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1 julho 2017
  Saúde
Texto de Carlos Enes Fotografia de Miguel Perestrelo Fotografia de Miguel Perestrelo Texto de Carlos Enes
A médica mágica

​​​​​​​​​​​​​​​A história de Luísa Abreu dos Santos não é deste mundo.

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A morte já por três vezes estrebuchou como um terramoto na cabeça de Luísa. O seu estrondo absoluto deixou-a surda e com um entorpecimento gravado no rosto. Das três vezes ela dançou em pontas, leve como um anjo. Ganhou um sorriso infinito e uma força de expressão única nas mãos. Sem falhar um passo, tirou Medicina e recebeu o poder de revelar aos doentes como a vida é mágica.

– Uma maravilha.
A vida é uma dádiva!

Aos 21 anos, a vida de Luísa, madeirense bonita, inteligente e de uma família nobre, era o sonho de qualquer rapariga. Aterrou em Lisboa directamente para o desfile de moda da semana académica. Coroaram-na rainha dos caloiros. Subiu ao palco e nunca mais passou de moda. Transmitia uma alegria contagiante, de noite e de dia, que arrastava toda a gente. Tanto cantava nas festas como animava os grupos de estudo. E dançava ballet.



– Sentia que tudo era possível. 
E que eu podia ajudar os outros. Tinha força para ajudar e conseguir as coisas todas.

Ajudar os outros é o brasão da família – a arma é a Medicina. Luísa é médica de terceira geração. O avô, João Maurício, com uma mão salvava vidas, com a outra matou a fome a muita gente. Fizeram-lhe uma estátua no Serrado da Cruz. O pai, também era João Maurício, de nome e na prática.

Todos o descrevem como um homem fascinante e raro. Cirurgião prestigiado, aplicava muita ciência à agricultura, outra grande paixão que tinha. Saía à rua em tronco nu e fazia-se ao mar sozinho, à pesca do mero e do bodião. Luísa era a princesa de uma dinastia de Joões Semana. No dia 26 de Julho de 2002, o pai morreu – e apanhou-a desprevenida para subir ao trono. Ergueram-lhe um memorial em frente à igreja do Paul do Mar.

– Foi um choque. O pai era o nosso chefe de família. De repente, a mãe teve de tomar conta de três filhos estudantes.

Na faculdade, Luísa aprendeu que um choque emocional é muitas vezes o trigger, o factor-pistola da doença. Na altura, ela ainda não sabia, mas seria o seu corpo a dar-lhe as maiores lições práticas. Começou a emagrecer, até aos 35 quilos. As amigas puseram a hipótese de estar anoréctica, mas ela comia bem. Talvez fosse uma depressão. Como, se a «formiga atómica» vivia numa aceleração quase voluptuosa com os livros? Foi o professor Eduardo Oliveira, num estágio de Medicina Interna, a chamar aquele fenómeno à razão e à ciência.

– Não, Luísa, a menina não é distraída. A menina é surda.

Foi tudo muito rápido. Exame de otorrino, TAC, ressonância magnética.

– Você tem vários tumores, que estão a provocar-lhe hipertensão craniana.

A cabeça da rapariga era uma bomba-relógio, que podia explodir a qualquer momento.

– Lembro-me de estar sozinha, no carro, e pensar: Qual é o próximo passo? Senti-me perdida.

A mãe e os irmãos vieram a Lisboa de urgência, fazer exames. Podiam ser também doentes de risco.

Descobriu-se que não. Ela era a primeira da família a sofrer de neurofibromatose tipo 2, uma doença genética rara, em que os tumores crescem como cogumelos. Ninguém arriscava operá-la, não há em Portugal casos suficientes para os médicos ganharem mão. O professor Ducla Soares conseguiu encaminhá-la para a House Ear Clinic, em Los Angeles. Foi operada de urgência. A cirurgia durou nove horas. Conheceu a morte naquela mesa de operações. Acordou amnésica, o cérebro fez «delete». Teve de reaprender tudo, até a andar. Mas voltou, para acabar o curso.



– Eu decidi: vou licenciar-me, com a ajuda da minha mãe. Ela era uma pessoa muito forte e eu queria dar-lhe alegrias. Queria dizer-lhe: «Mãe, isto não é só desgraças. Vou conseguir!».

Teve uma hemorragia durante o exame final, mas terminou o curso com uma das melhores notas da turma. Regressou à Madeira. Os tumores foram com ela. Cresceram muito – e rapidamente. Em menos de um ano, precisava de se submeter, com urgência, a nova cirurgia nos Estados Unidos.

As possibilidades de sobreviver eram escassas. Foi informada disso e aceitou o risco, com termo de responsabilidade. Antes de se meter no avião, casou.

– Ele gostava muito de mim – e eu dele. E eu sonhava com aquele vestido de noiva, queria viver tudo e dar uma festa.

Na mesa de operações, nova dança com a morte. Entrou em paragem cardiorrespiratória. Sentiu o pai entrar no quarto. Os médicos conseguiram agarrá-la à vida, mas não evitaram um golpe no nervo trigémio. Ficou com o lado direito da face paralisado. Logo ela, que era «um bocadinho vaidosa». Também regressou surda.

Como se não bastasse a doença, o amor tornou a manifestar-se de forma trágica. Luísa ficou grávida.  Grande alegria, que só durou 25 semanas. Foi forçada a abortar, o feto não era viável. O casamento veio abaixo naquela montanha russa. Divorciou-se. Aos 26 anos, tinha coleccionado uma mão cheia de lutos: pai, audição, aparência física, amor e maternidade. Só faltava um golpe: a mãe doente, com diagnóstico de leucemia. Pensou em desistir da carreira de Medicina.

– Não, filha. Tu não vais desistir.



As duas doentes, paredes meias com a morte, agarradas uma à outra, numa casa com uma vista deslumbrante para o Funchal. Luísa estudou como uma louca para tirar a especialidade de Medicina Geral e Familiar. Alargou a investigação a técnicas e terapias complementares, a fim de aliviar o sofrimento da mãe. Aprendeu reiki e bioterapia. No exame, dançou ballet em pontas: 19 valores, a melhor nota das sete candidatas. Com a mãe, não foi possível. Deixou à cabeceira da cama a última grama de egoísmo.

– Mãe, pode ir. Eu fico bem.

Onze meses depois, dançou com a morte pela terceira vez. No dia 8 de Junho de 2015, foi operada durante 16 horas no Hospital Universitário de Manchester. O mais provável era sofrer um acidente vascular cerebral hemorrágico, sem retorno possível. Não só se libertou dos tumores, como lhe implantaram um ouvido biónico.

– Funcionou! Foi um milagre.

Luísa tem a certeza de ter reencontrado os pais em Inglaterra. Disseram-lhe para prosseguir a missão da família.

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