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14 setembro 2018
Texto de Irina Fernandes Texto de Irina Fernandes Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes

A ilha que Deus desenhou

​​​​​Tem mais de 70 fajãs, línguas de terra deixadas pelos vulcões mar adentro.

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O sol, forte, aquece a pele. Varandas, janelas e montras estão enfeitadas com colchas, e as avenidas coloridas com pétalas de flores. Os homens – mas também as mulheres e as crianças – exibem os seus melhores tecidos e penteados. É dia de celebração na terra. É dia de homenagear o santo que empresta o nome à ilha.

«São Jorge é o nosso padroeiro. É ele quem nos lembra o sentido da nobreza e da generosidade».

José Bettencourt, padre, dá voz à homilia. No interior da igreja, os mais velhos, sem lugar sentado, buscam força nas pernas, que é hora de agradecer – e também de pedir – protecção divina.


O farmacêutico Germano Bettencourt pede desculpa por «qualquer exagero», porque ama a sua terra

Os tremores de terra e as sucessivas erupções vulcânicas que fustigaram a ilha, ao longo de décadas, levaram a que o povo jorgense cedo procurasse a palavra santa.

Os 22 terços do Divino Espírito Santo são, aqui e ali, ainda motivo de cântico e reza, em dias de festividade religiosa. E a Torre da Urzelina – única parte da igreja, de igual nome, a resistir à erupção vulcânica de 1 de Maio de 1808 – ainda hoje é vista como um «sinal de Deus».

Germano Bettencourt, farmacêutico jorgense, 37 anos, recebe-nos no Largo da Igreja Matriz de São Jorge onde, àquela hora, 13h40, dezenas de jorgenses aguardam o arranque da procissão.

«Há muita devoção ao Divino Espírito Santo, que é a festa religiosa mais importante que se celebra nas nove ilhas dos Açores».

Nascido na freguesia de Rosais e a exercer actividade na Farmácia Tristão da Cunha, localizada na Calheta, é ele a convidar os leitores da Farmácia Portuguesa a conhecer as riquezas da ilha.

«A seguir vão ser dadas as Sopas do Divino Espírito Santo».

Manda a tradição que a festa seja feita com oferendas. Mata-se cinco ou seis vacas cedidas por criadores da lha. Taça cheia de caldo para mergulhar – ou ensopar, conforme o gosto – fatias de pão caseiro. Batatas e couves compõem o prato.



Não falta à sobremesa o bolo tradicional da ilha: as espécies. Com forma de ferradura, estas argolas brancas têm recheio de especiarias como erva-doce, canela e pimenta.

«Vamos indo até à costa Norte, que agora ainda há sol», sugere o cicerone.

De braços abertos para o Oceano Atlântico, esta ilha é pureza e jardim sem fim. Dos pastos às arribas altas e escarpadas, há verde que enfeitiça os olhos. E o espírito.

A natureza é selvagem e farta, mas também pura e delicada. Com 54 quilómetros de comprimento e 6,9 quilómetros de largura, a ilha de São Jorge é, depois da ilha de São Miguel, a mais comprida dos Açores. Atravessada por uma cordilheira montanhosa, tem altitude máxima de 1.053 metros, no Pico da Esperança.

A data em que foi descoberta é incógnita, mas alguns historiadores mencionam o dia 23 de Abril (por ser o dia de São Jorge) de 1439.

«Desde já, peço-vos desculpa se falar qualquer coisa a mais ou com muito entusiasmo… É que eu sou muito orgulhoso da minha terra».

Ser jorgense é ser livre. No trato e nas palavras.

Nesta terra, onde o Homem pouco ou nada tocou, olhar para o relógio é coisa rara. Desta vez, Germano – que tem amor infinito e respeito pela ilha onde nasceu – quebra a regra para fazer contas às horas e às rotas. Quer fazer justiça à ilha que, diz, tem muitos encantos para se ver.

«Quando se fala de São Jorge fala-se da ilha das fajãs, por ter mais de 70».

Eleita, em Setembro, Aldeia de Mar no concurso "7 Maravilhas de Portugal", promovido pela RTP, a Fajã dos Cubres é o primeiro ponto de paragem. A esta hora, 15h30, a fajã exibe-se solarenga e pujante nas cores.

«Há fajãs onde já não é permitido qualquer tipo de construção. Lá ao fundo, os telhados vermelhos que se vêem são de casas antigas em recuperação, não são novas», relata o farmacêutico.


Muitas casas antigas em pedra resistem nas fajãs, imunes à moda e ao tempo

Línguas de terra, que se prolongam ao mar, as fajãs – de origem lávica ou resultantes do desabamento de terra – são destino cada vez mais procurado. «Antigamente ninguém ia para lá, agora quem tem lá casa vai ao fim-de-semana e nas férias».

O ar puro e o silêncio – interrompido só pelos sons da natureza – com o mar e lagoas à espreita, tornam as fajãs lugares idílicos, relata Germano Bettencourt: «São o retiro dentro do próprio retiro, que já de si é a ilha».

Em 1921, Francisco Lacerda (1869-1934), compositor e maestro de renome internacional, nascido na freguesia da Ribeira Seca, perpetuou o legado. Numa carta dirigida ao pai escreveu “Ou Paris ou Fragueira”, em referência à fajã, de nome Fragueira, que era o seu refúgio em tempo de férias.

Lá ao longe, por trás de uma arriba, uma outra fajã faz-se ver: a Fajã da Caldeira de Santo Cristo. «É a pérola da ilha! Acreditem: é um lugar imperdível!».


A deslumbrante Lagoa da Fajã da Caldeira de Santo Cristo está classificada como paisagem protegida

Germano apresenta-a com especial orgulho e, rapidamente, deixa o aviso. «O acesso até lá só se faz a pé ou com moto 4. Se quiserem lá ir é preciso acordar cedo e cumprir um trilho pedestre».

Partindo da Fajã dos Cubres – com passagem pela Fajã do Belo e a Fajã dos Tijolos – o trilho tem como ponto alto a chegada à Fajã da Caldeira de Santo Cristo, terminando no Parque Eólico da Serra do Topo. A rota tem cerca de 10 km de extensão.

Seguimos para a Fajã do Ouvidor. Aqui fica aquele que é um dos locais preferidos de Germano  Bettencourt na ilha: a Poça de Simão Dias.


Piscina natural de Simão Dias, na Fajã do Ouvidor​

«A água fica com uma cor maravilhosa quando o sol incide».

O negro das rochas embeleza o lugar, que exige destreza. Para refrescar o corpo na água é preciso audácia e andar de pé em pé, ou, diga-se antes, de rocha em rocha.

Com cursos de água a fazerem-se ouvir – seja na forma de cascatas ou ribeiras irregulares – a ilha de São Jorge é um paraíso na terra para a prática de desportos de água e aventura. Uma oportunidade de excelência para ‘mergulhar’ na natureza e sentir adrenalina até o coração aguentar. O canyoning – descida a pé ou a nado – e o rapel estão entre as actividades mais cobiçadas.

O cair da tarde conduz-nos até à Ponta dos Rosais. Localizado no extremo Noroeste da ilha, o monumento natural da Ponta dos Rosais – que se eleva até 376 metros de altitude, acima do nível do mar – oferece, a quem aqui pára, um momento de contemplação e, também, de recolhimento interior.

«O pôr-do-sol aqui é fantástico! Se, um dia, visitarem a ilha de São Jorge não deixem de vir a este lugar», insiste Germano.

Um miradouro de vigia da baleia, ali a poucos metros do farol, traz à lembrança o património baleeiro dos Açores.

«A vigia à baleia nas águas dos Açores começou no século XVII», lê-se num painel de pedra no interior do edifício de vigia. Na ilha de S. Jorge, em 1936, registavam-se
quatro armações baleeiras, sendo três nas Velas e uma no Topo.

Na outra ponta da ilha, na costa Sul, a Fajã dos Vimes é lugar «imperdível», em especial para os apaixonados por café – propõe o farmacêutico. Aqui fica a única plantação de café na Europa.

São muitos aqueles que descem a encosta para vir provar o café do Sr. Nunes. Nos terrenos por detrás da sua casa tem cerca de 500 pés plantados. É café biológico, e de sabor inconfundível, diz quem já provou.


Manuel Nunes tem cerca de 500 pés de café biológico plantados atrás de casa

«O processo de torra é feito em casa, nas sertãs antigas, ao fogão. Fazemos uma torra de cada vez, com um máximo de 1,5 kg», explica Manuel Nunes, de 66 anos. Este ano prevê colher «uns 700 a 800 kg». «Tenho ainda aqui muito café pequeno, a crescer», conta, esclarecendo que a baga de café quer-se apanhada «só quando tem cor de vinho».

Às mãos da mulher, Alzira Nunes, e da cunhada, Carminda, são criadas as tradicionais Colchas de Ponto Alto. «Usamos sempre lã de ovelha!», vinca Alzira, que abraçou a tecelagem aos 16 anos. 

O queijo de São Jorge continua, ano após ano, a somar apreciadores mundo fora. Quanto maior o tempo de cura, mais seco e picante.


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«Curiosamente, o queijo que é mais apreciado, pelo turista continental ou estrangeiro, é o queijo mais seco».

Último dia – de quase três – na ilha. São 8h05. Há brisa de Verão no ar e a paisagem envolvente é deleite sem palavras certas.

«Estão prontos? Vamos a isto, que o caminho até lá abaixo ainda é longo».

Próximo destino: Fajã da Caldeira de Santo Cristo.

À nossa espera, 4 km de trilho pedestre com «muitos altos e baixos». Os grãos de terra soltos, ao longo do percurso, pedem olhos bem assentes no chão – não vá o pé pôr-se em destino errado. O mar e a imensa vegetação roubam, a cada minuto, o olhar.

«Sempre que tenho cá amigos a visitar-me, trago-os aqui».

Mais uma vez, a beleza natural é rica e sufocante. Ou não estivéssemos a caminhar para uma zona definida como Reserva Natural e Área Ecológica Especial.

Quase uma hora depois do arranque, as águas da icónica lagoa – que hoje se pintam em tons de verdes azulados – deixam-se ver.

«Fizeram um bom tempo!», exclama Germano ao chegarmos ao local.

O tubo de um mergulhador, à tona da água, denuncia que aqui há tesouro raro.

Considerada por muitos um local perfeito para a prática de bodyboard e surf, a Fajã da Caldeira de Santo Cristo é o único local onde se desenvolvem as tão apreciadas amêijoas de tamanho considerável Tapes Decussatus, que são a iguaria local.

O regresso, como havia avisado Germano, é feito de moto 4.

«Faço isto há 13 anos. Mas posso garantir-vos: o caminho é sempre, sempre bonito», solta, de mãos ao volante, David Moreira, guia da empresa turística Caldeira GuestHouse&SurfCamp.

Dentro de cinco horas, Germano Bettencourt estará de volta ao trabalho, ao balcão da farmácia. Antes, vai – mais uma vez – desfrutar da sua ilha.

«Vocês vão-se embora e eu cá vou dar um mergulho. Ou talvez faça pesca submarina. O dia está tão bonito».​
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