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11 fevereiro 2019
Texto de Maria João Veloso Texto de Maria João Veloso Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes

Onde a terra acaba e a lenda começa

​​​​​​O Promontório de Sagres foi lugar sagrado para gregos, fenícios, romanos e cartagineses.

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Dois dias de Primavera no Inverno foram suficientes para desfazer algumas lendas e conhecer outras que caem por terra ou voam do promontório da Fortaleza de Sagres até ao oceano Atlântico. O termómetro marca 19 graus. O sol a pique sobre o azul do céu faz acreditar que se podia mergulhar naquele mar verde escuro onde magotes de surfistas desfazem as ondas com tiques de bailarina. Há quem acredite que foi a partir daqui que se desbravou o mundo. Como explica João Paulo Oliveira e Costa, comissário da exposição “Henrique, o Infante que mudou o mundo”, «Sagres não foi ponto de partida nem houve aí uma escola, mas o rochedo ermo escolhido por Henrique tornou-se um símbolo das Descobertas e um lugar mítico da secular história portuguesa».
 

 Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe
 
Rui Inácio, funcionário da Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, atribui aos românticos do século XIX a existência da mítica escola, mas a Vila do Infante ficará para sempre ligada por mar ao mundo.
 
Rodeado de mar por todos os lados – menos pelo caminho que o liga ao continente – este promontório foi considerado um lugar sagrado por gregos, fenícios, romanos e cartagineses. Quem o diz é Artur Vieira de Jesus, historiador e técnico superior do Município de Vila do Bispo. Lembra que «Há dois mil anos o mundo era considerado uma superfície plana e os antigos acreditavam que dali o sol mergulhava todos os dias no oceano».
 
Isa Ataíde, enfermeira em função de chefia, fala da energia do lugar. A fortaleza foi construída na escarpa para controlar os barcos entre o oceano Atlântico e o Mediterrâneo. Da fortaleza do século XV pouco ou nada resta, uma vez que o terramoto de 1755 afectou bastante a região. A Igreja de Nossa Senhora da Graça data de 1570 e substituiu a primitiva Igreja de Santa Maria. O facto de não se estar perante as pedras originais não retira o misticismo deste lugar «onde a terra acaba e o mar começa».

 A um par de horas do entardecer, pescadores à linha tentam a sorte debruçados na ravina, sob o olhar atento dos gatos da fortaleza e das gaivotas locais. A afluência de turistas fará crer aos mais distraídos que o Verão paira por estas paragens e ninguém dirá que Sagres é conhecida pelos ventos e tempestades impiedosas.
 

 Entardecer no Cabo de São Vicente
 
O culto vicentino invade a terra, naquele que ficará conhecido através das décadas por Cabo de São Vicente. Reza a lenda que o santo nascido em Saragoça tinha vocação, tornando-se pregador. Em 304 d.C., um édito romano proibiu a fé cristã e o diácono foi torturado até à morte. Quatro séculos depois – com o território sob o domínio muçulmano – um grupo de cristãos recolheu os restos do mártir e levou-os até ao extremo da Península, onde foi construído um templo que se tornou lugar de peregrinação cristã. No século XII, D. Afonso Henriques mandou que as relíquias fossem trasladadas para Lisboa, mas o culto ficou.
 

 David Correia, à esquerda, descarrega a adrenalina na apanha do percebe
 
O Cabo de São Vicente ergue-se por cima do antigo convento homónimo como baluarte da lenda. Insondáveis também são os mistérios de David Correia, que desde os 12 anos anda com o pai na apanha do percebe. Primeiro por brincadeira e, depois de atingir a maioridade, como profissional. Bombeiro de profissão, o marisqueiro assume uma vida associada ao risco. «Há quem vá para dentro de água fazer surf, para mim apanhar percebes é a descarga de adrenalina». A conversa abre o apetite para o jantar no Café Correia, a cozinhar afectos há 50 anos. Uma vez à mesa, deverá esperar pela obra-prima de José Francisco.
 

 José Francisco, do Café Correia, a preparar o banquete

 

Há que dar-lhe tempo. Depois de provar os «percebes de qualidade superior» de que falava David, os olhos comem o colorido da mesa onde concorrem gambas guisadas, lulas à Correia, faceiras de porco e coelho no tacho. Para Isa, «as lulas são especiais, têm a mão da tradição no prato». Este ambiente familiar é decisivo para a enfermeira, que já recebeu convites para ir trabalhar para Lagos, onde vive. Mas o espírito de equipa e ser um apoio fundamental de uma população envelhecida fazem-na ficar no Centro de Saúde de Vila do Bispo.
 
 Mural de Kruella D'Enfer (artista visual e ilustradora)

 O Centro de Interpretação da vila é paragem obrigatória e até ponto de partida para descobertas menos óbvias no concelho. Foi ali que funcionou a única lota de percebes do país. A apanha foi sempre muito importante para a economia local. Tocava-se a sineta e os percebes eram leiloados. Neste espaço museológico pode apreciar-se os sapatos usados pelos apanhadores da velha guarda. Feitos de corda e pneu. Artur Vieira de Jesus chama-lhe «posto de informação avançado», onde se faz lançamentos de livros, exposições e seminários sempre debruçados sobre as tradições do lugar. Na parede lateral do edifício, destaque para o mural “Lugares da Globalização”, com a assinatura da ilustradora Kruella D’Enfer.

 Com missa às quartas-feiras e domingos, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Vila do Bispo, merece ser visitada. Quem olhar o edifício à pressa não imagina os tesouros que encerra. A talha dourada barroca reveste o altar e é de fabrico algarvio. Ao centro uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que veio do convento do Cabo de São Vicente. Do século XVIII, os azulejos feitos em Lisboa são sobretudo de carácter naturalista. Também trabalhado, o tecto está carregado de simbologia. Nele pode ver-se um barco que remete para a pesca dos discípulos de Jesus ou aos afazeres das gentes do lugar, que se dedicaram sobretudo à pesca e à agricultura. Para ver a produção local, é ir as coloridas bancas do mercado da vila. Um par de vezes por semana, a enfermeira vai à banca biológica de Victor e Paula, um casal de agricultores, onde compra fruta e produtos hortícolas.​
 
Segundo a anfitriã Isa Ataíde, para a visita ficar completa é obrigatório assistir ao entardecer na Praia da Cordoama e comer um arroz de polvo no restaurante A Sagres, na vila homónima que há 60 anos faz parte do roteiro gastronómico do concelho.
 
 
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