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11 janeiro 2021
Texto de Irina Fernandes Texto de Irina Fernandes Fotografia de Mário Pereira Fotografia de Mário Pereira

Thayná, a vitoriosa

​Diante de um diagnóstico de paraplegia incompleta, recusou desistir.

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​A vida corria bem, e os estudos iam na perfeição. Dentro de poucos meses Thayná seria engenheira química, com a conclusão de um estágio em Lyon, França.

A viver na cidade há mês e meio, ia a caminho do centro de investigação, «onde já estava em cima da mesa um doutoramento», quando o inimaginável aconteceu: foi atropelada por um metro de superfície. 

Naquele mês de Abril, em plena pujança da juventude, Thayná Camões viu a vida tornar-se tenebrosa. O impacto do acidente não poupou o corpo. Aos 23 anos, esperava-a o mais indesejado dos prognósticos: nunca mais voltaria a andar. Teria de dividir a vida com uma cadeira de rodas. 

Para estabilizar a coluna, Thayná foi imediatamente submetida a uma artrodese. Na cama do hospital percebeu que nada voltaria a ser igual, mas deu-se à luta logo ali.

«Nunca questionei “Porquê a mim?”. Nunca tive essa atitude…», assegura nascida no Rio de Janeiro, Brasil. 

Aos 30 anos, Thayná Camões, que vive em Portugal desde os dez, é um caso surpreendente. 

A lutar há sete anos contra o próprio corpo, é hoje capaz de se levantar e andar com o apoio de um andarilho. «Eu era uma gelatina autêntica!», diz, soltando uma gargalha.

Desde o primeiro momento recusou a “prisão” anunciada pela equipa médica em França. Diante de um diagnóstico de paraplegia incompleta, com as vértebras D2 e D4 afectadas, recusou desistir. 

«Se o impacto na coluna tivesse sido um pouco mais acima, teria ficado afectada nas mãos. Bem vistas as coisas, até sou uma sortuda», atira.

É hoje o que sempre quis ser: autónoma. Tirou a carta de condução, vive e trabalha em Lisboa, e é engenheira química.

​​Um ano após ter o acidente, decidiu tirar a carta. Ser independente sempre foi uma prioridade

«Sabe bem olhar para trás e ver o que consegui. São sete anos de luta…».  O acidente roubou-lhe a força dos músculos, mas não a força de vencer. 

«Tenho dificuldade em desistir das coisas. Gosto sempre de me superar. E também sou um pouco teimosa!», assume. 

Quem conhece a sua história elogia-lhe a entrega e a capacidade de luta.  «Ela é um caso de sucesso devido à resiliência e às suas características mentais. É uma pessoa muito forte e mentalmente muito capaz», destaca Nuno Pereira, o fisioterapeuta da clínica Physiobidos que a acompanha desde 2013. Também o colega José Aires assegura que Thayná «é uma força da natureza». 


Com o apoio dos fisioterapeutas Nuno e José, Thayná reconquistou a capacidade de andar

Lado a lado, durante sete anos, os dois fisioterapeutas têm ajudado Thayná Camões a somar vitórias. «Ela nunca desmoraliza, tem sempre vontade de ir em frente», descreve ainda José Aires. 

Depois de ultrapassar um «moroso» processo de repatriamento para Portugal, enfrentou hospitais, consultas e exames durante um ano. Percebeu, logo aí, que a sua vida não poderia ser só aquilo.  «Comecei a ver-me fechada em casa… aquilo não era para mim. Decidi que tinha de arranjar um trabalho».

Impossibilitada de concluir o estágio em Lyon, sabia que era preciso procurar uma nova empresa para o fazer. Era preciso recomeçar. E foi isso que fez.  «Custou-me tanto tirar o curso, no Instituto Superior Técnico. Não poderia deitar tudo a perder», conta. Durante oito meses, a cumprir o novo estágio, desdobrou-se em viagens diárias entre o Bombarral e Lisboa, com a ajuda da mãe e da avó. Com uma proposta de emprego em cima da mesa, Thayná não hesitou e desafiou-se a iniciar uma vida nova na capital portuguesa. Sozinha. ​«Até então, eu tinha o meu emprego em Óbidos, ia nadar, ia ao ginásio à hora de almoço. Eu sabia a que minuto exacto deveria sair de um lugar», descreve. 

Depois de muitas tentativas, conseguiu arranjar uma casa. «É muito bom ter a minha vida», diz, orgulhosa.


Em qualquer lugar, a engenheira química desloca-se com desenvoltura

Nos últimos meses, por causa das medidas provocadas pela pandemia de COVID-19, voltou ao Bombarral. Duas vezes por mês faz-se à estrada e vai até Lisboa, para trabalhar. 

«Ficar reduzida a uma cama e a uma cadeira de rodas... isso não seria compatível com a minha personalidade», frisa. Quando a pandemia de COVID-19 desacelerar, ficará a tempo inteiro na capital. 

​​Todas as manhãs, Thayná faz exercícios para fortalecer o tronco e as pernas

Decidida a tornar-se cada vez mais autónoma, fez do desporto um aliado. «Tenho exercícios para fortalecer o tronco e também as pernas». Hoje é com destreza e à vontade que se movimenta entre os aparelhos de musculação. É figura assídua no ginásio, nas Caldas da Rainha, e todos admiram a sua evolução. 

«A Thayná já está connosco há muitos anos. Ela entra no ginásio, equipa-se e vai treinar. É um exemplo. Ninguém fica indiferente à sua história. É uma fonte de inspiração», descreve Hélio Dias, responsável do ginásio Queen's Fitness Club. 

Sete anos após a tragédia, Thayná acredita que o acidente aconteceu por algum motivo. «Para mudar algo em mim, nas pessoas que me rodeiam, ou na minha vida». 

E lembra: «Um dia mau não é sinónimo de uma história infeliz».

 

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