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28 março 2017
Texto de Maria Jorge Costa Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Maria Jorge Costa
«O credo do mercado substituiu os valores»
​​​​​​​Entrevista sobre política internacional. Educação em Portugal e a casa de família.​
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Farmácia Portuguesa #219 Entrevista Capa
​Revista Farmácia Portuguesa: Não o entristece haver poucas vozes pensantes nas novas gerações?
Adriano Moreira: Não é tristeza, é preocupação com o futuro. A minha geração sofreu e viveu duas grandes guerras e decidiu unir-se em torno de um movimento de esperança global, traduzido na criação das da Organização das Nações Unidas (ONU). A Carta das Nações Unidas foi escrita apenas por ocidentais, mas incorpora dois princípios: um mundo único, sem conflitos armados, e a Terra enquanto casa de todos os homens, onde a paz e a cooperação são as bases do desenvolvimento sustentado. Esse momento representa o melhor de uma geração. Foi um belo exemplo das lideranças: todos os primeiros-ministros à altura passaram e sofreram com a Segunda Grande Guerra. França, Alemanha, Itália... A segunda guerra foi terrível em destruições. Recordo-me do título do jornal francês “Le Combat”: “Esta alegria coberta de lágrimas, o dia da paz”… Estes homens podiam ter sido animados de um espírito de retaliação contra a Alemanha, mas fizeram o oposto: quiseram organizar um mundo onde nunca mais voltasse a acontecer a guerra.

RFP: O sonho desfez-se?
AM: Tudo foi desabando. Os conflitos armados hoje são de outra proporção e natureza. Neste momento é difícil estabelecer categorias de combate, porque a evolução técnica permite ao fraco vencer o forte, como se viu com o derrube das torres gémeas. O avanço técnico que experimentámos é extraordinário, ultrapassou muitos dos conceitos em que tínhamos acreditado. E a ideia do mundo único, em vez de avançar, parece regredir. A fronteira sagrada da igualdade das pessoas, independentemente da raça, crença ou condição social, a actividade humana como princípio fundamental… tudo isso sofreu modificações tremendas, que se traduzem, por exemplo, no aumento da área e do número dos deserdados. A Terra, casa de todos os homens, não parece recebê-los em pé de igualdade. O princípio da igualdade foi substituído pelo primado da organização técnica. Nesta grande crise económica e financeira, sabemos que há centros de decisão cuja estrutura e poder desconhecemos. A nossa vida caracteriza-se por esperanças que se vão deteriorado. Pensávamos ter, finalmente, encontrado um caminho para a unidade europeia, mas o que temos neste momento é uma sementeira de dúvidas. Do ponto de vista da União Europeia, aquilo que já foi feito corre o risco de ser corroído pela dúvida.

RFP: Está a falar do ponto de vista dos fundadores?
AM: Esses fundadores eram animados de um espírito consensual. Sustentaram o projecto europeu num conjunto de valores: o credo dos valores. Mas agora vigora o credo do mercado.

RFP: Deixou de haver quem faça reflexão para além do imediato do mercado?
AM: O problema é que não há acontecimentos importantes na nossa evolução em que no princípio não esteja o verbo. E isso faz muita falta. Apareceram vozes não europeias, muito incorporadas num certo conceito de santidade, como Ghandi e Nelson Mandela. Ghandi, como sabe, teve uma vida de sacrifício enorme e foi assassinado por sustentar valores em que os adversários não acreditavam. Mandela considero uma evolução ainda mais extraordinária, porque era de uma família nobre, formado em Direito, começou por ser revolucionário, passou a maior parte da vida na cadeia, e quando saiu disse: «Somos todos sul-africanos!». Não distinguiu pretos, brancos, mestiços, indianos, europeus... eram todos sul-africanos. Chegamos a este ano da graça de Deus e essa geração não teve descendentes.

RFP: O que falhou? 
AM: Acho que foi o credo do mercado ter substituído o credo dos valores. Mas não vale a pena falar muito do que se está a passar. Eu tinha um professor que quando se tratava de coisas desagradáveis, dizia: «Não falem nisso, porque não adianta». 

RFP: Não é importante falar da eleição de Donald Trump?
AM: Não é bem isso. Não creio que seja preciso agravar o estado de espírito das pessoas falando do que está a acontecer nos Estados Unidos da América ou nas consequências para a solidariedade atlântica, porque não podemos adivinhar os desenvolvimentos. Já me interessa falar do movimento das pequenas pátrias na Europa, como os casos de Espanha e Inglaterra, por exemplo, em que o crescimento dos deserdados é também consequência do avanço da técnica: precisa de gente altamente qualificada, mas menos gente... É preciso olhar para isso com atenção, até porque os estados se sentem incapazes de organizar uma resposta social à altura. O problema mundializou-se e é preciso encontrar soluções que correspondam aos tais dois princípios que resumem o sonho das Nações Unidas: o mundo único e a Terra enquanto casa comum dos homens. Estes princípios precisam de uma grande reconstrução. Neste momento são dois edifícios em ruínas, o que é altamente preocupante.



RFP: O medo toma conta das pessoas e isso bloqueia a capacidade de reconstrução.
AM: A sociedade civil precisa de lideranças e elas escasseiam. Os protagonistas de hoje não conviveram com a geração daqueles homens animados de princípios elevados: o amor ao próximo, a igualdade, a dignidade dos homens, o convencimento de que cada pessoa é um fenómeno que não se repete na história da humanidade e é isso que exprime o seu valor único, portanto, a sua dignidade. No pós-guerra travou-se um grande combate a que, por vezes, se chama Património Comum da Humanidade: a luta contra os preconceitos raciais. O Nazismo tinha sido orientado por preconceitos raciais tremendos, mas o preconceito racial abrangia também os negros, os mestiços… 

RFP: E o racismo ressurge.
AM: Neste momento, o preconceito anti-islamismo está a crescer. Isso pode enfraquecer o princípio da Comunidade Europeia e já está a ter consequências. Está, como vemos todos os dias, a perturbar o “ideal americano”. Os EUA, um país que vivia no alto da colina, atravessa uma enorme crise de valores, de direcção, de gestão, de respeito pela divisão de poderes, etc. Tudo isso são desafios que têm de ser superados.

RFP: Era previsível que se chegasse a este ponto?
AM: Não, não há nenhuma ciência social que possa afirmar haver caminhos únicos. Trabalhamos sempre com este risco, o imprevisto está à espera de uma oportunidade.

RFP: O imprevisto pode acontecer, também, na Europa?
AM: No Globo. É importante ter presente que os grandes conflitos, mesmo militares, começaram por incidentes sem importância. Por exemplo, a guerra de 14-18 começou porque mataram um príncipe, que é uma coisa que através dos séculos aconteceu outras vezes. A morte de um príncipe custou-nos 14 milhões de vidas. A Segunda Guerra Mundial começou depois de uma eleição democrática [Hitler disputou e ganhou as eleições]. Custou 50 milhões de mortes. Nunca sabemos em que momento é que aparece o tal imprevisto, que está à espera de uma oportunidade. Há um escritor que influenciou muito a minha juventude, o Popper. Disse ele: «Está sempre a oportunidade aberta a que apareça um cisne negro que impeça os poetas de dizer “todos os cisnes são brancos”». É como estamos neste momento. 

RFP: Mas há esperança?
AM: Bom, nós já tivemos crises, talvez não tão grandes, porque hoje são globais. Do ponto de vista católico, para cada um de nós a esperança acaba com a morte. Por isso, a esperança é importante. Discute-se muito se as religiões vão voltar a ter um papel animador dessa esperança e eu acho que ele faz falta. Houve um secretário-geral das Nações Unidas, Dag Hammarskjöld – que se pensa ter sido assassinado – que mandou fazer uma sala despida. Só com bancos de madeira à volta e uma pedra translúcida a servir de altar, com uma luz que vinha do tecto e atravessava a pedra. Chamava-se “sala de meditação para todas as religiões”. Não era muito frequentada, porque as Nações Unidas foram, como disse, organizadas por ocidentais e as novas culturas constituíam uma novidade.



RFP: Esta crise é mais grave por causa da globalização dos problemas?
AM: Não é tanto isso. A mundialização deveria ter atenuado os atritos e as diferenças. Em tempos escrevi um texto, “O verbo eu, que substituiu o verbo nós”. Essa substituição é exactamente o contrário do globalismo, porque o globalismo implica – a meu ver – conseguir estas coisas, que são fáceis de enunciar, mas difíceis de efectivar: é preciso substituir a tolerância, conceito utilizado pelos regimes coloniais, pelo respeito; em segundo lugar, quando os interesses se chocam, é necessário cada lado ceder para salvaguardar o essencial; é preciso reconhecer que o pluralismo cultural não implica não partilhar valores comuns. As Nações Unidas só o podem ser pela partilha de valores comuns. É preciso pô-los em evidência, mas sobretudo é preciso hierarquizá-los. Este trabalho tem sido tentado por alguns homens que pareceram tocados pela santidade, mas, aparentemente, Deus neste momento interrompeu essa evolução. 

RFP: “Futuro com memória” [um dos seus livros mais recentes]. É disto que está a falar? Para termos futuro tem de se deixar alguma coisa consolidada? 
AM: Exactamente! O culto da memória é muitas vezes conotado como reaccionário. O García Moreno explicou isso: «Cada pessoa está dependente, na sua evolução, da circunstância». Não é a mesma coisa nascer francês ou nascer na Guiné. A Europa tem evoluído como se não tivesse circunstância: é a época das décimas, das contas. Com o desafio das migrações descontroladas e o turbilhão sobre muçulmanos, a Europa continua a discutir as décimas. A Inglaterra decidiu sair da União e leva com ela o maior exército e a maior esquadra europeia, mas estamos a discutir as décimas. Enquanto isso, o presidente dos EUA exige – parece que desconhece o verbo “pedir” – que os países da Aliança Atlântica paguem o que se comprometeram para as despesas da NATO. É inteiramente justo, mas “não se pode fazer nada com o impossível”. Portugal, por exemplo, paga, mas não paga o previsto. Esta atitude do presidente dos EUA confunde a necessidade de segurança com a obrigação de ter recursos. Efectivamente, pode renunciar-se à segurança por falta de recursos e foi isso que nos aconteceu. Achámos que podíamos viver com o credo económico sem prestar atenção ao credo dos valores. E isso vai-se traduzir em quê? Insegurança e as consequências da insegurança. Também em Portugal devíamos pensar em não deixar desaparecer o amor à história passada do país, e o Ensino tem-se afastado disso, as humanidades têm sido secundarizadas. Estamos numa crise de desemprego extraordinária e para isso contribuiu a descolonização, porque se perdeu o domínio das matérias-primas, das energias renováveis, o poder tremendo de fixar o preço do trabalho... Isto contribui para o desemprego, mas não é causa única, evidentemente. A descolonização portuguesa é, antes de mais, a descolonização do império euro-mundista. A frente marítima europeia tinha colónias. O único país que conseguiu construir uma coisa chamada Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi Portugal. Faz parte da circunstância. Todos os países de língua portuguesa são marítimos, todos têm direito à plataforma continental. A nossa é a maior do mundo. Se for reconhecida. 

RFP: Tem de haver agentes políticos que acreditem.
AM: Para acreditar é preciso que alguém lhes lembre. A maior ameaça do projecto europeu é a circunstância. Vamos ver o que acontece este ano, com as várias eleições na Europa. Vamos ver o que acontece à relação entre Europa e populismo, para usar a expressão agora em voga. 



RFP: Falou da importância da Educação na criação e na transmissão de valores. Como vê o Ensino em Portugal?
AM: Temos cada vez mais gente altamente qualificada que se vai embora. Precisamos pensar nisto a fundo. Não podemos desperdiçar talentos que emigram e enriquecem o nome de Portugal no estrangeiro. É necessário encontrar um espaço de feliz utilização para cada um dos portugueses qualificados. Temos estabelecimentos de investigação e de ensino para outros graus, de grande qualidade. Mas é necessário nunca esquecer que no princípio está o verbo: as humanidades não podem ser secundarizadas.

RFP: Esta participação que vai fazer no Movimento Esperança, tem a ver com isso?
AM: É o caso. As pessoas estão dispostas a ir a debates das suas especialidades e a corresponder a desafios.

RFP: Isso é bom sinal.
AM: É. E o que eu tenho para dizer acerca da sua pergunta sobre a importância do título do livro é que sem passado não se pode prever o futuro. É um prejuízo grande a perda de importância das humanidades no Ensino.

RFP: A saúde é uma área muito importante.
AM: É uma das situações mais graves na decadência do Estado Social.

RFP: Temos garantido que qualquer cidadão, com ou sem recursos, é tratado. Isso é um pilar da Europa.
AM: E fundamental. Mas não há dúvida nenhuma de que a evolução leva a não termos recursos suficientes. E eu muitas vezes ouço essa resposta e pergunto sempre: “Já faltam recursos. Mantêm os princípios?”. Acredito que, com imaginação, encontraremos o equilíbrio. Mas é um dos problemas severos actuais e que aumenta muito a situação dos deserdados.

RFP: Os deserdados sentem mais?
AM: São os que sentem mais. Há um estudo que tem este título: “Os pobres morrem mais cedo”. Vamos evitar isso.



RFP: A maioria das pessoas na sua idade… Tem 95?
AM: Tenho 94, vou fazer 95. Faz favor de não ter tanta pressa!

RFP: A maioria das pessoas na sua idade faz o que quer. É o caso?
AM: É. Exactamente.

RFP: Quando tem tempo livre o que gosta de fazer?
AM: Ocupo-me de seis filhos, 14 netos, mais os que são casados e os namorados que já começam a aparecer. Já me lembrei que é preciso arranjar um instituto ou uma junta de freguesia para ter espaço para tanta gente. Mas são uma imensa felicidade. 

RFP: Tem a casa sempre cheia?
AM: Sempre. E gosto imenso. Gosto que eles tenham vontade de estar comigo. Alguns para me interrogar, porque são bons estudantes, querem saber coisas, e eu ocupo-me disso. Ainda ontem estivemos todos juntos numa cerimónia religiosa por causa de uma saudade que temos. Estavam todos. Tem de haver sempre o que disse no começo: respeito. Não é tolerância. É preciso que cada ser humano seja respeitado na sua dignidade e liberdade das opções que toma. E, se fizer isso, mantém a solidariedade e a dignidade das pessoas. Espero ter sempre aplicado isto, de uma maneira suave...

RFP: Espera ter passado esses valores à família?
AM: É verdade. Mas também foi importantíssima a mãe.



​RFP: Vou terminar com um cliché: o que lhe falta fazer?
AM: Eu chego ao fim da vida e penso: o que é que eu devia ter feito e não fiz? Porque a herança talvez pudesse ser melhor para a geração a seguir. Devemos, com humildade, aceitar isso.

RFP: Como quer ser lembrado: como marido, pai, avô?
AM: Bom, isso tem que lhes perguntar a eles [risos]. Eu gosto que eles venham a recordar-se do avô.
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