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18 julho 2018
Texto de Carlos Enes Texto de Carlos Enes Fotografia de DR Fotografia de DR

O pardal da Cumieira

​​​​​​​​​​​António Arnaut (1936-2018).

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Um dia há-de ser notícia: nasceu no dia 28 de Janeiro, no lugar de Venda das Figueiras, o filho varão de Lucinda Parente e Manuel Arnaut. Quem vai da Cumieira toma um carreiro aberto a foice e arado e em menos de meia-hora – mais, e levar carro de bois – chega à casa cor-de-rosa onde se deu o parto. Agora, no Inverno, há muita lama, mas o caminho não é tão ruim como isso. Cumieira é uma inclinação suave, pouco mais de uma borbulha na terra. O poeta há-de elogiar-lhe a altura, distinguindo a sua aldeia da mania das grandezas trivial nos homens do seu tempo.

Apesar da miséria, em 1936 ainda poucos se metem a emigrar. Nasce gente na Cumieira. Cria-se o porco, a vaca e umas galinhas. Floresta e lavoura vivem como irmãs. Por ora, pinheiros e eucaliptos não são deixados à solta, nem o mato tem tempo de levantar cabelo até às árvores. No grande carvalho do quintal, onde o menino há-de aprender a endireitar as costas e as letras, rompem do ovo muitas famílias de pardais.

A família Arnaut vai à missa. Quando lhe puser os olhos, António ficará a matutar na frase de Santo Agostinho: «Se a aflição do teu irmão aflige o teu próprio coração, isso é misericórdia». Cresce precisamente assim, com o sofrimento dos outros cravado no coração como um espinho. Para este rapaz, o sofrimento nunca é alheio. Católico praticante até aos 26 anos, chega a Grão-Mestre da Maçonaria sem mudar de mandamento: todos os homens são irmãos. Quando o visco da injustiça lhe apanha uma pata, solta a poesia e a raiva que o hão-de empurrar para a política.


O mandato de António Arnaut como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano (2002-2005) ficou marcado pela abertura da Maçonaria à sociedade

– Não me conformo com as pequenas injustiças. Aceito as grandes, porque são inevitáveis, como as catástrofes, e atestam a impotência dos deuses. Aquela criança, descalça, apenas precisava de uns sapatos. Se tivesse nascido sem pés não era tão grande a minha revolta.

Entramos nos anos 40, rebentou a guerra na Europa. Anda por aí muita fome. No campo, as mulheres são criadas para ter filhos. Nas escrivaninhas de pau da escola primária da Cumieira sentam-se António Duarte, 12 outros rapazes e Maria Ermelinda, única rapariga da sala. «Ele é que reparou em mim». Essa semente de infância brotou aos 16 anos num amor para a vida. Nos afectos e na amizade, o rapaz revela-se profundo e constante como um rio, metáfora recorrente na sua obra literária.


Foi colega de escola primária da mulher, Maria Ermelinda. Aos 16 anos, essa semente de infância desabrochou num amor para a vida

Aos nove, dez anos, faz vinte quilómetros de bicicleta em viagens de ida e volta ao Avelar. Vai comprar o jornal e aviar receitas médicas para toda a aldeia. O senhor Medeiros, farmacêutico da vila, ensina-o a administrar os injectáveis às pessoas do campo. Na Cumieira não havia médico nem enfermeiro. Conversam muito: da saúde das pessoas saltitam para a saúde do regime. «Ensinou-me a palavra Democracia». O laboratório dos fundos, onde se manipula medicamentos, vai ser palco de muitas reuniões da oposição.

Depois da quarta classe, António prossegue estudos no colégio de Avelar, que era de um sobrinho do seu amigo da farmácia. A sua sede de conhecimento e de justiça cativa os mais velhos. Quando chega a Coimbra para tirar Direito, em 1954, é atraído como um íman para o bando da oposição. Estabelece laços de sangue com três velhos republicanos e maçons: Fernando Valle, médico, Fernando Lopes, advogado, e César Alves, homem do comércio. Ermelinda e António casam em 1958. A candidatura de Humberto Delgado, que anda por todo o país a desafiar o regime, dá destinos de esperança à lua-de-mel. O jovem casal vai nas listas e ganha a Junta de Freguesia da Cumieira. Não satisfeito, no ano seguinte ele subscreve a célebre carta dos católicos a Salazar, a expressar nojo pelos métodos de tortura da PIDE. A protecção do presidente da Câmara de Penela salva-o várias vezes da cadeia, mas não chega para tudo. Num dia quente de Julho de 1961, um empregado da Câmara de Coimbra bate-lhe à porta, com «um sorriso lacerante».

– O senhor foi mobilizado para a guerra.


Sessão da Oposição Democrática em Coimbra, 19 de Outubro de 1969. A PIDE ficava impressionada com os discursos de Arnaut, que pareciam imunes ao medo

Vai ter outros momentos maus, mas a incorporação militar é o mais doloroso de todos. Ele não concebe a palavra ‘inimigo’, quanto mais andar aos tiros. Matar seria absurdo e um suicídio de consciência. É colocado em Ambrizete, no litoral de Angola. Consegue manter-se afastado das armas, num posto de transmissões. Continua a ir à missa todos os domingos. Um ano depois, é transferido para Nambuangongo, onde se cruza com Manuel Alegre. Forra o quarto com as fotografias do Papa João XXIII e de Fidel Castro. Quando o comandante descobre, manda-o retirar a do revolucionário cubano.

– Lamento, meu comandante, mas não posso tirar um sem trair o outro.

Ficam ambos na parede, lado a lado, mesmo após o regresso ao Puto do alferes João Cabral, personagem que incarna António Arnaut no romance “Jornada de África” (Dom Quixote, 1989), de Manuel Alegre. Ainda em Nambuangongo, um dia levanta-se para ir à missa e descobre que perdeu a fé, «como uma vela que se apaga». Não deixa de ser cristão, isso é outra coisa. Continua a invocar Jesus Cristo como grande inspiração de vida, ao lado de Mahatma Gandhi e de Che Guevara. Uma trilogia tão natural para ele como o bico do pardal ser triangular, facto biológico que permite à ave apanhar sementes da terra. Proclama a compatibilidade entre os ideais maçónicos, o socialismo e a religião que se apagou na vida dele. A via maçónica é a sua forma de religar o mundo.

Quando regressa a Coimbra, em 1963, canta-se a “Trova do vento que passa”. A 19 de Abril, é ele a bater à máquina a acta da reunião de fundação do PS, em Bad Münstereifel, na Alemanha. Chora de felicidade porque começa a sentir o tempo do seu lado, como na canção dos Rolling Stones. Nos anos seguintes, discursa imune ao medo em múltiplas reuniões clandestinas e jantares não autorizados da oposição democrática. A ficha na PIDE regista uma esperança contagiosa, revolucionária e pacifista.

– Sem balas, mas com votos, iremos ganhar as eleições. Porque, amigos, não se pode falar as verdades em voz alta?
Sim!

Vem a Revolução. É eleito deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República. Esperava a pasta da Justiça. Mário Soares toca-lhe no ponto de honra dos «valores socialistas» e convence-o a assumir antes a pasta dos Assuntos Sociais do II Governo Constitucional. Chega o momento decisivo, de lançar a primeira pedra do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Na Primavera de 1978, quando o assunto sobe a Conselho de Ministros, o FMI ‘intervencionava’ Portugal. A utopia, «ancoradouro da vida, Sísifo de chegada e sempre de partida», sobe ao poder. Sem a mais pequena hesitação, António Arnaut acredita naquilo que aos outros parece impossível, pelo menos naquele momento. O ministro das Finanças deita as mãos à cabeça por não ser possível prever os custos, os ministros do CDS abandonam o Governo, a Ordem dos Médicos faz uma fita para travar o projecto. Quando o primeiro-ministro pede ao ministro Arnaut para ter «calma» e gerir o processo «‘politicamente’ », responde-lhe o António, «um rapaz que vinha de uma aldeia, conhecia o sofrimento do seu povo e estava apostado em atenuá-lo».

– Mário, o SNS é um ponto de honra do Programa do Governo e do Partido Socialista. E isso é contigo. Mas também é um ponto de honra meu. A mim ensinaram-me a respeitar a palavra. A palavra dada é a palavra honrada. Eu não mudo uma linha. O Programa do Governo ou é para cumprir ou eu vou-me embora.

As sementes da misericórdia e da utopia co-germinaram um político raro, a maior parte do tempo estranho aos olhos dos seus pares. O SNS existe porque não havia médico na Cumieira. Foi uma «teimosia» do rapaz que ia ao Avelar de bicicleta, buscar tratamentos e revoluções. Pedalou sete meses como ministro e mais um como deputado da oposição, mas conseguiu aprovar uma lei impossível.

– Não contavam com a minha firmeza. 

Esta é a explicação autobiográfica do médico de província Afonso Mendonça, personagem central do romance “Rio de Sombras” (Coimbra Editora, 2007). A leitura deste livro é indispensável para se conhecer o pântano viscoso que forçou o militante número quatro do PS a abandonar a política activa, em 1983, assim como a alucinante descida aos infernos do regime democrático.

– Quem me quiser conhecer melhor, terá que me ler.

“Rio de Sombras” é um caudal de vergonhas e misérias: a corrupção, o carreirismo, o tráfico de influências, a intriga, a compra de lugares de deputado, os discursos plagiados, os jornalistas a soldo. Miguel Torga, amigo e confidente, aconselha-o a contar tudo num livro de memórias. António Arnaut é incapaz disso. Não nasceu para ataques à reputação dos adversários, quanto mais de camaradas de partido. O romance é a solução encontrada pelos dois escritores. Por direito, a sociedade portuguesa fica a conhecer a doença e pode dar-lhe a luta devida, mas sem julgar um único nome no pelourinho da opinião pública.

– Voluntariamente nunca fiz mal a ninguém, mas pergunto-me se fiz sempre o bem todo que pude. E fico com a alma ferida pela dúvida. Mas é apenas dúvida.
Não é remorso.



Imune a sentimentos de rancor, regressa à advocacia no escritório da Rua Manuel Rodrigues e à barra dos tribunais. Não aceita ‘tachos’ em empresas públicas nem prebendas no Estado. É uma voz livre. Os anos da Troika levam-no a intensificar a intervenção cívica. É mandatário nacional de António Costa. Nos jornais e nos bastidores, ajuda à construção de um inédito governo das esquerdas. Muito preocupado com o rumo da política de saúde, escreve com João Semedo o livro “Salvar o SNS”. Aproveita o último sábado em Coimbra para selar esse compromisso ao telefone com o primeiro-ministro.

Nas árvores do meu quintal
já não canta a primavera
mas há ainda um pardal
que alimenta a quimera

de me sentir como outrora
pássaro no meio da folhagem
criança feliz sonhadora
com asas de sol e coragem

a colher frutos maduros
para dar aos outros meninos
sonhos de outros futuros
caminhos de outros destinos

que continuam à espera
de novos tempos e modos
e daquela Primavera
que traga frutos a todos

Evocação em Redondilha, António Arnaut“Era Um Rio e Chorava” (Coimbra Editora, 2016)


 
A Farmácia Portuguesa agradece à Editora MinervaCoimbra a gentil cedência de fotografias.