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14 maio 2021
Texto de Vera Pimenta Texto de Vera Pimenta

A coesão faz a força

​​​​​​Como as farmácias protegem as mais frágeis.​

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Marlene mal conseguiu acreditar quando recebeu a chamada a confirmar que a Farmácia Lúcio tinha sido seleccionada para receber o apoio do Programa de Coesão Territorial das Farmácias. O sonho de melhorar as condições do espaço já vinha desde 2013, nos tempos em que a direcção-técnica pertencia ao irmão.


Farmácia Lúcio antigamente

As obras de remodelação


Farmácia Lúcio depois do Programa de Coesão

Na farmácia mais antiga da pequena vila de Armamar, a equipa de quatro pessoas estava habituada a dividir-se entre os dois balcões de atendimento e o transtorno que isso causava. A fraca iluminação era um desafio extra, principalmente para os utentes mais idosos, com dificuldade em ver. Também os serviços farmacêuticos estavam limitados pela ausência de um gabinete de atendimento personalizado.

Jovita Cardoso, utente há vários anos, gostou de ver as mudanças. Todas as semanas, é na Farmácia Lúcio que toma a injecção para a diabetes. O novo gabinete trouxe maior conforto e privacidade. «Estamos mais à vontade. E já era merecido», comenta.

«Este apoio permite-nos servir melhor as pessoas», afirma a directora-técnica adjunta, Sofia Pinto. Sem a ajuda da rede de farmácias, as obras de reestruturação teriam de continuar a ser adiadas indefinidamente.

Com a pandemia, a reduzida facturação sofreu uma nova quebra, deixando pouca margem para planos a longo prazo. «Sempre pagámos as nossas contas, temos tudo em dia. Mas, apesar da boa vontade da equipa, sem meios é muito difícil», acrescenta Marlene Lúcio. A directora-técnica deixa o alerta: a queda no poder económico da região já se começa a notar.

Nas aldeias esquecidas do Interior, poucos são os que resistem à imperdoável passagem do tempo, severa na migração para os grandes centros urbanos. A fraca oferta de serviços, agravada pela crise pandémica, complica o acesso a tudo – principalmente à saúde.

Perante uma população maioritariamente idosa, o papel do farmacêutico ganha uma importância redobrada. Na mesma medida, aumentam as dificuldades em manter a porta aberta.

A pensar na preservação da rede e para garantir a igualdade no acesso ao medicamento, a Associação Nacional das Farmácias (ANF) lançou, em 2020, o Programa de Coesão Territorial das Farmácias.

O pacote solidário, de cerca de meio milhão de euros, tinha como objectivo apoiar as farmácias localizadas em zonas territoriais mais desfavorecidas, com facturação global igual ou inferior a 60 por cento da facturação média a nível nacional. Em termos sociodemográficos, eram elegíveis as farmácias de freguesias com baixa densidade demográfica, pouco poder de compra per capita e elevada proporção de habitantes com 65 ou mais anos.

As candidaturas foram avaliadas ainda com base no seu impacto positivo na rede de farmácias e na população que servem, garantindo a proximidade, qualidade e equidade no acesso aos serviços prestados.

Entre as 151 candidaturas, 52 projectos foram seleccionados – oito dos quais apoiados com carácter de urgência.



A Farmácia Nova Vilar de Maçada, no concelho de Alijó, foi uma das contempladas. Uma porta nova, que permite manter a temperatura interior, um led publicitário e um novo posto de atendimento foram alguns dos projectos que o programa permitiu implementar.

Com o apoio dos consultores especializados em gestão de serviços de saúde da Adjustt, a farmácia conseguiu organizar melhor o stock e uma série de procedimentos, o que libertou tempo e recursos. À equipa até então constituída por duas pessoas, juntou-se uma técnica auxiliar de farmácia em part-time.

O proprietário, João Matu, considera que a medida aproxima as farmácias mais pequenas das farmácias das grandes cidades. E sublinha: «O que está a ser feito pela ANF podia ter partido do Governo».

«Se não houvesse uma ajuda de algum lado isto ia embora», acrescenta a utente de longa data Mariana Martins. «Com as poucas pessoas que estão cá, é muito difícil governar uma farmácia».

Em Rio Caldo, os meses mais frios refugiam os habitantes em casa, deixando as ruas vazias. Só a chegada do sol traz consigo os turistas, atraídos pela calmaria das paisagens pintadas de verde e azul, tão características do Gerês.

«A nossa população está muito envelhecida e a taxa de natalidade é terrível», conta Gisela Martins, directora-técnica da Farmácia Entre as Pontes. Numa terra onde quase toda a população vive da agricultura, o poder de compra é diminuto.
 
Por isso, o maior volume de facturação concentra-se no Verão. No resto do ano, os medicamentos sujeitos a receita médica perfazem 80 por cento das vendas.


A Farmácia Entre as Pontes, em Rio Caldo, Braga, já tem uma balança para pesar os utentes e três postos de atendimento

A farmacêutica garante que o Programa de Coesão Territorial das Farmácias foi uma oportunidade há muito esperada de melhorar as condições da farmácia. Agora, há um balcão para cada um dos três membros da equipa, um chão renovado e uma balança para pesar os utentes.

O utente Francisco Gonçalves considera que, depois das melhorias, a Farmácia Entre as Pontes está mais próxima dos modelos da cidade. No gabinete de contabilidade onde trabalha, tem ouvido comentários ao novo aspecto do espaço. «As pessoas gostaram do resultado», conta. «Costumam dizer que já era tempo».

Com a nova cruz brilha também a esperança de tempos melhores, em que os turistas voltem a trazer vida à aldeia. Até lá, a farmácia de proximidade mantém-se ao lado de quem precisa, com uma equipa alegremente unida há 23 anos. «Não estamos aqui só para aviar receitas», remata Gisela. «Somos úteis».

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