Política de utilização de Cookies em Revista Saúda Este website utiliza cookies que asseguram funcionalidades para uma melhor navegação.
Ao continuar a navegar, está a concordar com a utilização de cookies e com os novos termos e condições de privacidade.
Aceitar
8 julho 2019
Texto de Maria Jorge Costa Texto de Maria Jorge Costa Fotografia de Luís Silva Campos Fotografia de Luís Silva Campos

«A minha vaidade é a empresa»

​​​​​​​​Aos 88 anos, o dono dos cafés Delta continua no activo e conta como montou um império.

Tags
​Gosta de café?
Sempre gostei e cada dia que passa gosto mais. Mas tenho de ter esse gosto porque é a minha vida.  Parecia mal eu dizer que não gostava de café. Mas sou equilibrado, bebo no máximo quatro cafés por dia, porque há que cuidar da saúde.

Cuida da sua saúde?
Sou preocupado porque sempre trabalhei muito e a pessoa tem de procurar ter uma saúde normal. Uma alimentação sempre equilibrada. Penso que é uma obrigação de toda a gente cuidar da saúde. Há muitas pessoas que descuidam um pouco. Eu não posso porque tenho muitas obrigações.

Sabia que ia ser empresário?
Sempre tive uma ambição mesmo de garoto, garoto... Queria fazer o que via num familiar. Era um homem do campo, e dizia para os pais «eu quero outra vida» e procurou-a com poucos anos. Aos 15, 16 anos já procurava a vida dele fora do país. Tudo isso me levou a pensar que queria ser igual, ou parecido. Sonhava em ser empresário? Não. Que pudesse atingir uma determinada craveira? Também não. Não precisaria de trabalhar agora. Tenho família, trabalham bem e eu podia estar descansado, mas o tempo custava mais a passar e já cá não estaria, porque quem se habitua a lutar não aceita a tranquilidade.


Aos 88 anos, o dia de trabalho de Rui Nabeiro começa às 6 da manhã e termina às 20h

Não é homem para parar de trabalhar?
Não, a reforma... eu já a meti há muitos anos e ainda não consegui até hoje... Estou com 88 anos, tinha que estar reformado há quase 30 anos. Já dava tempo para ter desaparecido. Se parasse podia ter vida, mas não era a mesma pessoa. Gosto e tenho gozo no que faço.

Não é um escravo do trabalho?
Vivo para o trabalho, mas ser escravo do trabalho não. Até dou condições a outros para que eu possa fazer menos.


O Centro de Ciência do Café, em Campo Maior, tem uma colecção de máquinas de café antigas

Como decidiu criar a empresa Delta?
Os meus pais e um tio tinham uma fabriquetazinha nos anos 50. Eu tinha a ambição de crescer. Sempre corri os mercados, mesmo nessa altura. Comprávamos a matéria-prima em Angola, Cabo Verde (pouco), Timor e pouco mais. Comecei a pensar em fazer a minha própria vida, sem abandonar a que tinha. Decidi criar a empresa em Fevereiro de 1961. O início foi difícil. Pensei em desistir porque não se vendia, mas como tinha onde ir buscar um ordenado mínimo para me manter, não desisti. E consegui. Quando comecei, nem a concorrência acreditava e quando eram alertados por alguém diziam: «Ah! Isso é aquele homem lá do Alentejo, mas eles andam devagar». Eu não andei devagar porque ia aos sítios comprar e vender o café. Quando os outros iam eu já vinha e isso é uma grande vantagem. Em 1961 vi onde tinha de vender, estudei o mercado de cafés em grão. O mercado Horeca [acrónimo para Hotéis+restaurante+cafés] estava ocupadíssimo. As pessoas deviam favores aos comerciantes mas lá foram levando uns quilos do nosso café. Passava de mês a mês por esses sítios todos.

A ligação presencial fez diferença?
Muita, muita... ainda hoje é útil. Eu já tinha uma forma de estar muito próxima com os espanhóis. Costumo dizer que estamos no Interior profundo e o nosso litoral é a fronteira com Espanha, onde aprendi bastante. O que eu fazia era levar o produto a casa e dar condições de pagamento. O crédito na altura era mais difícil. Fui ganhando um espaçozinho. Os colegas da altura diziam que eu andava devagar. Eu andava era já com a cabeça mais à frente! Com a Delta, comecei a ir a países, a feiras onde ninguém ou pouca gente ia. Isso deu-me experiência. Percebi que era este o caminho. Das feiras trazia matéria-prima e ideias.


A Adega Mayor resulta de um capricho do empresário Rui Nabeiro em produzir vinho

Em 1988 criou o Grupo Nabeiro e diversificou o negócio. Porque o vinho?
Só com um negócio éramos mais frágeis. O vinho foi um capricho meu. Há muito tempo, Campo Maior tinha olival e vinha distribuída pelo povo. A quem não tinha terras foi distribuído 0,75 ha para plantar olival e vinha. Todos tinham vinho. Os meus avós também tinham. Isso foi desaparecendo e um dia decidi que tinha de fazer vinho. Em boa hora, porque começa a ser uma marca e um bom produto.

Preocupa-se com os funcionários, conhece as pessoas.
É que eu não sou homem de escritório. Trabalhei sempre junto dos meus funcionários. Continuo a levantar-me cedo para visitar todas as "capelinhas". Conheço os meus colaboradores todos, os daqui e os que estão espalhados pelo país. Dou condições, abro portas, arranjo empregos, dou facilidade e isso é reconhecido. Por exemplo, nos anos 70 e 80 a maioria das pessoas nunca tinha saído de Campo Maior e eu meti-os num autocarro – em nove autocarros – e fomos para o Sul de Espanha, para o Sul de Portugal. Fomos para a Madeira, os Açores e Las Palmas, nas Canárias. Eram umas 300 e tal pessoas. Essas pessoas nunca tinham saído de casa. Tive de parar porque hoje somos muitos. Mas nessa altura convidávamos a família. Era uma semana completa, mas "chegou e sobrou" que ainda cá estamos hoje...

 


Quando se entra em Campo Maior o nome Nabeiro esta em todo o lado. Sente orgulho?
Olhe, tivemos a felicidade de ter uma indústria que criou emprego. Em Campo Maior quase não há desemprego. Toda a gente tem uma vida razoavelmente boa. É um dos concelhos do país em que se vive melhor. É um trabalho da Delta.

Já recebeu distinções, prémios, reconhecimentos. Sente orgulho, vaidade? 
Não. A minha vaidade está aqui. A minha vaidade é a minha empresa. 

E um homem de família?
Absolutamente. O meu casamento já tem muitos anos. Se somar o namoro, já são setenta e tantos.

Há muita sabedoria para gerir. 70 anos...
Nunca fiz nada que não estivesse relacionado com a minha mulher. E da parte dela aconteceu sempre um carinho também. Começámos na escola, na instrução primária, a olhar um para o outro. A minha sabedoria é natural, não a apanhei na escola mas sim no convívio e o convívio na minha casa é muito a sério. Há muita sabedoria de parte a parte. Damos muitos bons exemplos, tanto um ao outro como à própria família. Foi assim que nascemos e é assim que somos.

 


Como é ser avô e bisavô?
Por acaso não queria dizer isso, mas vou dizer... Tenho pouco vagar ainda hoje para estar com os netos e os bisnetos. Ser-se bisavô é ainda mais amoroso do que ser avô. Encontro muita piada aos pequenos. Temos seis bisnetos, é uma alegria. Tenho os netos a trabalhar e bem. Um tem 40 anos, uma mais a seguir está com 38 e os outros andam também ali perto.

Como quer ser recordado?
Vou ser recordado pelo que fiz de bem às pessoas. Chega-me. Tenho consciência de que não pensei em mim sem pensar nos outros.

É um homem feliz?
Sou, sim. Não me falta nada. Tenho saúde, tivemos este azar com o genro há pouco tempo e temos azares como toda a gente, mas tenho felicidade porque vivo e deixam-me viver, e eu ajudo a viver também.

 




Delta Cafés apoia Programa Abem
O Grupo Nabeiro tem em curso uma campanha de divulgação do Programa Abem, rede solidária do medicamento. No âmbito da sua política de responsabilidade social, a Delta Cafés produziu cinco milhões de saquetas de açúcar. A distribuição nos estabelecimentos de restauração e hotelaria clientes da Delta começou em Abril. «Fizemos o que a nossa consciência nos disse», o empresário Rui Nabeiro, elogiando o projecto da Associação Dignitude.​


Notícias relacionadas
Galerias relacionadas