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15 outubro 2018
Texto de Maria Jorge Costa Texto de Maria Jorge Costa Fotografia de Luís Silva Campos e Pedro Loureiro Fotografia de Luís Silva Campos e Pedro Loureiro

«A vacina é segura»

​​​​​​Graça Freitas é uma defensora da vacinação.

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​A sua vida mudou desde que é directora-geral da Saúde?
Mudou porque agora estou na linha da frente na Direcção-Geral da Saúde (DGS). Antes havia um director-geral. Fui subdirectora durante 12 anos e o que muda é a noção de que em mim acaba a responsabilidade. Tudo o resto manteve-se, mais ou menos. 
 

 
O dia da directora-geral começa bem cedo, na Alameda Afonso Henriques. Gosta de ver a agenda e documentos sem pressões​
 
Em breve começa a campanha de vacinação contra a gripe. Tem uma meta para a cobertura vacinal?
Já estamos entre os melhores da Europa porque atingimos, no ano passado, 65 por cento de cobertura vacinal para as pessoas com 65 ou mais anos. Esse é o grupo mais importante por reunir duas fragilidades: a idade, que nos torna mais vulneráveis, e a multimorbilidade, ou seja, várias doenças. Uma infecção grave como a gripe leva ao agravamento dessas doenças. 65 porcento é um dos valores mais altos no mundo.
 
São dados oficiais?
Sim, nossos e internacionais. Nós fazemos avaliações e há avaliações externas da Organização Mundial de Saúde (OMS). Se ficarmos na meta igual já achamos aceitável e realista de alcançar. Mais do que isto é difícil porque a gripe é uma doença que não é muitas vezes percepcionada como grave pelas pessoas.
 
Essa taxa tem correspondência ao nível da descida de doenças e mortalidade associada?
A vacina da gripe é feita com base numa previsão. Há duas épocas de gripe a nível mundial: uma no hemisfério Sul (quando é Inverno) e outra no hemisfério Norte. E os vírus vão mudando. As vacinas são feitas com previsões. A OMS, especialistas e indústria farmacêutica juntam-se duas vezes por ano e decidem qual vai ser a composição da vacina contra a gripe na época seguinte.
 
O que determina haver mais ou menos casos?
A natureza, em primeiro lugar. O vírus que entra em circulação pode ser mais ou menos benigno, mais ou menos agressivo. Em segundo lugar, a capacidade de previsão que houve em relação à vacina. Quando a vacina tem uma grande concordância com o vírus em circulação (a vacina é composta por três ou quatro vírus), tende a haver menos casos, menos graves e menos mortes. Chama-se a isto a efectividade da vacina. Se o vírus não for igual, as coisas já não correm tão bem, mas a vacina dá sempre protecção. Vale sempre a pena ser vacinado, desde que tenha indicação para o fazer.
 
A previsão para este ano é de maior ou menor agressividade?
Não fazemos a mais pequena ideia. Não temos essa capacidade de adivinhar o vírus (ou os vírus) que vai circular este ano no hemisfério Norte. Só saberemos depois de se iniciar a actividade gripal. Com os primeiros casos, os laboratórios vão estudar e caracterizar os vírus. De que tipo são: A ou B e se têm uma composição semelhante à da vacina. Sendo que com o evoluir da época gripal podem surgir novos vírus.
 
Para a maioria das pessoas é muito confuso. Por um lado ouvem dizer que a vacina é segura para os grupos de risco, por outro lado ouvem a directora-geral da Saúde dizer: “não sabemos o que vem aí”.
Vou dar um exemplo: estamos sem guarda-chuva. A vacina é um guarda-chuva, protege-nos. Eu não sei é se vou ter um Inverno moderado ou com chuvas intensas, mas sei que me molho se ficar à chuva. Vale sempre a pena vacinar. O benefício pode ser maximizado se o vírus for extremamente grave e estiver na vacina. É o tal grande aguaceiro em que convém que eu tenha um bom guarda-chuva para me molhar o mínimo possível. Para as pessoas em geral, existe sempre um benefício na vacinação. A vacina protege contra a doença e contra formas graves da doença.
 
 

 
Explique isso melhor.
A gripe é provocada por um vírus que atinge a árvore respiratória. Por vezes esse vírus sozinho tem capacidade de atingir os pulmões e originar uma pneumonia viral. Outras vezes abre a porta à invasão de bactérias, provocando uma pneumonia bacteriana grave. Por outro lado, o vírus debilita nos dias em que está activo. Para pessoas com asma, insuficiência respiratória, cardíaca ou diabética, o vírus da gripe é um factor de descompensação da doença. Podemos antecipar o efeito do vírus ou da bactéria. É um desperdício não utilizarmos as vacinas seguras. É preciso que as pessoas tenham esta noção: a vacina é extremamente segura. São vacinas inactivadas (os vírus não estão vivos) com alto perfil de segurança, rarissimamente dão algum efeito ou têm contra-indicações. Por isso o conselho é, obviamente: vacinar, vacinar, vacinar.
 
Toma a vacina?
Sempre. Desde que tenho indicação. A vacina é gratuita para o grupo de pessoas identificadas [pelo Ministério da Saúde]. Para outras é recomendada mas temos de ir à farmácia comprá-la. É o meu caso. Eu pertenço a um grupo de risco mas nem todos os grupos de risco têm a vacina gratuita. Compro-a na farmácia, vou ao centro de saúde e administram-na com uma receita médica que é válida até ao final de Dezembro. Quem for buscar a receita a partir de Setembro saiba que a receita tem, excepcionalmente, validade até Dezembro, para facilitar a vida às pessoas.
 
 

 
Portugal é um país envelhecido. Muitas extensões de saúde, sobretudo no Interior, fecharam portas e o único acesso à saúde por parte dessa população é a farmácia.
As farmácias são um parceiro fundamental e um grande promotor da vacinação contra a gripe. As farmácias têm profissionais formados para administrar esta vacina, cumprem todos os protocolos de segurança. A farmácia é um parceiro do Ministério da Saúde. Fazem parte do sistema de saúde. Todos os anos há pessoas que optam por ser vacinadas na farmácia. Mesmo aquelas para quem a vacina é gratuita, porque às vezes é uma questão de proximidade.
 
Como directora-geral da Saúde tem alertado para a necessidade de acompanhar comportamentos de risco. Nomeadamente na camada jovem. Como contrariar a tendência?
O álcool é muito mais tóxico numa criança, num jovem de 12 ou 13 anos do que num de 18 ou de 20. Não estou a desculpabilizar nem num nem noutro, só estou a dar uma informação. Os números do consumo de álcool abaixo dos 16 anos continuam elevados porque deviam ser zero. ​Tudo o que for acima é elevado, mesmo que as pessoas digam: «ah, mas é só uma vez por semana». A faixa etária entre os 11 e os 15 anos regista um consumo de substâncias e uma alimentação desadequados. Temos de reflectir muito bem sobre os dados que temos. E trazer para a reflexão não só os profissionais clássicos da saúde mas também quem consome. Porque há coisas que podemos estar a fazer convencidos de que está bem e o impacto ser nulo. Basta falar-se na comunicação, que é o tópico deste século: se o canal utilizado para comunicar com pessoas de 13 anos é pouco adequado, passa completamente ao lado. Temos de aprender novas formas de comunicação adequadas ao grupo-alvo. Como? Falando com eles. Se perguntarmos a 20 jovens aleatoriamente, com 14 ou com 15 anos, eles dir-nos-ão sem grande dificuldade o que é que vêem, ouvem, a que é que ligam.
 
 

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