Política de utilização de Cookies em Revista Saúda Este website utiliza cookies que asseguram funcionalidades para uma melhor navegação.
Ao continuar a navegar, está a concordar com a utilização de cookies e com os novos termos e condições de privacidade.
Aceitar
15 abril 2019
Texto de Rita Leça Texto de Rita Leça Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro

«Eu ainda consigo dizer aquilo que penso»

​​​​​​Hernâni Carvalho faz crónicas policiais há anos, tanto nos jornais como na televisão.

Tags
REVISTA SAÚDA: As pessoas ouvem-no com atenção. É por ser sempre directo?
​HERNÂNI CARVALHO: ​Eu ainda consigo dizer aquilo que penso. Um dia destes, deixo de poder dizer. Se é recto ou directo, deixo ao critério dos outros, mas digo sempre o que penso.

Há anos que faz crónicas policiais nos jornais e na televisão. Como surgiu o interesse por este tema?
Sou filho de um militar, fui criado em quartéis. Estive num colégio interno militar, cumpri o serviço militar, fui voluntário da Cruz Vermelha. Quando cheguei ao jornalismo, era a área onde me sentia mais confiante. E, como nessa altura era considerada uma área menor, permitiu-me fazer trabalhos que as outras pessoas não queriam.

 


​Também tem formação em Ciências da Religião.
É verdade! Há muitos anos, o general Pedro Cardoso, que sabia muito de Administração Interna e de Geoestratégia, disse-me: «Se queres perceber alguma coisa disto, tens de estudar Religião». Achei estranho, mas à medida que fui entrando neste mundo, fui percebendo a importância estratégica das religiões. Aquelas palavras fizeram todo o sentido.

E são tão actuais, com o terrorismo islâmico.
Agora imagine ditas há 30 e tal anos! (risos)

É religioso?
Não. Tenho o maior respeito pela fé de cada um, mas não consigo ter fé. Acredito no que vejo, estudo, aprendo. Acredito naquilo que a natureza oferece e nos fenómenos que me impõe.

 


E na Humanidade?
Sim, muito! Comparativamente com a idade da Terra, há meia dúzia de anos tínhamos um cérebro tão pequeno, tão primário, tão incapaz. Hoje pensamos, espacializamos e concebemos volumetrias inimagináveis. É uma evolução avassaladora. No entanto, não alterou a maldade, essência primária do Homem. Acho que o Homem é capaz de fazer o bem, mas nasce, essencialmente, com a capacidade de fazer o mal. Foi essa capacidade que lhe permitiu sobreviver até hoje. Compete a nós, que estamos vivos, ajudar os que nascem a fazer melhor.

É a sociedade que nos torna bons?
Sem dúvida. O ser humano é melhor ou pior de acordo com a relação intersocial que tem, aliada àquilo que escolhe ser.

Vamos chegar a uma sociedade sem crime, sem maldade?
Não, a maldade é intrínseca do Homem. Ajuda-o a sobreviver. É algo reptiliano, primário, territorial, sobrevivente. No cérebro humano, transforma-se num prazer. Foi a maldade que fez com que a nossa espécie fosse escolhendo os mais fortes e eliminando os mais frágeis.
 

 «Temos a tentação de dizer que o crime está na moda. Não é verdade»

Há um crescente interesse nestes temas. O que aconteceu na sociedade?
Temos a tentação de dizer que o crime está na moda. Não é verdade. Se olharmos para os jornais do século XX, todos têm crime na primeira página. Não havia jornais sem crime. Havia outras formas de o comunicar. Mas a necessidade de conhecer essas práticas é tão antiga como a existência humana. As histórias humanas têm sempre crimes.

É sobre isso que fala no seu novo livro?
Sim. Chama-se “Matadores” e é sobre dez portugueses que mataram mais de três pessoas de uma só vez. É sobre esses actos homicidas e sobre a acção (ou inacção) das autoridades. Que tratamento e protecção damos às vítimas? Como se desenvolve uma investigação judiciária? Que buracos tem a lei? São algumas questões que abordo.

 «As pessoas revêem-se nas injustiças que denuncio», considera Hernâni Carvalho

É por causa desta curiosidade pelo crime que o programa "Linha Aberta" da SIC tem sucesso?
As pessoas querem saber. E sentem que quem não lhes mostra tem alguma coisa a esconder. As pessoas revêem-se no indivíduo a quem multaram indevidamente; naquele a quem não deram internamento, mas pagou 40 anos de impostos. Revêem-se na injustiça e na indiferença. E na facilidade impune com que os que levam bancos à falência continuam a viver à grande e à francesa. 

Mas depois, na prática, não fazemos nada.
Pois não. Porque somos inconsequentes. Vamos para a Costa de Caparica em vez de ir votar, por exemplo. Quantos portugueses vão a manifestações exigir coisas na semana a seguir a terem faltado às urnas? Por isso, sou a favor do voto obrigatório. Provavelmente, teríamos outros resultados.

 «Recebo vários tipos de ameaças», admite o jornalista

Recebe ameaças ou sente constrangimentos no trabalho?
Os constrangimentos só existirão quando eu morrer. Não estou na disposição de os permitir. As ameaças acontecem com facilidade. E há vários tipos de ameaças: verbais, directas, receber coisas em casa ou na televisão.

Sente medo?
Sinto, porque a liberdade de imprensa e de expressão estão doentes. As pessoas são ameaçadas física, judicial e financeiramente. Há muitas maneiras de coarctar a vida de um jornalista. Antes, a moda era processá-lo, entupir-lhe a vida com processos. Hoje, as coisas são mais rebuscadas.

Aprendeu a lidar com essas situações ou nunca se acostuma?
Ganhamos alguns anticorpos, mas há sempre uma percentagem de risco. E quanto menos democracia há, mais ameaças se sente. 

Estamos a perder a democracia?
Claro que sim. Qualquer um é preso por roubar no supermercado, mas nunca vi ninguém ser preso por ter levado um banco à falência. Se olhar para a Caixa Geral de Depósitos, para o BES, BPN, BPP, Banif e outros, lembro-me sempre da velhinha que foi presa por roubar doces no supermercado. Esses são presos, os outros não.

Está num canal recentemente reformulado. Como vê as mudanças na SIC?
Estou muito confortável, porque só dependo do meu trabalho. E todos os dias sou avaliado. A SIC tem um caminho a fazer e o Daniel Oliveira já deu provas de perceber daquilo. E de ser corajoso.

 


E como está a ser a experiência de trabalhar com a Cristina Ferreira?
Está a ser boa, muito interessante. Já tinha trabalhado três anos com ela na TVI. Agora, é um programa dela e, por isso, é o registo que ela quer, o que é normal. Estou a gostar.​

Por trabalhar em televisão, imagino que tenha cuidados reforçados com a aparência e a saúde.
Devia ter mais! (risos) Tenho algumas preocupações com a alimentação, tento comer mais vegetais, abusar menos dos hidratos de carbono e do açúcar, por indicação médica.

 


Aos 33 anos foi operado a um tumor na garganta [faz 59 em Julho]. O que mudou com essa experiência?
Deu-me uma visão prematura da perenidade da vida. Eu já não era muito ligado às coisas materiais, mas hoje são-me completamente indiferentes. Quero é ter uma vida com qualidade. A vida é muito curta e há que aproveitar os momentos que nos são oferecidos, as pessoas que conhecemos e os sítios onde chegamos.

O que lhe falta fazer?
Falta-me ficar reformado (risos). Porque é importante ter uma reforma com qualidade de vida e tempo para fazer outras coisas. Ter uma reforma aos 75 anos, agarrado a uma prótese, ligado aos tubos, para quê? Portanto, falta-me ter uma bela reforma! (risos)
Notícias relacionadas
Galerias relacionadas