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12 outubro 2020
Texto de Sónia Balasteiro Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro

«Acho que vou ser eterno»

​​​​​​Aos 75 anos, Júlio Isidro explica a importância de exercitar o cérebro como os músculos do corpo.

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​JÚLIO ISIDRO: Chamam-lhe “senhor televisão”. Qual o seu maior legado?
REVISTA SAÚDA: A minha própria história. Há inúmeros momentos de televisão criados de raiz por mim. Nesta fase da minha vida, o meu enorme legado é o legado da memória. Quando for preciso falar de X, Y ou Z, basta ir buscar ao “Inesquecível”, programa da RTP Memoria. Esse é também um tributo que eu presto aos portugueses.


Júlio Isidro apaixonou-se pelo aeromodelismo em criança e nunca mais deixou de construir aviões

É conhecido precisamente pela sua boa memória. Como a mantém?
O cérebro para mim funciona como um musculo. Se nós em termos físicos temos de exercitar o corpo para manter a tonicidade muscular, eu, em termos mentais, tento exercitar sistematicamente o cérebro. Mais do que isso, até desafiar-me a mim próprio.

Fez 75 anos em 2020. Como lida com a passagem do tempo?
Não faco a mínima ideia de que tenho 75 anos. Sei que a vida é uma coisa finita, não quero ignorar essa circunstância, mas o que está dentro de mim é muito mais novo. Tenho uma relação com a idade um bocadinho surrealista, porque dá-me a sensação de que vou ser eterno. Mas sei que, quando chegar a hora de partir, vou ter feitas menos de 50 por cento das coisas que tinha para fazer.

Que cuidados tem consigo?
Os meus cuidados é comer tudo de forma moderada. Como dizia a Beatriz Costa: «Prova de tudo e não comas de nada». Dai ela ter morrido durante o sono, com quase 90 anos.

Qual a importância das farmácias na sua vida?
Tenho uma farmácia a 500 metros da minha casa, com gente muito simpática. Como tenho pré-hipertensão, tomo um pequeno comprimido para a pré-hipertensão, e outro para o colesterol. A nossa história em termos farmacêuticos é apoiada com base em ciência e por pessoas cada vez mais bem informadas.


O “senhor televisão” segue o conselho de Beatriz Costa, que viveu até aos 90 anos: «Prova de tudo e não comas de nada»

Que programa gostou mais de criar? E de apresentar?
Inventei “O Passeio dos Alegres”, uma coisa que nunca ninguém tinha feito em Portugal, um programa de longa duração com cultura metida no meio. Mas talvez o programa que me deu mais gozo sob o ponto de vista formal foi “A Outra Face da Lua”. Esse é o talk show que voltaria a fazer com todo o prazer, porque estava lá tudo, desde a concepção sonográfica, à iluminação, o conceito de ter uma pequena banda, a forma como dialogava com os meus convidados, sem haver clipes. Esse programa era esteticamente tão bonito, tão bonito, tão bonito, que tenho pena de que tenha sido estrangulado. 

 


Celebra 60 anos de carreira em 2020. Como está a viver esta fase?
Estou a viver aquilo a que se podia chamar a fase da consagração. Mas recuso completamente esta definição. Acho que estou a marcar uma efeméride, a minha e também um bocadinho a da história da própria televisão. Porque a televisão tem 63 anos, eu tenho 60 de televisão. É evidente que a parte da história da televisão que me compete é muito grande nesta altura, tanto mais que sou o último sobrevivente.


A celebrar 60 anos de carreira em televisão, define-se como «o último sobrevivente»

Quem gostou mais de lançar?
O Carlos Paião tinha acabado de tirar o curso de Medicina e foi-se estrear no meu programa com a bata vestida e o estetoscópio ao pescoço. Jamais esquecerei. Fui ouvir tocar os UHF numa festa de finalistas num sábado à tarde, no liceu de Almada, e disse-lhes: «Querem vir ao programa?». Foram. E depois fui eu quem transmitiu em directo o lançamento de “Rua do Carmo”, o segundo single. O Rui Veloso estreou-se a cantar “Chico Fininho”, na “Febre de Sábado de Manhã”, Fui ouvir os Heróis do Mar ao Rock Rendez Vous e estrearam-se no meu programa também. A música africana teve nos meus programas uma predominância que jamais tinha tido: Bana, Bonga, Lilith Shumba, Os Tubarões, Dany Silva.

E o António Variações?
Aconteceu-me ser eu a lançá-lo. Fui eu mas, com o talento que ele tinha, certamente um dia seria outro. Ouvi a cassete que ele me deu em mão e disse-lhe: «É já no próximo domingo», porque tive a percepção de que iria ser como dizia o poeta: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. É a minha coroa de glória, mas quero agradecer-lhe ter-me dado a oportunidade de lhe dar a oportunidade.

 


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