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27 maio 2021
Texto de Sandra Costa Texto de Sandra Costa Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Vídeo de André Oleirinha Vídeo de André Oleirinha

Cuba, “catedral do cante”

A vila alentejana é referência no cante alentejano, Património Cultural Imaterial da Humanidade.​

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​«Cuba é mais cante, mas também é vinho; a Vidigueira é mais vinho, mas também é cante. Tudo isto é a nossa identidade», explica Ana Guerreiro. Para a médica cubense, é a perpetuação do gosto pelo cante no concelho que fez a vila ser considerada “sede do cante alentejano”. O cante continua a fazer parte da vida quotidiana, seja em grupos oficiais, que existem para todas as idades, ou em encontros de amigos. Não há mulheres na composição dos grupos oficiais, mas «aqui toda a gente canta à alentejana», garante. 

Em Cuba, o modo de cantar é «mais arrastado», explica o marido de Ana Guerreiro. João Fitas​ criou-se «no meio do cante», na taberna do pai, quando as tabernas vendiam vinho e gasosa ao balcão. «Tem noites que não fecha e tem dias que não abre», respondeu o pai de João à ASAE - Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, quando lhe foram à taberna. «Não o multaram, comeram peixe frito», conta no jeito alentejano de falar, o sorriso largo à mesa do restaurante. «Uns cantam, outros encantam e outros zurram», galhofa, enquanto explica que no cante alentejano há sempre três posições: o “ponto”, que arranca, o “alto”, que com uma voz limpa e melodiosa «pega na moda e dá um “lamiré”, deixando-a no sítio certo», e o “coro”, ou seja, os “baixos” que constituem o grupo todo.  

Antes da pandemia, José Soudo, conhecido por primo Zé, convidava todos os fins-de-semana um grupo de cante para animar a Adega da Casa de Monte Pedral, de que é proprietário. Eram mais de 20 homens em roda de uma mesa, agora é impossível. «Há que aguardar», diz. Tem 65 anos, a paixão pelo cante começou pelos dez. Gostava de «cantar bem» e faz a sua «perninha», porque «o cante é de quem o canta». Garante que Cuba sempre teve bons cantores e grupos de cante, e há sempre disputa porque todos querem cantar melhor. «É bom existirem rivalidades», resume.  

O cante nasceu na planície alentejana, ligado aos trabalhadores agrícolas. O primeiro grupo coral surgiu em 1926, com os trabalhadores das Minas de São Domingos, no concelho de Mértola. Era «o divertimento do povo, servia para se motivarem». Depois do 25 de Abril, proliferaram os grupos corais. O ano de 2014 trouxe novo impulso para esta forma de cantar única. O cante foi reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. «Foi importante. É uma coisa que mexe muito comigo», orgulha-se o primo Zé.

 

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