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Vigoréticos – os viciados em ginásio

Levamos uma vida sedentária. Para muitos de nós, esta afirmação provavelmente serve que nem uma luva. É o resultado das conquistas da vida moderna, que nos simplificou as tarefas ao ponto de muitas delas exigirem um esforço mínimo.

 

Os dias passam-se sentados no escritório, o maior dos convites à inação e à obesidade, um dos fenómenos mais preocupantes do mundo ocidental. O sedentarismo engorda-nos e torna-nos mais vulneráveis a doenças como as cardiovasculares, a diabetes ou a hipertensão.

É o conforto, a chamada qualidade de vida a retirar-nos saúde a essa mesma vida. Nomeadamente porque, em muitos casos, abdicamos do exercício físico e não damos ao nosso corpo a hipótese de gastar as calorias acumuladas.

Do ponto de vista individual, mas também social, há que arrepiar caminho, fugir da inação em busca do movimento que torne o nosso organismo mais resistente, mais flexível, mais saudável. Vale tudo (com bom senso, está claro!). Nem que seja apenas andar.

Duplicando a caminhada, duplica-se o lucro e aumentam-se as hipóteses de uma vida mais longa e com maior qualidade.

O exercício contribui para reduzir as doenças típicas do sedentarismo, já mencionadas, ajuda a controlar o peso, diminui as insónias e aumenta a resistência óssea e muscular. Aumenta também, a autonomia de quem já é afetado pelo passar do tempo. Além do mais, por libertação hormonal de endorfinas, proporciona uma sensação de bem-estar, reduzindo o stress e a ansiedade.

São tudo boas razões para praticar exercício. Caminhar, nadar, andar de bicicleta, praticar um desporto ou escolher um programa no ginásio. Tudo vale, desde que seja compatível com o estado geral da própria saúde. E desde que seja praticado com moderação.

Trata-se de ganhar qualidade de vida, não de ganhar as olimpíadas.

Existe quem desconheça a palavra moderação e viva de forma obcecada com a prática de exercício físico. São os viciados no ginásio. Pessoas que têm no espelho e na balança dois fiéis amigos, que lhes devolvem a imagem (e os quilos) de um verdadeiro Adónis. Aliás, chama-se mesmo complexo de Adónis ou vigorexia a esta disfunção.

 

Mas tudo o que é demais…

Foi o psiquiatra Harrison Pope, do Hospital McLean, nos Estados Unidos, quem identificou este distúrbio.

Esta desordem pode evoluir para um quadro obsessivo-compulsivo que os leve a sentir-se fracassados, a abandonar todas as atividades sociais, incluindo as laborais, para treinar sem descanso. Facilmente enveredam por dietas desequilibradas, ricas em proteínas, com o objetivo de desenvolver os músculos. E pouco a pouco começam a interessar-se pelos “benefícios” dos anabolizantes, pelas hormonas de crescimento e demais substâncias dopantes.

Embora ainda não seja reconhecida como doença, esta situação tem vindo a merecer cada vez mais atenção da comunidade científica. Entre a anorexia e a vigorexia existem diversas semelhanças: a preocupação pelo corpo ou ditadura da balança, uma autoimagem distorcida, baixa autoestima, alterações da dieta, tendência para a introversão e para a automedicação, entre outros. Porém, enquanto os anoréticos se vêem como obesos, os vigoréticos sentem-se sempre demasiado débeis, por mais exercício que pratiquem. Quanto aos medicamentos que tomam por iniciativa própria, os anoréticos recorrem aos laxantes e diuréticos, enquanto os vigoréticos abusam dos anabolizantes. Outra diferença reside no facto de, embora afetem ambos os sexos, a anorexia parece ser mais frequente nas mulheres e a vigorexia nos homens.

Os vigoréticos são pessoas com uma compleição física superior à média, mas nunca se consideram suficientemente musculados. Entregam-se compulsivamente ao exercício, fazendo do ginásio a sua segunda casa. O único objetivo não é levar uma vida mais saudável mas aumentar a massa muscular. Aliás, o resultado é o oposto – estas pessoas desenvolvem hábitos de vida pouco saudáveis.

Para corrigir e tratar o problema recomenda-se uma terapia cognitiva e comportamental, que ajuda a lidar com a vigorexia através de mudanças no comportamento e mentalidade. Pode também ser útil, para algumas pessoas, recorrer a grupos de autoajuda e suporte, para partilhar informação, experiências e procurar conselhos e ajuda em quem lida diariamente com esta situação.