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1 dezembro 2018
Texto de Vera Pimenta Texto de Vera Pimenta Fotografia de Anabela Trindade Fotografia de Anabela Trindade

Travamos a diabetes

​​​​​​​​​​​​​​​Na Farmácia Ferreira, em Souselo, os utentes diabéticos têm consultas mensais de controlo da doença.

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Farmácia Ferreira - Souselo

António Melo entra na Farmácia Ferreira numa sexta-feira de manhã, pela fresca. «Bom dia!» – os 63 anos não lhe levaram a energia e, muito menos, a boa-disposição. Com o à-vontade de quem está em casa, apressa-se a dar um aperto de mão aos velhos amigos atrás do balcão. Está em jejum e preparado
para a consulta de acompanhamento de diabéticos.
 
É assim há mais de um ano. Uma vez por mês, é na farmácia que lhe medem os valores de colesterol, triglicerídeos e glicémia, e a tensão arterial no braço e na perna. Na consulta faz também controlo do peso e do pé diabético, sobrando sempre tempo para discutir a evolução da doença e fazer algum ajuste na rotina.
 
O diagnóstico de diabetes surpreendeu-o em 2011. Nos cinco anos seguintes, António teve dificuldade em adaptar-se ao tratamento. As consultas trimestrais não eram suficientes para controlar os efeitos secundários dos medicamentos, ou sequer a própria doença. Já com vários quilos perdidos, foi uma consulta de endocrinologia, em 2016, que finalmente lhe permitiu voltar a ter uma vida normal. Agora, a dose de insulina varia conforme os índices glicémicos, o que exige um controlo apertado dos valores.
 
Quando o convidaram a ser acompanhado na farmácia, aceitou sem hesitações. «Eu tenho muito boa relação com os farmacêuticos e até agora tem sido excelente», conta. Com a visita mensal, consegue controlar todos os parâmetros da doença com uma frequência de outro modo impossível. «Saber como está a diabetes, isso eu já sei todos os dias!», atira. A vantagem da farmácia é permitir-lhe controlar outros parâmetros essenciais para controlar a doença e evitar as complicações que pode provocar. «Sei sempre como as coisas estão a evoluir. É um favor que me fazem».
 
«Senhor António, os valores estão óptimos». Do outro lado da mesa está o jovem farmacêutico Flávio Alves. Com amabilidade, vai perguntando ao utente se tem feito exercício e mantido a dieta, à medida que regista os resultados na ficha individual. Na aconchegante sala de atendimento não falta nada. Em cima da secretária, entre os folhetos de nutrição e os panfletos de aconselhamento para diabéticos, estão os medidores de tensão e de glicose, e o oxímetro. Ao canto, um armário com equipamento diverso, a maca e a balança.
 
A primeira consulta é a mais demorada. Através de um questionário, é reunida a informação essencial para o acompanhamento individualizado: dados pessoais, diagnóstico e historial da doença, hábitos alimentares. Se o doente apresentar excesso de peso, é encaminhado para o nutricionista; se tiver problemas no pé, para o podologista. «Trabalhamos em conjunto para bem do utente», conta Flávio Alves. E esclarece: «depois do rastreio, o doente decide se quer manter o acompanhamento».
 
A iniciativa arrancou em Junho do ano passado. Numa fase inicial foram seleccionados dez utentes e, gradualmente, avançaram para os actuais quinze. Até agora, o balanço é motivador. «Eu acho que é uma mais-valia para a comunidade», assume Flávio, de 26 anos. Enche-o de satisfação verificar que «ao longo do tempo os utentes apresentam valores mais equilibrados e constantes».
 

 «Alguns doentes nem sequer sabiam para que servia a medicação que tomavam», conta o director-técnico, Luís Moura

 

O desconhecimento dos doentes em relação à diabetes foi o principal impulsionador deste novo serviço da Farmácia Ferreira. O director-técnico, Luís Moura, conta que «alguns doentes nem sequer sabiam para que servia a medicação que tomavam e, inclusivamente, achavam que tinham uma doença curável».
 
Um dos principais objectivos da farmácia é esclarecer o utente quanto ao uso adequado dos diferentes medicamentos que compõem o tratamento. Quando aparece, a diabetes surpreende os doentes pela variação silenciosa dos níveis de açúcar no sangue, que se não for controlada pode levar à perda de consciência ou mesmo ao coma. Também os medicamentos, em dose excessiva, ou se o doente não ingerir a quantidade adequada de hidratos de carbono, provocam hipoglicémias, especialmente assustadoras no início. «Nos primeiros tempos é um choque muito grande. Mas, com a ajuda dos técnicos de saúde, o impacto da doença acaba por ser minimizado», garante Luís Moura.
 

 Na Farmácia Ferreira, em Souselo, os utentes diabéticos têm consultas mensais de controlo da doença
 
O director-técnico, de 52 anos, explica que, por amor à profissão, a equipa está sempre disposta a fazer mais pela comunidade. «Gostamos de sair da farmácia e saber que somos um elemento útil na cadeia da saúde. É o nosso papel». Agora, a intenção é alargar o acompanhamento personalizado a mais utentes. O processo leva o seu tempo. «Ou fazemos bem feito, ou não fazemos», conclui o farmacêutico.
 

 «A porta da farmácia está sempre aberta», afirma Ricardo Monteiro, farmacêutico proprietário
 
No meio rural em que a farmácia se insere, a iliteracia é ainda uma realidade entre os utentes mais idosos. Ricardo Monteiro, proprietário desde 2010, explica que muitos chegam a passar meses sem contactar com um médico. «A porta da farmácia está sempre aberta. Sem qualquer marcação, o utente pode ter a opinião de um profissional de saúde preparado para o esclarecer», afirma o farmacêutico de 52 anos. A maior recompensa é a confiança da população de Souselo, que serve há cerca de 50 anos. É por isso que todos os utentes que entram na Farmácia Ferreira são caras conhecidas. «Eu vi esta menina crescer», conta Luís Moura, enquanto atende Ângela Ferraz. «É verdade», confirma a jovem de 24 anos, «esta a minha farmácia». Entre risos, vai recordando como, em criança, o tratava carinhosamente por «o doutor». «Qualquer coisa era só perguntar ao doutor da farmácia». E assim é ainda hoje.
 

 «Esta é a minha farmácia», diz Ângela Ferraz, que vem aqui desde criança​​
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