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14 abril 2016
  Diabetes
Texto de Sónia Balasteiro e Rita Leça Fotografia de Céu Guarda e João Pedro Marnoto Fotografia de Céu Guarda e João Pedro Marnoto Texto de Sónia Balasteiro e Rita Leça
Vamos travar a diabetes

​​​​A ARS do Centro chamou as farmácias a um projecto de avaliação do risco de diabetes tipo 2. Um quarto dos sete mil utentes testados revelaram risco elevado de vir a sofrer da doença. O resultado levou muitos ao médico e a mudar de vida. Reportagem em três das 225 farmácias participantes.​

Capela Daniel, médico de família há 30 anos na Tábua, sempre teve «uma relação privilegiada» com os profissionais das farmácias da zona. Mas acredita que o estudo-piloto sobre a diabetes, realizado em Novembro por 225 farmácias da zona Centro, é um passo fundamental para fomentar «sinergias de esforços e a aproximação entre médicos e farmacêuticos», em benefício do utente. Afinal, «Estamos todos no mesmo barco!», nota.

Realizada em parceria entre a Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, a Associação Nacional das Farmácias e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, a “Avaliação do Risco de Diabetes Tipo 2” permitiu perceber junto de 24% dos 7.007 inquiridos nas farmácias um risco alto ou muito alto de desenvolver diabetes na próxima década.

A dimensão da doença é tremenda e comporta um peso substancial para o Serviço Nacional de Saúde, atingindo 1% do PIB. A cada sete segundos, uma pessoa morre devido à diabetes. Daí que este rastreio seja fundamental para a sua «prevenção», sublinha Capela Daniel, coordenador para a diabetes na região do Pinhal.

«A prevenção desta epidemia necessita de todos os intervenientes», sustenta, por seu lado, Margarida Bastos, coordenadora do grupo do Programa Nacional para a Diabetes do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e uma das principais precursoras desta iniciativa.

Para chegar à população, foram ainda envolvidas outras entidades, como os ACES do Baixo Mondego e Pinhal Interior, a Câmara Municipal de Coimbra, a Escola Superior de Educação, a Escola Superior de Enfermagem, a Escola Superior de Tecnologias da Saúde, entre outras.

No que diz respeito à acção, «as medidas são fundamentalmente educacionais, com vista à modificação de comportamentos». Promove-se, principalmente, «uma alimentação equilibrada, a prática de exercício adaptado a cada pessoa e a correcção de outros factores de risco, como, por exemplo, a hipertensão arterial e o excesso de peso», enumera Margarida Bastos.

Aos 46 anos, Rosa Silva, utente da Farmácia Molelos, perto de Tondela, foi uma das pessoas que beneficiou do rastreio, iniciado a 14 de Novembro, Dia Mundial da Diabetes, e que terminou duas semanas depois, a 28. «Mudei de vida», conta. Desde que descobriu que tem risco moderado de desenvolver diabetes, passou a praticar «natação, ioga e a fazer caminhadas todos os dias». «Era muito preguiçosa, nunca tinha feito qualquer exercício. Mas percebi que era altura de começar».

Rosa ilustra bem a realidade desta região do país. Através do estudo, concluiu-se que mais de metade dos utentes avaliados não pratica qualquer actividade física diária.

A média de idades dos rastreados é de 60 anos e a maioria do sexo feminino. Outro dado importante que o estudo revelou foi que 43% dos inquiridos tem, pelo menos, um familiar a quem já foi diagnosticado diabetes.

«Durante o rastreio, houve uma grande adesão da população, o que demonstra a apetência pela informação em saúde», destaca Margarida Bastos, mostrando preocupação com o aumento deste problema. «Constatámos que na região Centro temos um número muito elevado de pessoas em risco de desenvolver diabetes tipo 2».

Um risco que também está associado à alimentação típica da zona, como conta Alda Pacheco, directora técnica da Farmácia Santos, em Ponte de Vagos, Aveiro.

«Aqui as pessoas ainda gostam de pratos bem temperados, com muito sal. Comem muito à noite, gostam de uma boa “pinguinha” [risos] e muitas ainda têm animais, ingerindo por isso mais gorduras».​

Levar a mudanças na alimentação é precisamente uma das maiores dificuldades que encontram os profissionais de saúde para prevenir esta doença. «Temos de investir em saúde. Mas as pessoas resistem a mudar hábitos de vida», lamenta Capela Daniel.


E não apenas nesta região. A verdade é que, segundo dados do Observatório da Diabetes, de 2015, cerca de 1.3 milhões de pessoas sofrem com esta doença em Portugal. Destes, «5,7%, ou seja, 443 mil pessoas não sabem sequer que a têm», alerta Hélder Ferreira da ARS Centro, médico de família e coordenador do Programa da Diabetes. «Esta é uma doença silenciosa e, por isso, as pessoas não ligam. Quando sentem os efeitos, já estão numa situação complicada. Fala-se muito em diabetes, mas não se sabe que mata, porque não se ouve dizer “Olha, morreu de diabetes”. Na verdade, morre-se das complicações ou de doenças agravadas pela diabetes».​​​

Hélder Ferreira foi responsável pela organização de várias acções de formação por toda a região, com a participação de diversos médicos, enfermeiros e farmacêuticos. «Foram duas semanas muito importantes para discutir a diabetes e esclarecer dúvidas», refere o responsável. «Permitiram juntar os diferentes profissionais de saúde e acabaram com alguns preconceitos. Temos de chegar aos locais sem informação. Para melhorar a saúde das pessoas é importante o estreitamento das relações entre todos os profissionais».

Para este médico, é no esclarecimento das populações que as farmácias têm um papel preponderante, «especialmente nas localidades mais pequenas». Além disso, sublinha a importância das farmácias na gestão da medicação. «Há grandes confusões na administração de medicamentos, em especial na população mais idosa».


Farmácia Molelos: Dar visibilidade aos contributos do sector

É uma farmácia familiar, onde quem entra é conhecido pelo nome. Situada numa freguesia rural, perto de Tondela, a Farmácia Molelos é parte integrante do dia-a-dia da população. Mesmo de quem não consegue visitá-la, pois se “Maomé não vai à montanha”… É que um dos serviços mais acarinhados é a entrega ao domicílio. Três dias por semana, há uma farmacêutica que leva os medicamentos aos lugares mais recônditos das serras circundantes, prestando um serviço social essencial.

Teresa Alves, 52 anos, é uma das utentes que visitam a farmácia com frequência. Soube do projecto de prevenção da diabetes numa dessas visitas e não hesitou. Os resultados dos testes que fez não foram satisfatórios: tem um risco moderado de desenvolver diabetes, sendo que faz parte de uma família com uma prevalência da doença bastante superior à média. «Do lado da minha mãe, todos são diabéticos», conta, revelando que decidiu, por isso, mudar de vida. «Passei a fazer caminhadas, bicicleta, hidroginástica».

Além do exercício físico, evita doces e procura fazer uma alimentação equilibrada. E continua a procurar a Farmácia Molelos para avaliar a situação.

Situada em ambiente rural, na Pedra da Vista, a farmácia sempre apostou em serviços como o aconselhamento, a entrega de medicamentos ao domicílio e a avaliação de parâmetros bioquímicos de saúde. Daí que os seus utentes tenham aderido sem reservas a participar no estudo. Em apenas uma semana, a Molelos realizou 300 inquéritos. «Destes, apenas 17,3% apresentaram um risco baixo de desenvolver diabetes», comenta, alarmada, a directora técnica da farmácia, Carla Soares, notando que cerca de 22% teve mesmo de ser encaminhados para o médico de família para passar a ser acompanhado, de forma a prevenir o desenvolvimento de complicações associadas à diabetes, como a retinopatia diabética ou o pé diabético.


«Muitos utentes alteraram os seus estilos de vida por causa dos resultados que obtiveram», congratula-se Carla Soares, sempre de sorriso aberto. Fala com a confiança e a tranquilidade que só têm as pessoas que fazem exactamente aquilo que nasceram para fazer, cumprindo o seu desígnio.

Outro resultado positivo que a farmacêutica antevê é o «início de uma articulação estreita entre farmacêuticos e os restantes profissionais de saúde». Esta relação, explica, «é uma mais-valia para todos, sobretudo para o utente». «Todos temos a ganhar com uma maior proximidade e com mais comunicação. Acredito que a Farmácia, e o papel que desempenha, pela maior proximidade com as pessoas, deve ser mais aproveitada pelo Serviço Nacional de Saúde», defende a farmacêutica. Até porque, existindo já este trabalho nas farmácias do país, «muitas vezes não é quantificado. Com um estudo desta dimensão, que poderia ser realizado no futuro por todo o país, os resultados tornam o nosso contributo na promoção da saúde mais visível. Poderá, assim ser mais valorizado pelos decisores políticos», espera.

Quando foi abordada pela ANF sobre o seu interesse em participar no estudo sobre a diabetes, em parceria com a Administração Regional de Saúde do Centro, Carla Soares não hesitou. «Sempre gostei de desafios», explica. «E pareceu-me uma iniciativa interessante e importante para a prevenção da diabetes». A doença não pára de ganhar terreno, com cada vez mais casos detectados em Portugal. E muitas pessoas desconhecem que a têm.

Rosa Silva, por exemplo, ainda não desenvolveu diabetes. Mas, aos 46 anos já sabe que tem um risco moderado de vir a ter a doença na próxima década. Por isso, passou a fazer exercício diário assim que soube dos seus resultados. Além da natação, do ioga e das caminhadas, também faz corridas quando é desafiada pelas colegas.

As mudanças que começou a fazer no seu estilo de vida diminuíram bastante o risco de vir a ter diabetes. Objectivo cumprido.


Farmácia Alva: O poder de escolher

Há momentos em que sabemos que chegou a hora de mudar de vida. Para Zulmira Marques, com ar saudável aos 57 anos, esse momento aconteceu em Novembro, numa visita à sua farmácia de sempre, a Alva, em Côja, perto de Coimbra.

Nesse dia respondeu a um inquérito cujos resultados indicaram um risco «um bocadinho alto» de desenvolver diabetes. Era preciso escolher um caminho, pelo que escolheu um diferente enquanto ainda estava nas suas mãos. Mudou os seus hábitos diários e agora «caminho muito. Adoro caminhar», conta, de sorriso aberto.

O exercício físico não foi a única mudança que introduziu na sua vida. «Não como fritos, evito os doces. E como mais hortaliças», enumera Zulmira, que confessa que já estava desconfiada da possibilidade de vir a desenvolver diabetes, devido ao facto de a sua mãe ter tido a doença. «Tenho predisposição genética, por isso é necessário ir acompanhando». Zulmira é uma das mais de 400 pessoas que aceitaram participar no inquérito sobre diabetes realizado na Farmácia Alva durante duas semanas do mês de Novembro do ano passado. Com uma forte intervenção na comunidade em que se insere, esta foi a farmácia da zona Centro com maior adesão ao estudo.

«Este trabalho foi integrado no dia-a-dia da farmácia», explica a responsável, Paula Dinis, que impulsionou o projecto e as iniciativas para o divulgar localmente.

«Formámos e motivámos a equipa e, para conseguir chega​r à população, além da montra alusiva à iniciativa, demos formação nas escolas do concelho sobre a prevenção da doença e entregámos balões, que simbolizam “todos unidos pela diabetes”, para tornar o tema mais visível», refere a farmacêutica.

Além disso, a propósito do Dia Mundial da Diabetes, os profissionais explicaram às crianças quais os cuidados para evitar a doença e ter uma vida mais saudável. «Quando chegam a casa, elas falam com os pais e podem ter uma influência muito positiva», espera Paula Dinis.


Com uma população-alvo idosa, com mais propensão para desenvolver a doença (a idade é um factor de risco), chamar a atenção para a patologia e permitir que «se inicie o tratamento numa fase mais precoce» poupa vidas e «diminui os custos do Serviço Nacional de Saúde causados pela diabetes», considera a responsável. Paula Dinis acredita, por isso, que este tipo de projectos ajuda a reconhecer a intervenção da Farmácia na prestação de cuidados de saúde primários.

«Somos uma porta aberta para a comunidade. As pessoas, antes de qualquer outra coisa, vêm aqui quando têm um problema de saúde», explica a farmacêutica.

A proximidade não se restringe aos utentes. Na Côja sempre existiu uma boa relação entre os profissionais da farmácia e os outros profissionais de saúde. Por isso, mais uma vez, sempre que os resultados do estudo apontaram para a existência de um risco alto ou muito alto de ter diabetes (em mais de 20% das situações), os utentes foram encaminhados para o seu médico de família.

É «fundamental que exista uma colaboração estreita entre todos os profissionais que têm a saúde dos utentes» nas suas mãos, conclui Paula Dinis.


Farmácia Santos: «Maioria não tinha noção da gravidade da diabetes»

Está situada na rua principal de Ponte de Vagos, Aveiro, mas encontra-se também no caminho mais directo para o coração das pessoas. Vão lá regularmente, muitas vezes só para conversar. «Estamos numa localidade pequena. Confiam muito em nós e pedem-nos conselhos. Às vezes, vêm apenas para falar um pouco, em especial as pessoas mais idosas», conta Alda Pacheco, directora técnica da Farmácia Santos. «De vez em quando, trazem-nos presentes, alimentos das suas quintas, por exemplo, e até peluches».

Talvez seja por isso que quando faz acções de esclarecimento, rastreios ou outras actividades dedicadas à saúde, a população de Ponte de Vagos facilmente participa, o que fez com que a Farmácia Santos fosse uma das que mais indivíduos rastreou no âmbito da iniciativa contra a diabetes, em Novembro último.

«A maioria não tinha noção da gravidade da doença», diz, por sua vez, a farmacêutica adjunta, Adélia Leitão, sublinhando assim a importância deste rastreio. «Muitos ficaram surpreendidos ao saber, por exemplo, que tendo a tensão arterial elevada, têm mais propensão para a doença».

Dar a conhecer a diabetes, as suas causas e consequências, assim como estimular hábitos alimentares saudáveis e a prática de desporto adaptável a cada pessoa foram as principais medidas que a equipa na farmácia implementou ao longo das duas semanas que durou a iniciativa. Mas não acabou aí. «Diariamente, fazemos as medições mais importantes a vários utentes e esclarecemos dúvidas».

Por isso, no período que durou o rastreio da diabetes, «toda a gente queria fazer. Até vieram pessoas que já estão medicadas reclamar: “Também queremos fazer o teste”», lembra Alda Pacheco, rindo.

Este é o resultado de um «trabalho intenso, com muito esforço e dedicação, para estreitar as relações com os nossos utentes», justifica Adélia Leitão.


Prova disso mesmo são os casos de Susana Cunha e Luís Marques, que, apesar de não pertencerem ao universo dos 7.007 utentes que participaram na iniciativa contra a diabetes na região Centro do país, também quiseram ser rastreados. Ambos têm antecedentes familiares e estilos de vida que justificam o resultado que obtiveram: risco moderado de desenvolver a doença nos próximos dez anos.

«Sou completamente viciada em açúcar», admite Susana Cunha, psicóloga de 42 anos. «Todos os dias comia bolos e chocolates. Cheguei a levantar-me durante a noite para comer uma colher de açúcar». Agora, tem de cumprir à risca os conselhos que receberam na farmácia. «Só tenho um dia em que posso abusar dos doces. É o meu dia do pecado», conta, rindo. Ao mesmo tempo, começou a pedalar na bicicleta fixa que tem em casa. «Comecei por fazer três quilómetros e ontem atingi os dez», revela, orgulhosa.

O motivo que orienta Susana Cunha surgiu de repente: «Na farmácia vão sempre contando coisas que acontecem e, um dia, deu-me o clique: se calhar pode acontecer-me».

Um “clique” semelhante ao que Luís Marques, comerciante de 44 anos, sentiu no dia em que se colocou em cima de uma balança e viu aparecer três dígitos. Recorreu à nutricionista que dá consultas na farmácia e, desde então, «tem sido sempre a emagrecer. Antes bebia paletes de Coca-Cola e, hoje, nem uma. Como mais legumes e fruta».

Certo é que, «muitas vezes, as pessoas preferem ir à farmácia do que ao médico», sublinha Adélia Leitão e, por isso, defende: «É preciso manter uma relação muito próxima entre todos, para benefício do utente».





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