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13 dezembro 2016
Texto de Maria Jorge Costa Fotografia de Céu Guarda Fotografia de Céu Guarda Texto de Maria Jorge Costa
Évora milenar
Para quem gosta de História, Évora é uma cidade de visita obrigatória. Fernando Miranda revela segredos e recantos menos conhecidos.

Évora ganhou maior protagonismo desde que, em 1986, foi classificada Património Mundial da UNESCO. Num passeio pelas ruas e praças, percebe-se a influência das várias civilizações na criação da malha urbana, sendo que, a cada passo, somos confrontados com o peso da antiguidade, desde os primórdios da humanidade.

Esta é uma cidade que a cada visita nos permite descobrir detalhes que passaram despercebidos num primeiro olhar. Por isso, largue o carro num dos parques fora das muralhas e aceite o desafio do nosso anfitrião, Fernando Miranda, para se embrenhar no centro histórico usando «o meio de transporte medieval: andar a pé. Não há melhor modo de conhecer os recantos e segredos escondidos de Évora, nem melhor forma de mergulhar em mais de dois milénios de História».

O farmacêutico veio viver para a cidade com nove anos. Aqui cresceu e estudou até ao final do liceu, no Colégio do Espírito Santo, onde hoje é a universidade. A vida académica e o arranque profissional levaram-no a outras terras, a norte do país. Regressou há 30 anos, para acompanhar os pais, e em 1988 comprou uma posição na Farmácia Mota, em plena Praça do Giraldo.

Diz-se «um turista dentro da cidade. E do que gosto mesmo é da parte histórica». Estudioso e curioso, não se imagina a viver noutro lado: a cidade oferece-lhe alimento permanente.


De facto, andar pelas ruas estreitas é tropeçar e influências romanas, árabes e visigodas, mas a presença do Homem por este território já se faz sentir há pelo menos 7000 anos, de acordo com os registos do período Neolítico que se podem observar no Circuito Megalítico (ver caixa). Os romanos baptizaram a cidade de Ebora Liberalitas Julia, mas há autores que acreditam que a origem do nome se deve a uma das tribos celtas que há 20 séculos se instalaram na região: os Eburones.

O nosso passeio começa precisamente na Praça do Giraldo, centro nevrálgico da cidade, de onde se avista resquícios da Cerca Velha, primeira muralha romana, erigida no séc. III.

A praça mandada construir no séc. XIV, era ladeada por arcadas dos dois lados. Actualmente sobra apenas uma delas, onde se situa a famosa Cervejaria Lusitana, Café Arcada, com uma arquitectura típica da Arte Nova.

O crescimento do perímetro urbano levou o rei D. Fernando (séc. XIV) a mandar construir uma nova muralha que abarcasse todo o casario e é por essa altura que nasce a Praça de Giraldo, que começou por ser um terreiro em que se realizava o mercado e onde se vendia e comprava de tudo, desde legumes a animais, ferramentas... Aos poucos, a então conhecida por Praça Grande foi ganhando estatuto de praça principal da cidade.

Num dos topos da praça situavam-se os Paços do Concelho (hoje sede da câmara municipal), no outro a Igreja de Santo Antão, erigida sobre as ruínas da ermida com o mesmo nome e que datava de 1271, no reinado de D. Afonso III. Também aqui se situava um pelourinho e a Casa de Ver o Peso, instituição que verificava se os pesos e medidas não eram falsificados.

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Évora ganhou importância política com a transferência das cortes. A família real mudava-se por longas temporadas para um dos passatempos favoritos do rei, as caçadas, e juntamente vinham nobres e fidalgos e, naturalmente, o clero. Por isso se construíram os Estáus da Coroa, a estalagem real que albergava os convidados do rei para as festas, torneios de cavaleiros (as justas) e touradas.

As ordens religiosas também fizeram sentir aqui, desde cedo, a sua importância. Só dentro do perímetro da Cerca Velha chegou a haver 24 conventos. Muitas destas instalações pertencem hoje ou à Universidade de Évora ou ao Ministério da Defesa, «o que salvou da ruína edifícios degradados», reconhece Fernando Miranda.

Caminhamos agora para uma das áreas mais nobres de Évora, tornada ex-líbris da cidade. Não há quem não tenha ouvido falar no Templo Romano, erroneamente atribuído a Diana. Era neste fórum, mandado construir no séc. I, que funcionava o espaço nobre dos romanos na administração da política e da justiça.

Com o declínio do Império Romano, a Europa foi ocupada pelos chamados “bárbaros”. Primeiro vieram os visigodos, mais tarde subjugados pelos árabes, que chegaram a terras lusas por volta do séc. VIII, onde permaneceram até à reconquista cristã, intensificada a partir do séc. XII com a formação do Reino de Portugal. Foi Giraldo, de seu cognome “Sem pavor”, que entregou a cidade ao rei D. Afonso Henriques, razão pela qual o seu nome foi atribuído à praça mais importante.

A construção da catedral, que se iniciou em 1186 e terminou entre os séculos XIII e XIV, constitui um marco importante do processo da reconquista cristã. É a maior do país e conjuga vários estilos arquitectónicos, influência dos diferentes tempos em que sofreu obras. Lá dentro é possível visitar o Tesouro da Sé, que inclui pinturas e joias em prata e ouro.

Entre as igrejas de visita obrigatória, Fernando Miranda regista a de S. Francisco, construída há 500 anos no local onde antes havia uma pequena igreja gótica. Nessa altura, o nosso país estava lançado nos Descobrimentos e a influência sobre o edifício é clara: à entrada podemos ver a esfera armilar, emblema do rei D. Manuel I. Era aqui que a família real assistia à missa quando estava em Évora, através de duas janelas à direita do altar.

De seguida, demoramo-nos mais na Igreja da Graça. Mandada construir em 1540, por ordem de D. João II, também aqui as marcas da expansão portuguesa se fazem sentir, neste que é considerado um dos mais importantes monumentos do Renascimento em Portugal. No topo da porta, quatro estátuas masculinas carregam, nas costas, as quatro partes do mundo por onde os portugueses andaram.

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2000 ANOS ANTES DE STONEHENGE
O recinto megalítico dos Almendres é o maior monumento megalítico da Península Ibérica e um dos mais antigos monumentos da humanidade. Foi construído há cerca de 7000 anos, no início do Neolítico, época em que surgiram na Europa ocidental as primeiras comunidades de pastores e agricultores. A escolha dos lugares em que estes monumentos foram erigidos teve seguramente em conta a estrutura física da paisagem, nomeadamente a rede hidrográfica, mas também os fenómenos astronómicos mais notórios, relacionados com os movimentos anuais do Sol e da Lua, no horizonte.

UNIVERSIDADE
Ao longo de séculos, o Ensino foi uma missão assumida pela Igreja e, durante muitos anos, os poucos indivíduos que, em Portugal, aspiravam a seguir estudos superiores tinham apenas duas opções: Coimbra ou Évora. A Universidade de Évora foi construída em 1551, por ordem do Cardeal D. Henrique, rei de Portugal entre 1578 e 1580. Manteve-se em funcionamento 200 anos, sendo depois encerrada. Só em 1979 viria a reabrir.
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