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21 novembro 2017
Texto de Carina Machado Texto de Carina Machado Fotografia de Alexandre Vaz & D.R. Fotografia de Alexandre Vaz & D.R.

A alegria do encontro

​​​​​​​​​​​​​​​Perfil do bispo que «deixou nas ovelhas o cheiro do pastor».

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«”O que sou eu para esta gente? Qual é o meu mister? Como é que eu lido com cada uma das pessoas?” Imagine um bispo assim para os seus padres e os seus leigos. Imagine assim a Igreja para o mundo. Esta é a grande riqueza do António, que soube, antes de mais, ser. E ser alegre». Para o padre Adriano Monteiro Cardoso, colega de seminário de D. António Francisco, o bispo do Porto era um homem realizado. «A sua caminhada cristã levou ao que chamamos de despojamento de si. Ele não pensava nos pobres; antes, envolvia-se no pensamento dos pobres, no seu olhar sobre o mundo. Este é o cerne: não a visão de cima para baixo, mas a partilha».

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Para o padre José Guedes, «Não houve nada que D. António vivesse que não lhe desse, sobretudo, a alegria do encontro»​

José Guedes, padre que completa o trio de amigos nascido no seminário de Lamego em 1959 e que, como afirma, resiste hoje para lá da morte de D. António, conta que a dinâmica deste foi sempre a de «onde houver necessidade de estar o homem padre, estar sempre o padre que é homem. É um ideal que gera uma dimensão de proximidade grande ao outro, e a vida dele foi sempre esta. Não houve nada que ele vivesse que não lhe desse, sobretudo, a alegria do encontro».

Já para Adriano Pereira, pároco de Tendais, terra natal do bispo do Porto, nada define melhor D. António do que as palavras de D. Jorge Ortiga, arcebispo primaz de Braga. «O Papa pede aos padres e bispos que tenham o cheiro a ovelha, ou seja, que vão ao encontro das pessoas. E D. Jorge Ortiga disse que quando estivesse com o santo padre lhe falaria do bispo que deixou nas ovelhas o cheiro do pastor».

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O padre Adriano Cardoso fala do despojamento de D. António: «Ele não pensava nos pobres; antes envolvia-se no pensamento dos pobres, no seu olhar sobre o mundo»

Para o padre de Tendais, o último grande momento da comunidade com D. António foi na celebração dos 250 anos da igreja local. António Francisco assegurou presença, dando conta de que apenas teria disponibilidade para celebrar a eucaristia de manhã e benzer a capela da Luz. «Só que foi ficando a conviver com as pessoas da terra, e depois soube que cada um dos 14 povos tinha trazido um andor diferente para a procissão da tarde - coisa que nunca tinha acontecido, e então disse: “Já não me posso ir embora”. Ficou até à noite, conversando com uns e com outros, e via-se que fazia aquilo com gosto, com satisfação».

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António Francisco tinha uma memória extraordinária. O padre Adriano Pereira revela que, no Porto, «quando o levámos à última morada, era aquele mar de gente, e um sacerdote disse - e eu concordei: “Devem ser muito poucas as pessoas que estão aqui que o doutor não conhecia pelo nome!”»

António Francisco dos Santos nasceu com uma memória pouco comum, que lhe permitia armazenar uma quantidade incrível de informação relativa a nomes e relações pessoais, algo muito útil no trato com os outros. Adriano Pereira revela, a este propósito, que, no Porto, «quando o levámos à última morada, era aquele mar de gente, e um sacerdote disse - e eu concordei: “Devem ser muito poucas as pessoas que estão aqui que o doutor não conhecia pelo nome!”».

António Francisco era também um homem inteligente e analítico, de grande cultura e sabedoria, ao mesmo tempo que «era um rapaz de uma riqueza interior invulgar, com uma presença muito forte, que transmitia segurança, serenidade, muita confiança», diz José Guedes. «E era humilde. Tinha dificuldade em tomar algumas decisões porque se achava sempre incapaz de assumir novos cargos, mas surpreendia-nos invariavelmente com os resultados». 

Porém, a humildade não o colocava num lugar de subserviência perante os outros, especialmente os de craveira intelectual. «Conheci outros essencialmente tímidos. Mas ele, não. A todos respeitava, de igual para igual, e os outros também o respeitavam», acrescenta. 

Adriano Cardoso diz que D. António não fazia distinções no trato, mesmo com quem sabia dedicar-lhe menor simpatia. Lidava com todos da mesma maneira: dava acolhimento, era afectuoso, «e as pessoas só se fossem pedras é que resistiam. Isto no António não era táctica, era virtude, porque era um homem genuíno em todos os aspectos, sem segundas intenções. Queria ser para as pessoas».

O padre José Guedes​ assegura: «nunca ouviu D. António dizer mal fosse de quem fosse. Nunca teve uma atitude em que o sentisse bravo». Nem a brincar, quando os amigos o picavam com o futebol, o faziam perder a serenidade. Era do Futebol Clube do Porto. Foi membro do Conselho Consultivo da SAD portista e, em 2015, recebeu o Dragão de Honra. Orlando Lourenço, administrador das caves Raposeira, amigo íntimo de longa data de António Francisco, revela, contudo, que «se o Cinfães viesse jogar a Lamego, ele estava no campo de futebol a assistir. E era do Cinfães. O resto dos dias era do FCP».

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Orlando Lourenço recorda: «Tinha sempre tempo para os outros, mas muito pouco para ele próprio»​

Sofria, claro. Por vezes, muito. Mas não por causa da bola. Os amigos, conta o padre Guedes, foram testemunhas frequentes. «Passámos com ele algumas horas de agonia, mas nunca teve outro sentimento que não fosse o de perguntar ao Senhor: “O que é que me queres?”». 

«Quando sentia algum queixume ou alguma apreensão nos amigos, queria estar sempre lá, presente, para dar apoio, e isso é do mais importante que há», refere Orlando Lourenço. «Tinha sempre tempo para os outros, mas muito pouco para ele próprio. Foi isso que o matou!», acrescenta, num lamento.  

José Guedes soma ainda que «o António dormia muito pouco. Dizia a todas as pessoas que sim, mas com a certeza de que ia cumprir, custasse o que custasse. Podia trazer-lhe muita dificuldade, muita luta, muito pouco sono, mas era com a certeza de que o ia fazer». 
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