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13 janeiro 2020
Texto de Maria Jorge Costa Texto de Maria Jorge Costa Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro

«O desporto mudou a minha vida»

​​​​​​​Fernando Alvim ambiciona ser feliz todos os dias.​​

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Como é ser hipocondríaco? 
É estar sempre em alerta para qualquer problema. Há uma tese que diz que os hipocondríacos duram mais e eu concordo. Porque não fica à espera, o hipocondríaco age. Em 90 por cento das vezes não é nada.

É o cliente ideal de farmácia. 
Sou o cliente ideal. Os meus farmacêuticos conhecem-me bastante bem. Tenho duas farmácias em permanência há anos. Moro há muito tempo na mesma rua, em Lisboa. A verdade é que as farmácias desempenham um papel social que antes estava muito confinado aos correios. As farmácias têm um papel social de união. Chega a ser enternecedor perceber a relação dos farmacêuticos com a comunidade. São raras as vezes em que vou à minha farmácia e não estão pessoas lá sentadas a falar com os farmacêuticos, que são sempre muito simpáticos, muito amáveis com as pessoas mais idosas.


O apresentador, radicalista e comunicador assume-se: «Sou um homem a dias. Quero ser feliz o maior número de dias»

Considera-se uma pessoa feliz? 
Eu gosto de ganhar os dias, considero-me um homem a dias. Quero ser feliz o maior número de dias. Não quer dizer que seja feliz todos os dias, mas ambiciono isso. Sou um optimista céptico. Não parto para as coisas dizendo isto vai correr bem. Eu trabalho muito para que tudo corra bem. Vou dar um exemplo: quando era miúdo estudava imenso, mas era um aluno mediano. Estudava imenso para um exame e entrava na sala optimista. Às vezes corria-me mal e, quando tirava negativa, ficava descansado, porque sabia que tinha estudado tudo o que era possível. Levei esta fórmula para o resto da vida. É sempre assim que faço, embora pareça o maluquinho que vai para as entrevistas e não sabe quem tem pela frente. Na verdade sei sempre quem é a pessoa à minha frente, leio imenso. 


«De que importa estarmos só a trabalhar, se depois não temos a possibilidade de ter uma vida?»

É viciado em trabalho? 
Estou sempre a trabalhar. Houve uma fase em que era bastante workaholic. Entretanto decidi criar algumas regras para ter vida, que é absolutamente essencial. De que importa estarmos só a trabalhar, se depois não temos a possibilidade de ter uma vida? Por exemplo, não trabalho à noite. Isto é, se vou passar música, claro que trabalho à noite; se tenho um programa à noite, claro que vou trabalhar à noite, mas por norma não trabalho. Não levo trabalho para casa. Se tiver trabalho para o dia seguinte, acordo mais cedo para trabalhar. Na véspera, à noite vou jantar com os amigos, vou ao teatro, ao cinema, vou namorar, essas coisas que as pessoas que têm uma vida fazem.

Tem um núcleo de amigos chegados?
Tenho um núcleo duro de amigos daqueles mesmo nucleares. Não peço dinheiro a ninguém há muitos anos, mas se tiver de pensar a quem é que eu ia pedir dinheiro? Seria à minha irmã e a dois ou três amigos.

Tem uma grande ligação aos livros. 
O que eu gosto mesmo é de literatura. Dos portugueses, o que mais me influenciou foi Miguel Esteves Cardoso. Fez com que eu gostasse de ser comunicador quando eu li "A Causa das Coisas". À custa dele descobri o Beckett e a Agustina Bessa-Luís. Luiz Pacheco talvez seja o meu escritor favorito. Era um escritor maldito e eu gosto de pessoas malditas. Dos contemporâneos, gosto muito de um dos meus melhores amigos, o José Luís Peixoto.

Estamos demasiado agarrados ao telefone? 
Sim, mas eu não consigo largar, sou muito viciado. Um dos meus objectivos de vida é libertar-me das tecnologias. 

De vida? Podia ser só do ano. 
Por acaso em 2019 mudei uma coisa em mim. No primeiro dia do ano a minha grande resolução foi passar a ir ao ginásio. E porquê no dia 1 de Janeiro? Porque cheguei a casa por volta das seis e meia da manhã, ia com os copos. Estava a beber um último copo na varanda de casa e pensei: «Isto tem de parar, não pode ser, não vou entrar assim no primeiro dia do ano, com uma vida tão pouco saudável. Vou fazer tudo para mudar». E foi o que fiz. Agora vou ao ginásio quatro ou cinco vezes por semana, o que é muito para alguém que não punha lá os pés.

Sente diferença? 
Sinto, claro que sinto. No princípio foi muito difícil. Odiava correr. Demorou muitos meses até conseguir. Agora sinto-me mal quando fico sem ir mais do que três dias. Dantes não me sentia nunca mal, ficava semanas e semanas sem ir ao ginásio e estava óptimo, nem sequer pensava nisso. Sinto que o desporto mudou a minha vida. Ah! E sempre joguei futebol. Isso deve ter sido... é a coisa para a qual dediquei mais horas na minha vida. Desde miúdo, sempre foi um vício. A coisa que mais gosto de fazer na vida é jogar futebol. Muito mais do que tudo.


«Tenho mais de dez mil horas a jogar futebol e a fazer rádio. Devo ser bom nos dois»

Tentou levar a paixão mais longe? 
Tipo ser jogador da bola? Não. Joguei em equipas, claro. Há uma tese que diz que só és realmente bom numa coisa quando fizeste mais de dez mil horas... e eu tenho mais de dez mil horas a jogar futebol e a fazer rádio.

Joga bem? 
Jogo, jogo muito bem. 

E também é bom em rádio? 
Acho que também. Lá está, tenho dez mil horas de cada uma das coisas, portanto acho que... acho que jogo bem e faço bem rádio. 

Segue os campeonatos?
Sigo, mas não sou fanático e algo em mim fechou-se definitivamente depois do trágico acontecimento de Alcochete. Quando vi aquilo a acontecer disse: «Vou mudar aqui alguma coisa no meu mindset. Isto já não é futebol, já não é desporto, já não é nada». Aquilo aconteceu com o Sporting, mas podia ter acontecido com o Benfica, o Porto, o Guimarães, o Braga, o Farense... com qualquer equipa. As pessoas levam muito a sério o futebol e o futebol é um desporto... 

Não se levar muito a sério... é um mote para o Fernando? 
É. Eu não me levo muito a sério. Não se levar muito a sério não tem nada a ver com ser irresponsável ou não ser uma pessoa séria. 


«A minha causa principal são os mais velhos»

Tem uma causa na vida? Um sentido de missão?
A minha causa principal são os mais velhos. Eu sei que pode parecer surpreendente. As crianças têm muitos apoios, e ainda bem. Os idosos têm menos. Criou-se nos últimos anos uma imagem em relação aos idosos, que é a partir para aí dos 70. Se diz qualquer coisa, as pessoas têm tendência a subestimar: «Está velho, não ligues. A opinião dele não conta». Ora, o que eu sinto é que há pessoas velhas com 25 anos. Fiz um programa de televisão, uma espécie de jogos sem fronteiras só com velhinhos, mas não resultou nada a nível de audiências, foi um fiasco. Gostava de fazer mais coisas para os idosos.

Tem programas na televisão. Televisão, rádio, é mesmo o que gosta? 
Eu gosto imenso de comunicar e não sei dizer qual gosto mais de fazer. Dantes era fácil para mim: como faço rádio desde os 13 anos é natural que seja a área da comunicação onde me sinta mais à-vontade. Mas nem sempre aquilo em que nos sentimos mais à-vontade é o que gostamos mais de fazer. Às vezes até pode ser justamente onde nos sentimos menos à-vontade. Gosto muito de escrever, gosto muito de falar na rádio, de apresentar programas de televisão. Mas também gosto muito de fazer uma série de eventos que me permitem, sobretudo, variar.

 

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