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21 novembro 2017
Texto de Carina Machado Texto de Carina Machado Fotografia de Alexandre Vaz & D.R. Fotografia de Alexandre Vaz & D.R.

Um padre diferente

​​​​​​​​​​​​​​​Como, aos olhos dos amigos, o “baixote” se tornou num dos homens maiores.

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Fisicamente, «era um Zé Ninguém: franzino, pequeno». Orlando Lourenço, 70 anos, administrador das caves Raposeira, lembra-se bem de D. António Francisco em criança por isso mesmo. «Recordo-me perfeitamente de o ver de batina até aos pés, com 12 ou 13 anos, todas as quintas-feiras, dia em que os seminaristas vinham, dois a dois, formados em fila, até à cidade. Era sempre um dos dois primeiros, porque era dos mais baixinhos». Orlando vivia ao pé do seminário de Lamego, na Rua de S. Lázaro. Muitos foram os jogos de futebol disputados com os seminaristas. «Mas não com ele. Ele não era pessoa de jogar», assegura. O “baixote” acabou por ser um dos maiores homens que conheceu «e, entre os padres, aquele que mais se aproxima do nosso actual Papa. Já viu como são as coisas?».

Orlando Lourenço hesitou muito antes de aceitar conversar connosco. Fá-lo hoje com marcada cadência, entre inspirações profundas, próprias de quem sofre uma dor pungente. Recebe-nos nas instalações da Raposeira, em Lamego, mas teima em deixar o espírito divagar até outros locais, num tempo, ainda muito recente, em que o cenário da morte de D. António Francisco não se colocava sequer. 

A custo resgatamo-lo. Conta que foi só quando D. António veio para Lamego, chegado de Paris, para dar aulas no seminário maior, que a ligação entre ambos se estreitou. «Nessa época criaram-se as Equipas de Nossa Senhora, e ele foi padre assistente da minha equipa durante 35 ou 36 anos». As Equipas de Nossa Senhora são um movimento leigo que se rege por reuniões mensais de cinco ou seis casais, organizadas nas casas uns dos outros e moderadas por um director espiritual, onde se debatem variadíssimos assuntos: «temas da sociedade, da vida, da família, das nossas preocupações, tendo sempre como pano de fundo a palavra de Deus, a Bíblia». Em suma: «é um movimento de espiritualidade conjugal».

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Orlando recorda a viagem com D. António a São Petersburgo, onde não havia igrejas católicas. «Fomos a uma missa ortodoxa. Tinha de ver o que ele achou de brutal o padre vir receber e depois vir despedir-se das pessoas à porta da igreja!»​

A proximidade entre as pessoas é obviamente grande, assim como são apertados os laços de amizade que se criam. Orlando tinha em D. António o melhor amigo. «Teve sempre um envolvimento familiar connosco. Os casamentos dos meus filhos foram feitos com ele, os baptizados dos meus netos também. Não havia semana em que não falássemos». Sabe que não era caso único, que D. António era próximo de todos. «Conhecia toda a gente e com todos lidava da mesma forma. Mas para mim, ele era o amigo a quem eu podia contar as minhas mágoas, as minhas irritações, as minhas dúvidas, aquele em cujas mãos punha também um pedacinho do que penso sobre o futuro, para ele poder dar-me a sua opinião. Morreu-me um irmão». Orlando desfaz um pedaço de dor em lágrimas. Depois, continua. «Viajámos muito juntos». 

Guarda desses tempos memórias fantásticas que compõem o retrato do seu amigo. «Em São Petersburgo, por exemplo, não havia igrejas católicas. Fomos, por isso, a uma missa ortodoxa. Tinha de ver o que ele achou de brutal o padre vir receber e depois vir despedir-se das pessoas à porta da igreja!». Em 2012 estiveram no Brasil, no congresso mundial das Equipas de Nossa Senhora. «Reuniram-se, em Brasília, 7.500 casais de todo o mundo. A nossa equipa foi a única que se apresentou completa, com o seu padre, que então já era bispo!». 

Foi a primeira vez que D. António foi ao Brasil. «Já tinha tido N oportunidades, mas nunca quis ir: era a terra onde o pai lhe tinha morrido». Foi a primeira vez que visitou o túmulo do pai. E a única.

Contudo, sublinha Orlando, António Francisco não era um homem de se dar a grandes desgostos. «Tinha uma fé inabalável!», justifica. E perante situações inesperadas ou mesmo desagradáveis, «via-o reflectir sobre o que não gostava que tivesse sido dito ou feito, mas a seguir estava tudo bem». Tinha uma capacidade grande de aceitação e um talento especial para a gestão de relações e a geração de consensos. «Era de uma popularidade fora do comum! Vinha à cidade e parava umas 30 vezes a cumprimentar este e aquele». 

Orlando está convencido de que António Francisco chegaria muito longe. «Era um bispo diferente!». 
 
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