uma exposição permanente dedicada à vida e obra de Nadir, bem como exposições temporárias de grandes nomes do panorama artístico nacional.

O restaurante Carvalho, muito acarinhado na região, era um dos favoritos do artista. Numa das muitas visitas, chegou até  a deixar uma dedicatória no livro de honra que a casa mantém até hoje. As portas abriram em 1992, dando as boas-vindas a uma cozinha familiar, genuína e sem pretensões. 

À mesa chega a essência de Trás-os-Montes, sob a forma de nacos de vitela no borralho, arroz de cabidela, alheira ou o famoso arroz de fumeiro. Mas no menu também há espaço para o inesperado. Por isso é que, todos os dias, há pelo menos um prato com o peixe que o mar dá.

Nesta casa de família para famílias, os legumes são produzidos e colhidos pelas mesmas mãos que os cozinham. Os enchidos são feitos como antigamente e as carnes escolhidas a dedo.


O farmacêutico Afonso Castro conhece Chaves como a palma da mão

Dos restaurantes às pastelarias tradicionais flavienses, o farmacêutico Afonso Castro avisa, em tom de brincadeira, que em Chaves é particularmente complicado manter a linha. Presunto, folar, enchidos e queijos são algumas das iguarias transmontanas que fazem os deleites dos visitantes. No pódio, contudo, cabe apenas um vencedor. 


O pastel de Chaves é a iguaria mais conhecida da região

A história do pastel de Chaves remonta a 1892. Reza a lenda que uma vendedora misteriosa vagueava pela cidade com uma cesta à cabeça, recheada de estaladiços pastéis de carne. Ao ver o sucesso que estes folhados faziam entre os flavienses, a proprietária de uma pastelaria de Caves comprou a receita à mulher por uma libra. E assim nasce o ícone de pastelaria da região.


Helena Carvalho é perita no fabrico de pastéis de Chaves

Helena Carvalho, dona da loja D’Chaves e especialista no fabrico do pastel, acredita que o segredo possa estar na crocante massa folhada de três voltas que envolve a carne de vitela estufada. Aos novatos, deixa um conselho: Nada de talheres. O pastel deve ser comido bem quente e sem cerimónias.

Ao fim de uma refeição, a buvette das termas é paragem obrigatória. Atrás do balcão de mármore, uma simpática senhora pergunta entre sorrisos: «Vai um copinho?». 

O líquido serve-se directamente da fonte. Flavienses, convidados e curiosos esperam que a água arrefeça entre dois dedos de conversa. Sentados nas velhas cadeiras brancas de madeira que tantas gerações já viram passar. 

Gole a gole, afoga-se a solidão, abranda-se o ritmo e acalma-se a digestão. No coração transmontano é proibido dizer «desta água não beberei». E sabe-se que quem a bebe está destinado a regressar. 

 

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