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6 junho 2019
Texto de Carlos Enes Texto de Carlos Enes Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes Fotografia de Miguel Ribeiro Fernandes

«O Estado está a destruir a prevenção em saúde»

​​​​​​​​​​Bastonário da Ordem dos Médicos afirma que é preciso salvar as farmácias e a Medicina de proximidade.

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​REVISTA FARMÁCIA PORTUGUESA: O que o levou a deslocar-se a uma farmácia para assinar a petição "Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS"?
MIGUEL GUIMARÃES: Assinei com muito gosto. Foi uma honra para mim poder estar presente na farmácia de Campanhã, juntamente com a senhora bastonária da Ordem dos Farmacêuticos. Primeiro, acho que os farmacêuticos têm um papel fundamental no Serviço Nacional de Saúde. Fazem parte, para mim, daquilo que é o SNS desde sempre, porque é às farmácias que os doentes, as pessoas, os cidadãos, recorrem muitas vezes para obterem opiniões acerca de um sintoma ou de um tratamento que estão a fazer. É lá também que vão aviar, termo que se usava antigamente, a sua prescrição médica. O facto de nós termos uma rede de farmácias muito próxima das pessoas é excepcionalmente bom para os portugueses. É uma coisa que temos de manter.


«Assinei a petição "Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS" com muito gosto»

Pode deixar de ser assim, como aconteceu noutras áreas.
Temos assistido a muitas farmácias a fechar. As farmácias que fecham, normalmente, não são as farmácias dos grandes centros, são as farmácias da periferia. Ou seja, aquelas onde o acesso a cuidados de saúde já é mais difícil. Há que fazer alguma coisa para salvar estas farmácias. Nesse sentido, eu tive o maior prazer em assinar a petição e estou disponível para contribuir, para ajudar que os nossos deputados, as pessoas que têm o poder na mão para tomar decisões concretas, encontrem uma solução adequada para que as nossas farmácias possam continuar a existir. Sobretudo aquelas que estão em sítios mais pequenos, em que, de facto, uma farmácia tem dificuldade em sobreviver.

Sítios onde o médico já só consegue ir uma vez por semana, porque tem de andar a saltar de posto em posto.
É verdade. E a farmácia está lá sempre.


«Seria excelente propormos ao Governo vias verdes de comunicação entre médicos e farmacêuticos» 

Que instrumentos de comunicação devem existir entre o farmacêutico que fica e o médico que só consegue lá ir uma vez por semana?
Essa é uma questão nuclear. A articulação entre os cuidados de saúde primários e os hospitais, e entre os cuidados primários e as farmácias, tem de ser feita de uma forma útil e eficaz para o doente. Que permita ao farmacêutico, ao médico de família, e eventualmente ao médico hospitalar, darem mais rapidamente uma resposta às necessidades das pessoas, porque esta resposta está a falhar. Os farmacêuticos e os médicos têm aqui um importante trabalho em conjunto a fazer. Têm funções diferentes, mas que se complementam na perfeição. Não podemos esquecer nunca que a proximidade que as farmácias têm dos doentes é uma mais-valia. E essa mais-valia pode ser potenciada através de um contacto organizado, por vias de comunicação directas que têm de existir. Há agora várias formas possíveis de o fazer: contacto telefónico, sms, e-mail. Isto não é tão importante numa cidade como o Porto ou Lisboa, mas é fundamental nas áreas mais desfavorecidas. 

Se estivermos em Sendim…
Exactamente. Repare, há sempre médicos mais ou menos perto. Pode não ser em Sendim, mas perto. Portanto, é fundamental haver vias directas de contacto e institucionalizar isso.

Há sítios de proximidade onde os dois profissionais já falam facilmente, mas se calhar é preciso mais...
É verdade. Em muitos dos locais periféricos, estas necessidades já vão sendo resolvidas directamente pelos médicos e farmacêuticos, que dialogam muito entre eles. Isso não está é institucionalizado. Há sítios em que funciona devido à iniciativa individual das pessoas. E há outros em que não funciona. O ideal é nós criarmos vias mais ou menos padronizadas, até para os profissionais e os utentes percepcionarem o valor que têm. Acho que seria uma excelente iniciativa podermos, em conjunto, fazer uma proposta ao Governo nessa matéria. Se é que o Governo não tem uma proposta para fazer às pessoas…

O senhor deve ser o português que mais fala com médicos todos os dias…
Entro em contacto com médicos todos os dias [risos].

Por isso lhe pergunto: há ou não um problema de faltas de medicamentos?
A verdade é esta: de duas em duas semanas recebo queixas. Nós, neste momento, temos em Portugal uma situação complexa. O dr. Paulo Macedo teve a virtude de reduzir imenso o preço dos medicamentos para os portugueses. Mas não pensou na sobrevivência das farmácias, sobretudo as que ficam mais distantes dos centros urbanos e têm menos doentes. Portanto, existiu aqui uma contradição entre o benefício imediato para o doente e o facto de muitas farmácias não conseguirem manter-se abertas, porque começaram a dar prejuízo. E aconteceu outra coisa paralela, com grande impacto, mesmo nos grandes centros, que é as farmácias não terem os medicamentos em stock. Depois, muitos medicamentos já nem sequer são rentáveis para os próprios laboratórios e estes começam a abandoná-los.

O que sugere?
Acho que o Estado tem de ter uma acção correctiva e até, eventualmente, nalgumas áreas assumir a produção daqueles medicamentos que são até muito baratos, mas são essenciais para os doentes, como é o caso do Sinemet ou alguns medicamentos para a diabetes. Eu sei que a ANF tem algumas propostas em concreto para que seja possível manter as farmácias em funcionamento, mas acho que se tem de ir um bocadinho mais longe. Este problema é real também nos hospitais. No outro dia, a senhora bastonária dos farmacêuticos teve uma intervenção, penso que por causa da farmácia do Hospital de São João, em que tinha toda a razão. As rupturas, não só de medicamentos, mas até de recursos humanos, estão a chegar aos hospitais públicos, e até de cidades como o Porto ou Lisboa. Eu não consigo entender como é que a carreira dos farmacêuticos ainda não está a funcionar. É um disparate completo. É preciso olhar de forma diferente para o papel dos farmacêuticos no SNS e alargar o SNS às farmácias de ambulatório.

Como sabe, as pessoas vão a vários médicos, vão a dentistas, às vezes em episódios de urgência, e muitas vezes ficam a tomar medicamentos sobrepostos. Os médicos reconhecem valor a um serviço farmacêutico de reconciliação terapêutica, a ponto de o prescreverem no futuro?
Há, de facto, doentes que infelizmente fazem o mesmo medicamento com nomes diferentes. Por exemplo, é frequente no tratamento da hiperplasia da próstata encontrarmos doentes a fazer mais do que uma tansulosina. E porquê? Porque lhe foram receitadas por médicos diferentes. Primeiro, imaginemos, o doente foi ao médico de família. E depois foi a um médico num consultório público, ou privado, e não conseguiu comunicar a medicação que fazia. Portanto, a conciliação terapêutica é uma matéria importante. Acho que existe espaço para isso. Os médicos podem, obviamente, prescrever a própria conciliação terapêutica aos farmacêuticos, porque eles conhecem muito bem os medicamentos. Estamos a falar dos farmacêuticos, não de técnicos de farmácia. Outra solução importante é haver centralização da informação do doente. Neste momento, na privada todos os sistemas estão informatizados, no público passa-se o mesmo. É uma questão de haver uma conciliação global dos sistemas.

A Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) pode não gostar da ideia...
Se for o doente a decidir, a CNPD fica logo garantida. Isto é, se o doente tiver um código, ou um cartão com um chip, pode dar disponibilidade ao seu médico, ou ao seu farmacêutico, para consultar essa informação, no todo ou em determinadas partes. No futuro, provavelmente, será assim. Enquanto isso não existir, vai haver muitos doentes com necessidade de fazer uma reconciliação terapêutica. Portanto, parece-me positivo que os médicos a possam prescrever, para ser feita pelos farmacêuticos.

E prescrever algumas formas de acompanhamento no dia-a-dia dos doentes crónicos, ou dos idosos?
Sim, isso é possível, já existe. Os próprios farmacêuticos vão fazendo nas farmácias algum controle de doenças crónicas, nomeadamente hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, através da medição de níveis de glicemia, tensões arteriais e uma série de pequenas grandes coisas. Porque são estas pequenas coisas que fazem toda a diferença. E as pessoas, às vezes, não pensam nisso. Os cidadãos não pensam que, às vezes, uma simples medida de tensão arterial permite detectar uma hipertensão, ou perceber se uma hipertensão que está a ser tratada se descontrolou. Claro que existem cada vez mais formas de o doente poder fazer isso em casa. Nós vamos estar, dentro de pouco tempo, numa medicina à distância cada vez mais importante para seguir doentes crónicos. Ainda assim, neste momento, parece-me que os farmacêuticos também podem ter aqui um papel importante, na prescrição que os médicos podem fazer para o seguimento de doentes crónicos nalgumas áreas.

O que é preciso para fixar médicos no Interior? Qual é a pedra-de-toque, a solução, se é que existe, para isso?
Eu diria que, relativamente àquilo que são as regiões mais carenciadas e desfavorecidas, nós devemos ter uma política de incentivos global. Para funcionar verdadeiramente, essa política tem de ser para todas as profissões. Não pode ser só para os médicos, tem de ser para os jornalistas, para os professores, etc. Porquê? Porque senão você acaba por nunca criar a massa crítica suficiente que leve as pessoas a ficarem lá. Esse é o primeiro aspecto.


«Há aldeias e qualquer dia há vilas a desaparecer»

Para as economias locais voltarem a funcionar tem de haver investimento…
Implica, de facto, investir a sério nessas regiões. Provavelmente, será sempre um bocado em detrimento de se investir sempre no Porto e em Lisboa. Temos de fazer isto de forma consistente, mentalizados de que é importante para mantermos a coesão no território nacional. Para mantermos o país, é importante desenvolver as áreas mais periféricas, senão qualquer dia temos toda a gente a viver na faixa litoral entre o Porto – vá lá, Viana do Castelo – e Setúbal. Nós olhamos para o país e está tudo a ficar deserto. Há aldeias a desaparecer, qualquer dia há vilas a desaparecer.

E medidas específicas para os médicos?
Primeiro, é fundamental oferecer-lhes um projecto. Repare, o que leva as pessoas a ficar no serviço público e a irem trabalhar para o Interior é terem um propósito. No caso concreto da Medicina, isso significa um projecto para desenvolver uma determinada área. Imaginemos um urologista: vai para desenvolver um projecto na área da incontinência urinária ou do cancro da próstata, o que for. Depois, é fundamental garantir que a carreira médica se aplica. Se um médico que for para uma área desfavorecida tiver hipótese de evoluir mais rapidamente na carreira, só por isso vai ter um vencimento melhor, mais funções de direcção e gestão. A terceira questão é garantir condições em termos tecnológicos nos serviços de saúde dessas regiões. Os mais novos aprendem a fazer determinado tipo de tratamentos com a tecnologia que existe actualmente nos grandes centros urbanos. Se forem trabalhar, imaginemos, para Beja, Portalegre ou Bragança. Se chegam lá e não têm essa tecnologia, e começam a fazer as coisas à maneira antiga…Não quer dizer que não tratem dos doentes na mesma. Tratam, mas é natural que se sintam frustrados e por isso não queiram ir.

E o método clássico, de melhor remuneração à cabeça?
Se quisermos motivar mais as pessoas, podemos sempre dar-lhes uma remuneração melhor à cabeça, o que neste momento parece complexo. Ainda assim, o ministro Adalberto Campos Fernandes abriu 300 vagas, chamadas carenciadas, em que a remuneração base do médico estava 40 por cento melhorada relativamente à remuneração normal. As 300 vagas foram todas ocupadas. Dir-se-ia que, se ele tivesse aberto 600, tinha ocupado 600. Na altura, a resposta que ele me deu foi que havia outras zonas carenciadas, mas não podia abrir mais vagas, porque o ministro das Finanças só aceitou as 300.


«Temos profissionais de excelência, que emigram porque não estão a ser criadas condições para os reter»

Por que falhou a aposta de atribuir um médico de família a cada português?
Porque o Governo não soube ter a arte, nem criar as condições para que os médicos de família optassem por trabalhar no SNS e não saíssem, seja para o sector privado, seja para o estrangeiro. Aliás, a Medicina Geral e Familiar é uma das especialidades com mais emigração. Porquê? Porque nós temos profissionais de excelência, de excelência mesmo. Portanto, os outros países tentam recrutar médicos em Portugal. É natural. E neste momento não estão a ser criadas as condições para os reter.


«É urgente aplicar a carreira médica», alerta o bastonário

Não somos competitivos em termos salariais?
Não estava a falar de remunerações. Claro que, comparadas com outros países, as nossas remunerações são mais baixas. Mas isso não é o ponto determinante da escolha das pessoas. O ponto determinante tem a ver com um projecto de trabalho, com a aplicação da carreira médica que existe, mas não é aplicada. Na prática, é como se não existisse carreira médica. Não há respeito pelas pessoas. Um dos conselhos que eu tenho dado a todos os ministros, e a esta ministra em particular, é que respeite as pessoas, respeite os profissionais de saúde.

O que quer dizer com isso?
Sendo a ministra da Saúde a 'patroa', entre aspas, de todos os profissionais que trabalham no SNS, incluindo os médicos, é fundamental que resolva as coisas directamente junto dos hospitais, falando pessoalmente com os médicos, através da própria Ordem dos Médicos se assim o entender. Há várias formas de dar um sinal positivo a estes profissionais, e esse sinal positivo não tem sido dado. Portanto, as pessoas, como têm alternativas, acabam por seguir outro caminho.

Mas, a ministra não fala com os médicos quando visita os hospitais?
Há uns tempos atrás, pomposamente, anunciou que ia fazer um périplo pelo SNS, para ver que estava bem e o que estava mal. É evidente que foi fazer um périplo, com o primeiro-ministro, mas para inaugurar coisas. Não é isto que as pessoas querem. O que as pessoas querem é ser ouvidas. Conversar e transmitir as dificuldades a quem tem responsabilidade política e pode resolver, de facto, os problemas. E ouvir uma palavra, pelo menos de incentivo. Há coisas que sabemos que não é possível resolver de um momento para o outro. Mas, pelo menos, é importante ter aquela palavra de que «sim senhora, tem razão, nós vamos ver o que podemos fazer, vamos tentar resolver o mais rápido que nos for possível». Ou dizer que neste momento não é possível, mas mais tarde vamos pegar neste assunto e vamos resolver. Isto não tem acontecido.


«Eu falo com os médicos todos os dias. Já fiz centenas de visitas aos serviços»

Anunciou agora um périplo pelo SNS. O que vai haver de diferente?
Vamos convidar associações de doentes para estarem presentes e os jornalistas para acompanharem as visitas. E eu espero que não haja censura às nossas visitas. Se for boicotada a entrada de jornalistas, estaremos aqui perante um problema de censura, o que num país democrático fica sempre mal. Quando começarmos, o senhor primeiro-ministro irá decidir como quer fazer.

 


Já recebeu denúncias de médicos sobre problemas de falta de segurança clínica, como apelou o Fórum Médico?
Nós estamos sempre a receber denúncias. Não há uma semana em que não chegue à Ordem a descrição de situações que não estão de acordo com o devido, em termos de segurança das equipas, condições de trabalho, equipamentos, materiais e sobretudo falta de capital humano. Um problema grave tem a ver com o número de pessoas que os serviços deveriam de ter e não têm, em várias especialidades.

Onde?
Praticamente em todas as unidades do país.

Como vai ser a petição “Salvar o SNS”, que os médicos vão lançar?
A ideia é que não seja uma coisa de médicos, mas de cidadãos, profissionais de saúde e de várias áreas. Vem um bocado na continuidade daquilo que o dr. António Arnaut e o dr. João Semedo fizeram, propondo uma nova Lei de Bases da Saúde. Nós vamos fazer propondo investimento na saúde, no SNS. Isso é uma questão para nós importante.

Por que levar o tema do investimento à Assembleia da República?
Porque os nossos deputados têm muito peso na definição da força que o serviço público pode ter. E têm obrigação de combater as desigualdades sociais. E as desigualdades sociais na saúde são terríveis. Se nós olharmos para o último relatório da OCDE, verificamos facilmente que cerca de nove por cento dos portugueses não faz a terapêutica prescrita pelo médico por insuficiência económica, porque não tem dinheiro para o fazer, porque tem de escolher entre comer ou tomar medicamentos.

Quem está de fora muitas vezes não imagina, mas as farmácias sabem bem disso. Daí ter aparecido o Programa Abem.
Essas pessoas têm de ser ajudadas. Perante estas condições, só temos uma alternativa: é ter um SNS muito forte, para essas pessoas não ficarem para trás. Aliás, devia existir no Orçamento do Estado um item especial para combater as desigualdades sociais na saúde. E não existe. O grande problema na saúde dos portugueses tem a ver com quem se preocupa em ter uma refeição no dia a seguir e não pode ir um bocado mais longe. Até consegue ter acesso a uma consulta, num hospital ou nuns cuidados de saúde primários, mas se tiver alguma doença e precisar de fazer um tratamento acaba por não o fazer, mesmo sendo os medicamentos comparticipados pelo Estado muito baratos.


«Com esta política de desinvestimento, estamos a empurrar muitos portugueses para o sector privado»

De acordo com a OCDE, Portugal é dos países com maior investimento directo dos cidadãos na sua própria saúde. Não acha que o crescimento sustentado dos seguros e da prestação privada permite acomodar as deficiências do SNS, que sem essa almofada se tornariam insustentáveis para a opinião pública?
Sim, isso é o que está a acontecer. Neste momento, 40 por cento dos portugueses têm um seguro privado de saúde. É um dado que as pessoas normalmente não têm. Isto inclui obviamente a ADSE, porque a ADSE funciona como um seguro de saúde. Ela é paga pelos seus beneficiários, não é paga pelo Estado. Até dá lucro ao Estado, até tem dado lucro ao Estado. Quando a OCDE faz os seus gráficos relativamente ao chamado out of pocket, que é aquilo que é pago directamente do bolso das famílias, em Portugal já atinge uma percentagem à volta de 35 por cento. Ou seja, o SNS já não chega a mais do que 65 por cento dos portugueses. Bom, na realidade, chega a menos. Andará perto dos 55 por cento. Porque o Estado contrata cirurgias, meios de diagnóstico e outros serviços que não consegue fazer dentro do SNS. Anualmente, cerca de 16 por cento da despesa anual do SNS e dos serviços regionais de saúde, mais de 1.500 milhões de euros, tem sido para pagar serviços ao sector privado. A despesa pública total com serviços prestados por entidades privadas ascende a 21 por cento, mais de 2.400 milhões. Com esta política de desinvestimento, estamos claramente a empurrar muitos portugueses para o sector privado.

 


A criação de grandes grupos privados traz novos desafios e riscos à ética médica?
Tem um novo risco, não diria para a ética médica, mas a todos os níveis. Eu valorizo muito aquilo que são os cuidados de proximidade. Aliás, se queremos valorizar a prevenção da doença e a promoção da saúde, um dos aspectos capitais é apostar na proximidade. E o poder político, seja este Governo e o anterior, seja a Assembleia da República, não tem apostado na proximidade. Proximidade significa ser possível desenvolver serviços junto das pessoas. Antigamente, para além dos centros de saúde que ainda existem, havia consultórios. Os médicos tinham o seu consultório. Eu lembro-me que havia muitos médicos que iam fazer consultas a Bragança, a Vila Real, a Macedo de Cavaleiros e por aí fora.

Esse modelo económico tem vindo a desaparecer…
Está a desaparecer.


«Se tivessem de cumprir as mesmas exigências dos hospitais privados, muitos hospitais públicos já tinham encerrado»

E eu lembro-me de fazer reportagens em clínicas de fisiatria...
Pequenas clínicas. Estão a desaparecer, porque os grandes grupos económicos estão a absorver isto tudo. Os grandes grupos económicos tiveram aqui um apoio inesperado do Estado, através daquilo que são as condições exigidas para ter unidades de saúde abertas. Porque as exigências a que foram colocadas, por exemplo, a pequenos consultórios ou clínicas, fizeram com que os médicos não conseguissem dar resposta. Há exigências que, pertencendo a um grande grupo, os hospitais privados conseguem responder com alguma facilidade. Exigências essas a que o sector público não responde, já agora. Se as mesmas exigências fossem aplicadas ao sector público, havia vários hospitais públicos que fechavam as portas. Mas os pequenos consultórios médicos também têm dificuldade em responder. Até porque a medicina hoje não é propriamente uma medicina privada, é uma medicina convencionada, é uma medicina de seguros.

Não é fácil à maioria dos médicos estabelecer-se por conta própria…
Um médico que tem um consultório, ou uma clínica em conjunto com outros, continua a ter de pagar, como antigamente, a renda ou o empréstimo para o edifício, a electricidade, o telefone, à secretária ou às secretárias. Depois destas coisas todas, agora ainda tem de pagar uma taxa à Entidade Reguladora da Saúde e impostos que foram aumentando muito com o tempo. Tem de cumprir exigências cada vez maiores. Isso levou ao encerramento de grande parte dos consultórios e clínicas médicas. Muito daquilo que eram os cuidados médicos de proximidade começou a desaparecer. A juntar a isto, a parte pública também fechou. A maior parte dos hospitais concelhios, que também faziam um papel importante. Não era de tanta proximidade, mas era alguma proximidade. Eu lembro-me, por exemplo, do hospital de Espinho. As pessoas de Espinho só em casos mais complexos é que eram encaminhadas para Gaia, ou eventualmente para o Porto.

Nos cuidados primários, fecharam metade das extensões dos centros de saúde. O Instituto Nacional de Estatística já nem publica os números.
Fecharam às centenas. Isto tem sido uma cadeia, que depois obviamente culminou com o encerramento de vários serviços a nível dos cuidados de saúde primários. Parece ser uma estratégia do Estado concentrar os cuidados de saúde nos grandes centros, públicos e privados. E é isto que está a acontecer neste momento. Cada vez mais a medicina está muito centralizada nos grandes hospitais públicos e nos grandes hospitais privados. Isto não é bom. Isto não valoriza a proximidade, não valoriza a prevenção. Claro que temos aqui um desafio grande, quando começamos a perder os cuidados de proximidade que obrigatoriamente deviam existir.

O modelo só é bom para se chegar tarde demais aos doentes.
É, infelizmente. Não estou a dizer com isto que os grandes hospitais privados não ofereçam um serviço de qualidade aos doentes, mas são serviços completamente diferentes. O serviço da prevenção, da proximidade, está a ser destruído pelo Estado há seguramente vários anos. Não é uma característica própria deste Governo. Não é sequer propriamente uma coisa que tenha começado com o dr. Passos Coelho. Isto começou há uns governos atrás, ainda no tempo do eng. José Sócrates. Mas este Governo está a continuar esse trabalho, que não é bom para as pessoas. Acho que os cidadãos estão a sentir muito a falta de terem profissionais de saúde com quem falar relativamente perto de casa. Dentro do possível, como é evidente.

 



«Acredito muito na Ciência»

O que lhe deu para ser médico?
Quando concorri à universidade, podia escolher o que quisesse, tinha uma nota simpática. Achei que um médico podia ajudar as pessoas e acabei por seguir Medicina.

Tinha exemplos na família, alguém que o tenha inspirado?
Não.

Há uma coisa que me intriga: como se escolhe uma especialidade?
Isso é muito mais difícil. Durante o curso, raramente sabemos o que escolher. À partida, há pessoas que gostam de cirurgia e outras que acham que não gostam. E há ainda quem goste muito da parte médica mas também da cirurgia, de fazer procedimentos.

Como escolheu Urologia?
Coloquei três hipóteses: Urologia, Ortopedia e Oftalmologia. Acabei por escolher Urologia por ser uma grande especialidade médico-cirúrgica. É uma especialidade estimulante. Muitos desenvolvimentos da cirurgia minimamente invasiva, e até procedimentos sem cirurgia, como a litotrícia extracorporal por ondas de choque, evoluíram muito na área da Urologia.

Fez a formação no Porto...
No Hospital de São João. E depois, mal acabei a especialidade, concorri à primeira vaga que apareceu, que foi Viana do Castelo. E tive sete anos e meio maravilhosos. É uma terra lindíssima, em que o ambiente de trabalho é muito melhor.



Como assim?
Tivemos ali um grupo muito interessante de urologistas e conseguimos dar uma resposta cabal a todo o Alto Minho, através de uma excelente relação com os cuidados de saúde primários. Fomos de centro de saúde em centro de saúde, o que permitiu resolver o problema das listas de espera na altura, ou amenizá-las bastante. E permitiu também que os próprios cuidados de saúde primários tivessem uma resposta mais eficaz na área de Urologia. Por isso acho tão importante esta integração entre cuidados primários e hospitalares.

Como é que assistiu à grande revolução sexual da chegada dos medicamentos para a disfunção eréctil?
Estava nos Estados Unidos, não havia televisão americana que não estivesse a falar disso. Era uma coisa impressionante. Foi uma das grandes revoluções. De repente, as pessoas passaram a ter uma medicação que lhes permite tratar mais de 95 por cento dos casos de disfunção eréctil. Ainda bem que toca no tema, porque ciência é exactamente isto: vamos tendo terapêuticas cada vez melhores para os doentes. E eu acredito muito na ciência.

Continua com actividade clínica.
À quinta-feira faço a minha consulta no Hospital de São João e quando posso, o que já tem sido uma raridade, vou ao bloco operatório. Uma vez por mês, também asseguro com uma equipa o programa de transplante de fim-de-semana.

Para um bastonário cirurgião, é um drama manter a mão, não é?
É fundamental. Aquilo que o professor José Manuel Silva dizia é verdade. Quando o médico passa alguns anos afastado da clínica, depois tem de reaprender. Deve haver planos para reintegração, que neste momento estamos a criar. A parte técnica é sempre mais difícil, sendo que operar é como andar de bicicleta. Se tiver d​e ir operar um doente agora, dentro daquilo que eu sei fazer na cirurgia, sinto-me perfeitamente à vontade. Não vou ter medo de o fazer. Agora, se um cirurgião estiver uns meses largos sem pegar no bisturi, quando volta a pegar nele nota a diferença. Vai sempre com mais algum receio, mas está a fazer as coisas porque as aprendeu e porque as fez centenas ou milhares de vezes. Isto é uma parte importante da minha vida. Eu sou médico e quando sair de bastonário espero continuar a dedicar-me à Medicina, que é o que eu sei fazer melhor.

Tempo livre?
É cada vez menos. Esse é o maior problema que tenho de enfrentar neste momento. Gosto muito de viajar, de ouvir música, de uma série de coisas que neste momento não estou a conseguir fazer como gostaria. Mas isso faz parte do preço de se ser bastonário. Eu costumo dizer – e isto é uma regra também da Gestão – que normalmente as pessoas com mais ocupação têm maior disponibilidade para fazer ainda mais. Tenho feito um bocado isso, mas acho que estou no limite, porque o cargo de bastonário é muito mais exigente do que eu imaginava.