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5 outubro 2019
Texto de Sónia Balasteiro Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Pedro Martins Fotografia de Pedro Martins

Dois anos de prejuízo

​​​No posto farmacêutico de Chã, em Alijó, receitas não davam para as despesas.

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Sem mais ninguém a quem recorrer, a população pede todo o tipo de serviços ao farmacêutico. Curativos, vacinas, administração de injectáveis. Para Augusto Pires é difícil dizer não. Sabe que quando recusa administrar uma vacina a um animal, será um qualquer vizinho a fazê-lo, com menos conhecimentos que ele. Não se trata de substituir-se a outras profissões, ausentes da aldeia transmontana, mas de ajudar quem precisa. Alguns pedidos esbarram nos requisitos legais. Para administrar injectáveis, teria de investir dois ou três mil euros em equipamento. «Não compensa para administrar duas vacinas por semana», lamenta. E critica: «Se não aligeirarem as exigências, muitas pequenas farmácias do Interior terão de fechar as portas». 

O posto da Chã ganhou a confiança da população. Não foi fácil. Quando abriu as portas, em Outubro de 2017, Augusto Pires passou tempo a olhar as paredes e a conversar com o vizinho. Houve dias em que não atendeu ninguém. Depois de fechar a porta ia ao café, à aldeia do lado, para dar a conhecer o posto. «Houve dias desmotivadores», recorda. Aos poucos, o passa-palavra traduziu-se em clientes. Ao fim de um ano, o volume de trabalho exigiu a contratação de um farmacêutico, que faz duas horas diárias no posto da Chã e o restante na Farmácia de Favaios, a que pertence o posto. Ano e meio após a abertura, as receitas do posto superaram finalmente as despesas. «Foi um trabalho grão a grão. Continua a ser», diz o director-técnico. Não espera um futuro fácil, mas assegura que o posto vai continuar a trabalhar. Augusto está preparado para continuar a ir, porta-a-porta, atrás das pessoas, e tem em marcha alguns projectos para chegar a mais pessoas das aldeias próximas. 

O proprietário do posto da Chã assume-se como um acérrimo defensor do campo. Nasceu numa aldeia perto de Chaves e gosta muito «destas zonas mais paradas», confessa com um sorriso. Mora a 20 minutos de carro de Favaios, em 2016 comprou a farmácia. Decidiu logo que queria dinamizar o posto, na altura quase encerrado. Com ele, consegue chegar a duas mil pessoas das freguesias de Vila Chã, Carlão, Santa Eugénia e Pegarinhos, a norte de Alijó, a sede de concelho. «É muita gente que está completamente desprotegida. Não tem acesso aos medicamentos, sem meios de transporte, muitas não sabem ler nem escrever, às vezes nem usar o telefone». O farmacêutico tem clientes que vão ao posto de tractor. Outros vêm de carro, mas não têm carta. Aqui vêm, a Alijó seria impossível. 

Augusto Pires sabe que as farmácias, como os correios, são pontos de atracção de população. Acredita que cabe aos farmacêuticos prestar um bom serviço, para trazer ainda mais gente. Ganha o negócio e a comunidade. «As pessoas confiam na farmácia e estão à espera que sejamos uma voz activa em puxar mais coisas para a freguesia. É quase uma obrigação social manter as portas abertas».
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