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21 novembro 2017
Texto de Carina Machado Texto de Carina Machado Fotografia de Alexandre Vaz & D.R. Fotografia de Alexandre Vaz & D.R.

O homem que não sabia dizer não

​​​​​​​​​​​​​​​​​​D. António Francisco pelos olhos dos velhos amigos de Cinfães.

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«Vi-o já na urna, com o Evangelho aberto ao peito. Nunca o achei tão alto: ele representava o Evangelho, entende?». Amanda Montenegro conta 93 anos. Rijos, depressa se percebe, apesar da figura esguia. Tem dez filhos e tratava António Francisco dos Santos como um décimo primeiro. «Os meus filhos diziam-me isso, dos cuidados que lhe tinha. Mas o mais velho até me confessou: “Desse não tenho inveja. É um santo!”».

Estamos em Cinfães, concelho de D. António e para onde veio, em 1972, dar apoio ao padre Acácio, na paróquia de S. João Baptista. Também este, hoje com 93 anos, se junta a nós, no restaurante “O meu gatinho”, pertença das filhas de Amanda e onde o bispo do Porto era presença assídua.

Amanda explica que conhecia D. António desde sempre. Contudo, a relação ter-se-á tornado mais próxima quando foram colegas na escola preparatória local, onde ele, com 23 anos, dava aulas de Religião e Moral, e Amanda, licenciada em Ciências Farmacêuticas, dividia o tempo entre a farmácia, de que se desfez quando o marido adoeceu, e as aulas de Matemática e Ciências que leccionava. «Ele era diferente. Impunha-se sem se impor. Eu sempre fui dura e exigente com os outros, mas com ele não conseguia. Ele tinha aquela simplicidade, aquele carinho!».


Amanda Montenegro tratava D. António como um filho. «Os meus filhos diziam-me isso, dos cuidados que lhe tinha. Mas o mais velho até me confessou: “Desse não tenho inveja. É um santo!”»

Em 1974, António Francisco é chamado a continuar os estudos em Paris, onde viria a licenciar-se em Filosofia, em 1977, a fazer o mestrado em Filosofia Contemporânea e a diplomar-se em Sociologia Religiosa. «O meu marido estava internado no Instituto de Oncologia, em Lisboa. Foi operado no dia 23 de Outubro e eu ia todas as sextas-feiras à noite e regressava ao domingo à noite. Quando o D. António me disse que ia para Paris, combinámos despedir-nos em Santa Apolónia». E assim foi. Num tempo em que os telemóveis não existiam, cruzaram-se pouco antes da meia-noite, hora de saída para Cinfães e de embarque para Paris. Para trás ficaram memórias queridas, como as tardes em que António Francisco trazia a mãe a casa de Amanda e, ataviados de cestinha e manta, se embrenhavam nos quintais da casa, na apanha de morangos para a merenda. «Não contactámos enquanto ele esteve em França». Houve períodos em que a mãe esteve com ele e, quando regressaram, ela voltou para casa, em Tendais, e ele já não veio para Cinfães: foi colocado em Lamego, no seminário.

Os cinco anos passados esfumaram-se entre dois abraços, o da partida e o do retorno, e de imediato reavivaram a amizade no ponto onde a haviam deixado.

«Quando a mãe adoeceu e depois de ter estado internada, levou-a para Lamego. Ligou-me um dia a perguntar se conhecia uma mulher boa que fizesse companhia à mãe, de noite. Disse-lhe que sim, que conhecia, mas a mulher era eu e ele descobriu e não quis. Causou-me grande desgosto. Ele era um amigo e eu ia ajudá-lo». Amanda julga saber o porquê. «Eu era mais velha e ele pensava que eu era uma grande senhora. Quantas vezes lhe ligava, ele atendia o telefone e dizia “Passou bem, senhora dona Amanda?”. E eu respondia-lhe: “Oh D. António, olhe que eu tenho vergonha! Se o senhor não tem, tenho eu!».

A morte da mãe abalou-o profundamente. «Quando o vi, curvado, parecia um velhinho. Pensei que nunca mais reanimasse». Amanda enxuga os olhos. Pressentindo o momento, junta-se a nós um gato. Roça-lhe as pernas. «Eu dizia muitas vezes que não sei como o admiro mais, se como filho ou se como sacerdote», diz, enquanto passa a mão pelo pêlo do felino caseiro.

À mesa vão chegando iguarias. Acácio, mais ouvinte do que falador, faz o gosto ao dente com uma feijoada de pezinhos. Amanda fica-se pela batata doce e água gaseificada. Conseguem baralhar quem se atreva a tentar adivinhar na comida segredos de longevidade.

A farmacêutica continua e relembra como António Francisco lhe casou as filhas e os filhos, baptizou os netos e até bisnetos. «Nunca soube que ele tinha um problema de coração», atira, inesperada. Falavam amiúde. Ela ligava-lhe sempre, por vezes ficavam a reviver o passado. «Noutras ele partilhava mágoas». «Ele não se cuidou. Eu telefonava para o paço episcopal e na secretaria lá me aturavam. Falava com a irmã e perguntava: “O Sr. bispo, como é? Dorme? Dorme inteiro? Agasalha-se, alimenta-se?”. E ela quantas vezes me dizia que não o conseguia controlar».

Amanda julga que o exercício no Porto foi duro, desgastante, «mas o que o matou foi ele não saber dizer que não. O tempo não lhe chegava. As pessoas solicitavam-no muito, para tudo. E os mais próximos, que sabiam disso, deviam tê-lo cuidado».

«O relógio parava quando ele encontrava alguém», pronuncia-se Acácio. E com uma garfada no pudim de pão põe um ponto final na conversa: «Ele foi um santo que andou na terra, menina».

Amanda está convencida: «D. António não se cuidava. O que o matou foi ele não saber dizer que não a ninguém»
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