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8 fevereiro 2019
Texto de Carlos Enes Texto de Carlos Enes Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro

A estrela do ocidente

​​​​​​​​​​A ilha mais ocidental da Europa aponta o caminho do século XXI aos profissionais de saúde.

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Farmácia da Misericórdia - Santa Cruz das Flores

Felizmente, as respostas espontâneas de ambos ficaram gravadas em vídeo, para toda a gente poder ver como é.

– Excelente!
– Fabulosa!

O farmacêutico Eduardo Freitas e o médico José António Fadul põem à cabeça os adjectivos, com a urgência de quem quer espalhar a notícia. A pergunta, de um milhão de dólares para o Serviço Nacional de Saúde do século XXI, não podia ser mais fácil, embora às vezes pareça tão difícil:

– Como é a relação da farmácia com os médicos do centro de saúde?

Quando aterrou no Aeroporto das Flores, quilómetro e meio de pista com entrada pelo mar, o doutor Fadul, colombiano de Cartagena das Índias, já trazia repertório de insularidade e ficheiro de boas relações interprofissionais. Tanto na Graciosa como em Santa Maria, onde praticou sete anos Medicina Geral e Familiar e Cirurgia Plástica, passava pela farmácia uma ou duas vezes por semana. Agora, vai lá sempre. No final de cada jornada de consultas e algumas vezes a meio, a acompanhar doentes.

– Entro na farmácia como se estivesse em minha casa, é igual ao centro de saúde.

A farmácia, moderna e com 300 metros quadrados, e o centro de saúde, agora em obras de beneficiação, parecem a extensão um do outro. Um expositor “iSaúde” das farmácias faz companhia aos doentes na sala de espera dos gabinetes médicos. Esta semana disponibiliza folhetos da Liga Portuguesa Contra o Cancro a recomendar a vacinação de rapazes e raparigas contra o papilomavírus humano. É um indício material da cooperação institucional, mas o mais importante acontece nas relações diárias.

Os médicos ligam frequentemente ao farmacêutico e aos seis ajudantes técnicos a pedir informações que às vezes os próprios doentes não conseguem esclarecer nas consultas. A Farmácia da Misericórdia tem a vantagem de ser a única na ilha, com dois postos de medicamentos, nas Lajes das Flores e na ilha do Corvo. Os processos dos utentes registam a informação de todos os medicamentos e produtos de saúde que levam para casa, mesmo aqueles que dispensam prescrição médica. É precioso para os médicos poderem saber, com o doente à frente, tudo o que ele anda a tomar e se aderiu sem problemas aos medicamentos prescritos na consulta anterior, ou por alguma razão abandonou a meio a terapêutica.

– O director-técnico da farmácia está sempre disposto a atender-nos a qualquer hora.


O médico José António Fadul termina muitas consultas na farmácia, com o doente e o farmacêutico

Quando vem o mau tempo, às vezes passa-se uma semana sem nenhum avião poder aterrar na ilha. No Inverno, a farmácia reforça o stock de antibióticos e antigripais, mas nem sempre é possível evitar a ruptura de medicamentos, problema que se tornou, infelizmente, diário no continente. José Fadul liga muitas vezes a saber quais os medicamentos disponíveis de uma determinada classe de anti-inflamatórios ou anti-hipertensores.

– Pergunto ao doutor Eduardo: «O que temos»? Entre nós, há essa confiança. O importante é não retardar o início dos tratamentos.


Eduardo Freitas é o farmacêutico de família da Ilha das Flores​

Também acontece deslocar-se com os doentes à farmácia para rematar a consulta. Sempre que para além da doença tem de enfrentar o analfabetismo ou a iliteracia, o médico gosta de pegar ele próprio nas embalagens dos medicamentos e explicar tudo direitinho. Como o dialecto cerrado dos florentinos mais velhos e o castelhano colorido das Américas emitem em frequências hertzianas diferentes, o farmacêutico sempre ajuda a sintonizar a prescrição médica.

– O doutor Fadul explica-me a mim e eu explico à pessoa. Isso facilita a adesão à terapêutica.

A farmácia também contacta os médicos sempre que surge alguma dúvida ao balcão, o que deixa os doentes tranquilos e satisfeitos.

– As pessoas vêem claramente que toda a gente rema para o mesmo lado.

O centro de saúde tem um médico no quadro e outros três a contrato, um deles o nosso interlocutor. O mais antigo fixou-se há doze anos. Este vaivém gera queixas por parte da população e até rivalidades entre ilhas.

– Isto não é bom para uma ilha, que precisa que o médico se familiarize para ganhar a confiança das pessoas e garantir a continuidade do acompanhamento da sua saúde ao longo do tempo.

Já Eduardo Freitas é o director-técnico da farmácia há 23 anos. Isso tornou-o uma espécie de farmacêutico de família. Conceição Nunes, directora do panorâmico hotel do Inatel, recorre ao seu aconselhamento especializado em cosmética, mas também em muitos casos de doença.

– Muitas vezes nem preciso de ir ao médico.


Como não há pediatra, médico de família, enfermeira e farmacêutico resolvem as necessidades dos bebés

As mulheres que entram em trabalho de parto têm direito ao helicóptero ou avião militar reservado aos doentes urgentes. Muitas crianças nascem na viagem, com o alto patrocínio da Força Aérea Portuguesa. Nas Flores também não há pediatra. As crianças entram para a lista dos médicos de família. As mães são também aconselhadas pela equipa de enfermagem e pelo farmacêutico da ilha. Iolanda Peixoto recorda que resolveu na farmácia todos os problemas relativos à amamentação e às primeiras papas de Henrique, filho de oito meses que tem ao colo.

– A farmácia serve para tudo. Vou sempre primeiro à farmácia e só se não conseguir resolver lá é que vou ao médico de família.


Apesar de viver num ilha a meio caminho entre a Europa e a América, Palmira sente-se bem acompanhada pelos profissionais de saúde

Palmira Peixoto, de 83 anos, é a avó da família. Há uns meses caiu na cama com uma infecção urinária e nunca mais se levantou. Em três dias, a farmácia mais ocidental da Europa pôs-lhe um elevador de transferência em casa. Da antiga professora primária das Flores brotaram dois filhos de parto natural. O outro só desabrochou de cesariana, no saudoso hospital dos franceses, que abandonaram a ilha há 25 anos. Ninguém fale a Palmira em sair das Flores. Não há muitos profissionais de saúde, mas quando ela precisa eles lá se entendem.

– Arranjam-me sempre solução.
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