Política de utilização de Cookies em ANF Este website utiliza cookies que asseguram funcionalidades para uma melhor navegação.
Ao continuar a navegar, está a concordar com a utilização de cookies e com os novos termos e condições de privacidade.
Aceitar
22 dezembro 2015
  Opinião
Texto de Paulo Cleto Duarte
Notícias do deserto

​​​​​​​​A opinião de Paulo Cleto Duarte, presidente da Associação Nacional das Farmácias ​

Não é lapso, é a realidade: Portugal está a ficar deserto. Neste início de século, fecharam 75% das escolas primárias, 70% das Urgências básicas, metade das extensões dos centros de saúde e já um terço dos postos de correio. Se regressasse, D. Sancho I, o rei povoador, havia de desembainhar a espada com a fúria que dedicou aos mouros nas margens do rio Guadalquivir. O sociólogo António Barreto usa um conceito farmacêutico para descrever o problema: dose, excesso de dose. As causas e as consequências do fenómeno já se confundem e aceleram mutuamente. 

A retirada de serviços, a destruição de economias locais, o caminho de ferro que encolheu, o recorde europeu de incêndios e as autoestradas sem carros mostram como a desertificação está a ganhar a guerra ao sonho democrático. ​O outro problema somos nós. No início da década de 80, só havia 45 portugueses com mais de 65 anos por cada 100 crianças até aos 15. Agora, há 134 cidadãos a entrar na idade da reforma por cada 100 alunos na escola. Estatisticamente, o envelhecimento é uma pandemia. Para um sistema de saúde desenvolvido, como é o nosso, já não é bem assim. O SNS foi essencial ao aumento da esperança média de vida. 

Devemos aproveitar as
farmácias como fazem
os países com sistemas
de saúde desenvolvidos.
São a rede de serviços
de saúde mais bem
distribuída​

Estamos perante um caso de sucesso, dos profissionais e das tecnologias. Como é evidente, a solução para o envelhecimento não é morrermos mais cedo, mas termos mais crianças, bem como políticas inteligentes de imigração jovem. Os portugueses estão a esforçar-se por envelhecer sem perder a saúde. Fumam menos, praticam mais exercício, informam-se e comem melhor. Se não podemos deixar de dar combate aos problemas de saúde pública, também será um erro desvalorizar estes sinais. As políticas públicas têm de aprender a nadar nesta onda. Não basta falar de prevenção e de promoção de estilos de vida saudáveis. É preciso força política para os implementar. 

Queremos aumentar a natalidade? Então, precisamos de dar aos cidadãos a possibilidade de terem emprego e constituírem família em todo o território. O sistema de saúde tem de garantir-lhes médicos de família e enfermeiros nas aldeias e nos bairros urbanos. São indispensáveis, do parto aos cuidados paliativos. Também devemos aproveitar as farmácias. Como fazem os países com sistemas de saúde desenvolvidos. São a rede de serviços de saúde mais bem distribuída. Os portugueses reconhecem-lhes competência para apoio no controlo de doenças crónicas e na solução de pequenos problemas de saúde. Como diz António Arnaut, “as farmácias são o braço longo do SNS”. Não seria inteligente amputá-lo."


Texto publicado originalmente no Expresso de 19 de Dezembro de 2015