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8 fevereiro 2021
Texto de Sandra Costa Texto de Sandra Costa Fotografia de Eduardo Costa Fotografia de Eduardo Costa

O paraíso é português

​​​​​​Os vulcões dão flores, chá e frutos do mar.

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O fim do dia corre sereno junto à marina de Ponta Delgada. Pessoas relaxam nas esplanadas, fazem jogging ou cycling no paredão, cagarros grasnam sobre a baía. Iates ondulam nas águas, velas hasteadas e bandeirinhas ao vento. O ferry “Moby Dick Tours” anuncia fantásticas experiências: “Whale  and Dolphin Watching”, “Sport Fishing”. Ao fundo, o casario branco debruado a basalto comprova que esta não é uma marina qualquer. Estamos na ilha de São Miguel, capital dos Açores e casa de belezas naturais de tirar o fôlego.


Na marina de Ponta Delgada, bares e restaurantes convidam ao lazer, o mar ao desporto e à aventura

O dia está ameno, a temperatura ronda os 20°C seja Verão ou Inverno. A humidade sente-se e cheira-se, cola-se ao corpo e torna impossível qualquer penteado. É escusado procurar previsões meteorológicas: pode chover de manhã e estar uma tarde radiosa de sol, pode estar encoberto no centro da ilha e um belo dia de praia. Qualquer açoriano sabe que no carro deve trazer fato-de-banho, toalha e gabardina.


«Temos tudo e tudo está próximo. É uma vida fabulosa, adoro viver cá», afirma a farmacêutica Teresa Almeida Lima

Os 63 por 15 quilómetros da ilha concentram o melhor que a montanha e o mar têm para oferecer. No mesmo dia é possível descer à cratera da Lagoa do Fogo e refrescar-se no mar. «Temos tudo e tudo está próximo. É uma vida fabulosa, adoro viver cá», diz com franqueza Teresa Almeida Lima. A proprietária da Farmácia Central, na Ribeira Grande, só deixou a ilha para estudar no Porto. Prometeu ao avô, farmacêutico, que regressava e cumpriu. Nunca se arrependeu. «Estar rodeada de mar traz-me uma sensação de liberdade».

A praia de Santa Bárbara, no concelho da Ribeira Grande, acolhe uma das provas do circuito mundial de surf. O azul intenso da água contrasta com o negro da rocha basáltica. O surf, o windsurf, os passeios de barco ou de mota de água são algumas das ocupações preferidas dos micaelenses. Do Atlântico vêm também o peixe fresquíssimo e as famosas cracas, marisco de intenso sabor a mar, embrulhado no que parecem ser pedaços de rocha.

A floresta de criptomérias alterna com pastos ladeados de hortênsias. Aqui os muros fazem-se de flores. Existe quase uma vaca por cada um dos 150 mil micaelenses. No caminho para a Lagoa das Sete Cidades, os arbustos de hortênsias rosa e lilás surgem, primeiro tímidos, depois exuberantes, até formarem filas densas de cada lado da estrada. Lá em baixo, a ponte separa as lagoas, uma verde, outra azul. A alteração de cor deve-se ao reflexo da vegetação na água. Ou talvez sejam as lágrimas da princesa, de um lado, e do pastor, do outro, largadas pelo amor interrompido, como conta a lenda.


Na Lagoa do Fogo, no fundo da cratera do vulcão ainda activo, sente-se o incrível poder da Natureza

Mais selvagem é a Lagoa do Fogo, lá muito ao fundo na cratera do vulcão ainda activo, rodeada pela montanha verde altíssima. O grasnar das gaivotas, que escolheram aquele paraíso para nidificar, chega cá acima. «Isto é tão bonito, uma pessoa não esquece», emociona-se a jovem da Maia que regressou ao fim de cinco anos. As duas lagoas são destinos incontornáveis para quem visita São Miguel. «Em ambas há muito para descobrir, trilhos lindíssimos», lembra Teresa Almeida Lima, que defende que os Açores devem fazer tudo por tudo por impor-se pelo turismo de Natureza.

Descer à Lagoa do Fogo é uma experiência única. O vigilante de Natureza que, de binóculos em punho vigia eventuais infracções, conta que já desceu em sete minutos e subiu em nove, a correr. O comum dos mortais pode contar com o triplo. É possível que chegue com as per- nas bambas, após a descida dificultada pelos degraus, às vezes com meio metro, assentes com estacas na terra. Ainda assim, há aventureiros dos cinco aos 70 anos. Lá em baixo, sem rede telefónica nem Internet, sente-se o incrível poder da Natureza.

O vulcanismo marca a identidade da ilha. Está presente na geografia montanhosa, feita de crateras de vulcões e fissuras por onde emergem águas quentes. Determina a arquitectura, baseada no basalto, ignimbrito e traquito, a fertilidade dos solos, o interesse turístico e a culinária. As duas centrais geotérmicas produzem 44 por cento da energia consumida na ilha e até a devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres nasceu do susto dos homens face aos sismos. Este ano interrompidas pela primeira vez desde há 320 anos, as festas trazem a São Miguel milhares de pessoas de todo o mundo.

A entrada na Caldeira Velha faz-se por um trilho que corre entre árvores altíssimas, mistura de floresta nativa e exótica, até ao Centro de Interpretação Ambiental, onde se conta a história geológica de São Miguel. Ao contrário do que muitos pensam, a maioria dos vulcões da ilha está activa. Só os complexos vulcânicos do Nordeste e da Povoação, com 4,2 e 3,2 milhões de anos, respectivamente, estão extintos. Furnas e Sete Cidades, Fogo   e a zona fissural dos Picos mantêm-se activos, conta o biólogo Tiago Meneses.


O boom do turismo na Caldeira Velha obrigou a limitar as visitas a 250 pessoas de cada vez​

A Caldeira Velha consiste numa falha geológica em contacto com a câmara magmática, situada na vertente Norte do vulcão do Fogo, um dos mais activos do arquipélago. É um dos locais mais visitados da ilha, a tal ponto que o boom do turismo obrigou a limitar a capacidade do local a 250 pessoas em simultâneo. É especialmente procurada pela magnífica cascata, sob a qual existe uma represa onde é possível tomar banho com água a 25°C e um cheiro intenso a enxofre. «Desfrutar de um relaxante banho nesta natureza incrível é uma experiência diferente», convida o técnico superior na Azorina – Sociedade de Gestão Ambiental e Conservação da Natureza. Nas outras três poças termais da Caldeira Velha, a temperatura eleva-se aos 36° a 39°C.


A piscina do Parque Terra Nostra, rodeada de araucárias centenárias, convida a banhos termais

Seja ou não na Caldeira Velha, é imprescindível vestir o fato-de-banho e experimentar um banho termal. Actualmente há edifícios termais na Ferraria, Ribeira Grande e Furnas. Quem lá mora considera que é uma área com grande potencial de desenvolvimento. Um dos locais mais procurados para banhos termais é a piscina do Parque Terra Nostra, rodeada de araucárias centenárias, com água de cor férrea mantida a 37°C durante todo o ano. Além do tanque principal, estão dispersos pelo par- que dois jacúzis de menor dimensão. «Na Caldeira Velha encontramos a Natureza pura, o Terra Nostra foi moldado pela mão do homem. Ambos são lindos», resume a farmacêutica.

«Tomar banho aqui em dias chuvosos é até mais agradável», garante Carina Costa, técnica responsável do jardim do Parque Terra Nostra. O efeito relaxante é o mais procurado, mas estas águas ricas em minerais têm outras propriedades terapêuticas. Tiago Meneses refere que são aconselhadas para o tratamento de doenças reumatológicas e dermatológicas, Carina Costa acrescenta que são procuradas para tratamentos à pele, obesidade, artrites e outros problemas de ossos. «Algo de bom e positivo esta água há-de ter e convidamos todos a virem cá experimentá-la», diz, com um sorriso.


O jardim do Parque Terra Nostra é considerado um dos mais belos do mundo, com 12,5 hectares de árvores centenárias de todo o planeta

A visita vale também pelo jardim, considerado um dos mais belos do mundo, com 12,5 hectares de árvores centenárias dos quatro cantos do globo. O jardim é a paixão da agrónoma, que seguiu os passos e o gosto do pai, jardineiro-chefe do Parque Terra Nostra há 30 anos. Muito do prestígio do parque deve-se às colecções botânicas de cicadales, fetos e camélias, que mereceram alguns prémios nacionais e internacionais. Carina Costa entusiasma-se enquanto mostra a colecção de 90 cicadales, consideradas fósseis vivos da época dos dinossauros e «uma das maiores da Europa», a colecção de 800 cameleiras que embeleza o jardim no Inverno, a de 200 fetos, uma mais recente de bromeliáceas, para além do jardim de estação, e outro de plantas endémicas e nativas dos Açores.


O menu de comida geotérmica é variado: cozido à portuguesa, alcatra, feijoada, caldeirada de bacalhau...

No final do dia, com o corpo descontraído pelo calor da água e a paz no olhar, vale a pena passar pelas caldeiras das Furnas para comer uma maçaroca de milho cozido nas covas e bebericar na nascente de “água azeda”. Aqui também se compram os melhores bolos lêvedos da ilha, diz quem sabe.


As covas das caldeiras são local de romaria «quando apetece fazer comida saborosa sem ter trabalho»

As covas das caldeiras da Lagoa das Furnas e das caldeiras da Ribeira Grande são local de romaria «quando apetece fazer comida saborosa sem ter trabalho». José Carlos Silva, morador na Ribeira Grande, veio cozinhar caldeirada de bacalhau para 18 pessoas. Em casa montou no tacho os ingredientes pela ordem certa, agora é contar quatro horas de cozedura a temperaturas de 100°C. Ao lado, o restaurante Caldeiras da Ribeira Grande serve comida geotérmica, desde o cozido à portuguesa à alcatra, feijoada ou caldeirada de bacalhau.


A fábrica de Chá Gorreana, de 1883, é a mais antiga e única plantação de chá da Europa, a par da fábrica do Porto Formoso, mesmo ali ao lado

Na costa Norte da ilha, a terra enche-se de campos de plantas de chá, carreiros de arbustos verdes a perder de vista, com o mar por horizonte. O edifício branco com letras garrafais vermelhas anuncia: Chá Gorreana. É a mais antiga e única plantação de chá da Europa, a par da fábrica do Porto Formoso, mesmo ali ao lado. A fábrica de 1883 é um museu-vivo, que contém a história de um negócio familiar com seis gerações, onde as mulheres têm um papel predominante. Nasceu do fim do ciclo da laranja, encerrado por doenças que dizimaram as plantações. A então matriarca, Ermelinda Gago da Câmara, teve de refazer a vida. «A Gorreana foi um novo princípio», conta Madalena Mota, que pertence à sexta geração. «Não sabemos fazer mais nada».


O trabalho destas senhoras é escolher o chá, separando laboriosamente as folhas dos paus

​​Na visita à fábrica é possível percorrer o trilho entre a plantação, provar as várias variedades de chá e visitar o circuito de produção instalado no antigo edifício de paredes brancas e amplas janelas abertas sobre o jardim: sentir o cheiro intenso das plantas na máquina de secagem, o movimento ritmado das máquinas Marshall de 1840 a laborar, a monotonia das senhoras sentadas em redor da mesa a escolher o chá, separando laboriosamente as folhas dos paus. A par da Caldeira Velha, a fábrica é dos locais mais procurados pelos turistas: recebe uns 99 por cento.

Num «ano bom», a Gorreana produz 47 toneladas de chá (preto e verde). Toda a produção é biológica, porque «na ilha não há pragas». São 45 hectares de terra, «uma aldeia  no mundo do chá», reconhece Madalena Mota, lembrando que no Bangladesh há plantações do tamanho de São Miguel. A fábrica emprega 62 funcionários e distingue-se no mercado como produto de alta qualidade. A produção é feita da maneira ortodoxa, mais dispendiosa, em que a folha é sempre separada. Perto de metade é exportada, quase toda para a Alemanha, disposta a pagar «a qualidade, a pegada ecológica e o comércio justo», explica a proprietária.

Na hora do regresso, é preciso trazer na mala chá preto e verde da Gorreana. Antes de partir, passe também pel'O Rei dos Queijos, em Ponta Delgada, e abasteça-se de pimenta da terra e queijos das várias ilhas. Já no ar, olhando o recorte verde da ilha sobre o azul do mar, fica a certeza: São Miguel é para regressar.
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