Política de utilização de Cookies em Revista Saúda Este website utiliza cookies que asseguram funcionalidades para uma melhor navegação.
Ao continuar a navegar, está a concordar com a utilização de cookies e com os novos termos e condições de privacidade.
Aceitar
9 outubro 2018
Texto de Paulo Martins Texto de Paulo Martins Fotografia de Direitos Reservados Fotografia de Direitos Reservados

Odette Ferreira, a investigadora sem medo

​​​​​​​Foi mentora do programa de troca de seringas implementado em Portugal em 1993.

Tags
Docente universitária, investigadora de primeira água, mas sempre farmacêutica – a classe profissional a que se orgulhava de pertencer. Maria Odette Santos-Ferreira, que morreu este domingo aos 93 anos, não chegou a cumpriu o sonho, a que tantas vezes aludiu, de ver as farmácias convertidas em primeiros centros de cuidados de saúde primários. Porém, o seu legado perdurará, extravasando as fronteiras do universo farmacêutico. Graças a uma enorme determinação. «Uma obra não é o que se faz, é o que se deixa. O que fica para quem, depois de nós, continua o caminho»: eis o seu lema de vida, tornado público quando recebeu o prémio Universidade de Lisboa 2006.
Nascida em Lisboa, em 1925, Odette Ferreira licenciou-se em Ciências Farmacêuticas em 1970, pela Universidade de Lisboa. Doutorada pela francesa Paris Sud, ascendeu a professora catedrática de Microbiologia em 1987. Membro do Conselho Pedagógico e, entre 1979 e 1981, do Conselho Directivo – seria a primeira mulher a presidir ao órgão – sempre se bateu por uma escola capaz de conciliar o ensino com a investigação.

A identificação, em 1986, do VIH tipo 2 constitui o seu mais importante contributo para o conhecimento científico. Tratou-se de um processo iniciado no Instituto Pasteur de Paris – onde trabalhou com os virologistas Luc Montaigner e Françoise Barré-Sinoussi, futuros prémios Nobel da Medicina – que passaria pelo Hospital de Egas Moniz, em Lisboa. Um grupo luso-francês, integrando Odette Ferreira, aqueles dois cientistas e os médicos José Luís Champalimaud e Kamal Mansinho, assinou em conjunto o artigo na revista Science que revelou a verdadeira revolução no campo da pesquisa sobre a sida.

A partir da década de 80, concentrou a actividade no estudo da infecção pelo VIH/sida. Foi nesse quadro que se expandiu a Unidade de Retrovírus e Infecções Associadas, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, hoje uma unidade de referência. Num tempo em que pouco se sabia sobre a doença, sobravam receios. «Havia quem mudasse de passeio só para não se cruzar comigo. Na faculdade, o director não queria que eu trabalhasse, com medo que eu infectasse alguém. As pessoas achavam que se transmitia com um aperto de mão», lembrou, na obra biográfica “Uma luta, uma vida – Nem precisava de tanto”, da autoria de Sandra Nobre, editado em 2014.

Mal assumiu, gratuitamente, as funções de presidente da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida, que ocupou entre 1992 e 2000, concebeu o programa “Diz Não a uma Seringa em Segunda Mão”. Resultante de uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Associação Nacional das Farmácias, o programa, desenvolvido em 1993, visava diminuir o risco de transmissão do VIH, tendo como público-alvo consumidores de drogas injectáveis – o grupo de risco mais vulnerável – para evitar a partilha ou reutilização de seringas e agulhas, e reduzir o tempo de circulação.

Avançou com a mesma determinação com que, uma década antes, partiu para Paris, deixando a família atrás, com o objectivo de consolidar a carreira. «Não era possível parar aquela ‘automotora’!», recordou João Cordeiro, então presidente da ANF, no livro “Uma história das farmácias”, de 2015. De facto, para vencer resistências, até de farmacêuticos, não se inibiu de ir para o terreno, mesmo os chamados bairros problemáticos. «Queria demonstrar à comunidade que ser farmacêutico não é só estar à máquina registadora e vender o medicamento», afirmou.

O esforço foi reconhecido. A Comissão Europeia considerou o programa o melhor apresentado neste domínio por um Estado-Membro. Um estudo do Centro das Taipas imputou-lhe a diminuição acentuada do número de novos casos de seropositividade. O Relatório Mundial sobre Drogas 2010, das Nações Unidas, confirmou a sua eficácia, apontando Portugal como um dos países mais bem-sucedidos na troca de seringas por utilizadores de drogas injectáveis.

Distinguida, em 2008, com as Insígnias da ANF, Odette Ferreira foi alvo de diversas homenagens. O Estado francês condecorou-a com o Chevalier dans l’Ordre des Palmes Académiques (1975) e o Chevalier de l'Ordre National de la Légion d’Honneur (1987); o Estado português fê-lo também, com o grau de comendadora da Ordem Militar de Santiago de Espada (1988) e a grã-cruz da Ordem da Instrução Pública (2018). Recebeu ainda a Medalha de Honra da Universidade Complutense de Madrid (1995), o prémio Universidade de Lisboa 2006 e a Medalha de Mérito do Governo português (2016). A Ordem dos Farmacêuticos, que criou em 2010 um prémio de investigação científica com o seu nome, atribuiu-lhe a Medalha de Honra (1989) e a Medalha de Ouro (2012).

Viveu muito – e bem consigo própria. «Eu não tenho idade, tenho vida», respondeu quando questionada acerca da idade, no decurso de uma entrevista à revista Farmácia Portuguesa, em 2015.
Notícias relacionadas