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16 dezembro 2015
  Diabetes
Texto de Carina Machado Fotografia de Júlio Silva Fotografia de Júlio Silva Texto de Carina Machado
Farejando a diabetes

​​​​​​Maria e Belle. Uma menina de seis anos e uma cadela Labrador de oito meses. Juntas aprendem a conviver com a doença.

Do alto dos seus seis anos, Maria sublinha com um encolher de ombros sobranceiro a afirmação de que só por acaso ainda não dá autógrafos. Afinal, ela é quase uma estrela! Junto dela, Ana Bigio sorri como só as mães conseguem fazer, de lábios rasgados e olhos carregados de luz. A filha e Belle, uma cadela Labrador de oito meses, formam uma parceria com potencial de sucesso e que começa, de facto, a ser “famosa”  por  ser  a  primeira do género no país. É que Maria tem diabetes tipo 1 — também conhecida como a diabetes insulinodependente — e Belle está a ser treinada como cão de assistência, para detectar as oscilações glicémicas da menina.

Os primeiros sinais de que algo estranho se estaria a passar chegaram há dois anos: «uma perda de peso muito repentina, pouco condicente com a fome persistente, e a ingestão desmesurada de água, como se não houvesse amanhã!». Daí ao diagnóstico, diz Ana, foi um pulo. «Decidi nesse momento conhecer tudo o que possa ajudar a minha filha a controlar e viver melhor com a doença».

Foi numa das suas pesquisas que descobriu, nos Estados Unidos, os "medical dogs" (cães de assistência) treinados para, no âmbito da diabetes, alertarem os donos para as hipoglicemias, «o momento mais assustador nos doentes diabéticos». «Uma “hipo” — interrompe Maria, especialista versada na sua doença — é quando os valores do açúcar no sangue [glucose] estão muito baixos e eu tenho de comer uma pastilha». Mas não é uma pastilha normal. Trata-se de um concentrado de glucose pura. Se tivermos em conta que órgãos como o cérebro utilizam este monossacarídeo como fonte exclusiva de energia, percebe-se melhor a gravidade que a sua falta pode assumir.

Maria tem um arsenal sofisticado para lidar com a diabetes, a começar por uma bomba infusora — pequeno dispositivo que traz preso à cintura —, que lhe fornece a insulina necessária ao longo de todo o dia, através de um tubo e de uma cânula colocados sob a pele. Tem também um sistema de monitorização contínua da glicemia, que disponibiliza informação permanente sobre os níveis de concentração de glucose no sangue. Funciona com um eléctrodo, igualmente inserido na pele, e transmite as leituras para um monitor, em tudo semelhante a um relógio, que  a mãe traz no pulso e para o qual olha amiúde. 

«Mas nada é 100% fiável», lamenta Ana, explicando que mesmo a moderna medição contínua tem um ligeiro atraso face à realidade. «Por isso, quando me deparei com estes cães, convenci-me de que seriam mais uma ajuda a somar às restantes».

Ao entusiasmo, contudo, seguiu-se a apreensão: percebeu que no nosso país não havia ninguém habilitado para o treino de cães com esta valência. Resolveu, então, comprar um animal já treinado nos Estados Unidos e, paralelamente, decidiu ela própria trazer as técnicas para Portugal. «Contei com a ajuda do Rui Elvas e da Isa, amigos meus que já faziam treino de obediência e se mostraram interessados no conceito». Depressa se tornou evidente que era preciso começar a educar as mentalidades para a existência destes animais. Nasceu assim, há pouco mais de um ano, a Associação Portuguesa de Cães de Assistência, organização sem fins lucrativos de que Ana é vice-presidente. É a única entidade no país a certificar cães no apoio a pessoas com deficiência sensorial e orgânica, como são os casos do autismo, da epilepsia, da diabetes ou das várias deficiências motoras.

Belle surge na vida de Maria quando a mãe resolve aplicar os conhecimentos adquiridos nas inúmeras formações feitas no exterior, treinando  um cão. «Fui eu que pus o nome aos meus cães! Tenho três: a Belle, a Tufas e o Twister. Mais o Benjamin, que está na casa do meu tio, mas é meu, só o emprestei!», dispara Maria, na mais perfeita pronúncia inglesa.

Benjamin, ou mais informalmente Benji, é o nome do Labradoodle (uma mistura das raças Labrador e Poodle) que veio dos Estados Unidos. «Um cão muito bem treinado em  termos comportamentais e que poderia perfeitamente ser um cão guia, mas nada mais além disso», revela Ana. Uma desilusão que a leva a insistir que estes animais não devem ser olhados como um milagre. Não são máquinas, «são só mais uma ferramenta, e quantas mais tivermos, melhor». Com uma piscadela de olho, avançamos junto de Maria a hipótese de Benji, o cão norte-americano, não entender português. «I talk with my dog in english!» [Falo com o meu cão em inglês], riposta. Toma lá!

Por ora, a cadela Labrador Belle dá mostras de responder positivamente ao treino diário, em que lhe são dadas a farejar amostras de saliva da menina em hipoglicemia. «Quando estou a entrar em “hipo”, a minha cadela salta para cima de mim e lambe-me e depois vai avisar a minha mãe. Mas quando os valores são muito altos, ela foge logo para a minha mãe!». Ana confirma, comentando como é curioso que o alerta para as hiperglicemias é algo que a cadela faz de modo espontâneo desde bebé.

Belle vai agora entrar na última fase de treino, em que lhe é pedido que seja capaz de se abstrair de tudo para se focar unicamente naquele odor. Seguir-se-á o trabalho de obediência e comportamento. Apesar dos bons indícios, nada é dado por garantido. Só uma coisa está já assegurada por Maria: «I love my dog!» [Adoro o meu cão]​.
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