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1 julho 2017
Texto de Carlos Enes Fotografia de Miguel Perestrelo Fotografia de Miguel Perestrelo Texto de Carlos Enes
O milagre de Manchester

​​​​​​​​​​Luísa sentiu os pais, já falecidos, manifestarem-se no hospital.

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​Em Julho de 2002, a morte do pai, o cirurgião João Maurício, apanhou Luísa com 21 anos, a seguir-lhe os passos na Faculdade de Medicina de Lisboa. Tinha concluído o 5.º ano, ainda era saudável e feliz. 

– Parte de mim foi embora nesse dia.

A mãe morreu há três anos. Luísa já era médica, surda profunda e várias vezes sobrevivente dos impiedosos ataques da neurofibromatose tipo 2. 

– Foi uma pancada muito grande. Quando a minha Mãe faleceu, apeteceu me ir junto com ela. 

Maria Batista não era só a mãe, mas a melhor amiga e o modelo da filha. 

– A mulher mais linda, uma guerreira.

Voltou a sentir-se mal, estava cheia de tumores no cérebro. Só que, desta vez, não sentia o ânimo de sempre para lutar contra o destino. 

Aconteceu o ânimo atravessar-se-lhe no caminho. Marta Amorim, médica geneticista do mesmo curso que ela (1998 – 2004), empurrou-a para a vida. 

– Não, não e não. Luísa, vamos tentar tudo.

Levou-a para o Hospital Universitário de Manchester. Os médicos ingleses deram-lhe um mês de vida.

– Você sabe que vai morrer, devido à hipertensão craniana.

A casa em que Maria Batista vivia foi arrendada por Ana Andrade, uma mulher até aí desconhecida, com a particularidade de ter um filho surdo. 

– Tem um coração tão bom que foi comigo para Inglaterra. 

Luísa Abreu dos Santos teve de assinar um termo de responsabilidade onde constavam, entre outros, o risco de morte e o risco de ficar em estado vegetativo. A cirurgia, pioneira, demorou 16 horas. Os tumores são removidos, mas é necessário recolocar o cérebro no espaço libertado no crânio. Esse processo torna altamente provável a ocorrência de um acidente vascular cerebral hemorrágico.

– Acordei a falar inglês. 

Luísa recebeu um auditory brainstem implant, um ouvido biónico. Ao contrário do que acontecera anos antes, nos Estados Unidos, desta vez o aparelho funcionou.

– Foi um milagre puro. 

No entanto, o período pós-operatório foi terrível. A cirurgia afectou-lhe gravemente a faringe, não conseguia deglutir. Luísa ficou vários dias numa unidade de cuidados intensivos, alimentada por uma sonda nasogástrica. Sofreu com uma pneumonia de aspiração, infecção pulmonar causada pela inalação de secreções da boca ou do estômago. Davam-lhe banhos no leito, com compressas.

– Uma pessoa chega ao fundo do poço.

No dia em que a passaram para uma enfermaria com três outras doentes, sentiu um desejo profundo de desistir. Começou então uma importante conversa com os pais em pensamento.

– Pai, mãe, o que estou a fazer aqui? Se querem mesmo que eu continue, então dai-me um sinal de que estão comigo.

No dia seguinte, a doente da cama ao lado compadeceu-se do aspecto dela. Estendeu-lhe um champô para cabelos secos. No rótulo, Batiste, nome da mãe. Na pulseira de internamento, a rapariga tinha gravado 9 de Abril, data de nascimento do pai.

 

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