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11 março 2017
Texto de Filipe Mendonça Texto de Filipe Mendonça Fotografia de Júlio Lobo Pimentel Fotografia de Júlio Lobo Pimentel

Pai Herói

João Almiro é o melhor português vivo. Na Casa das Andorinhas, abriga quarenta pessoas com vidas marcadas pela droga, a prostituição e o crime.​
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​A despesa mensal da Casa das Andorinhas ronda 10.000 euros

Es​tá quase na hora do almoço. Na Casa das Andorinhas, horas são horas. Até às 8h da manhã toda a gente tem de estar de pequeno-almoço tomado, o almoço é ao meio-dia e meia, janta-se pontualmente às 19h. Regras são regras.

«No início, estranhei estar no meio de tantas pessoas com problemas socioeconómicos e psiquiátricos», conta “Rafael” (nome fictício), enquanto acompanha, nas escadas, a subida de João Almiro na cadeira automática. 

– Doutor, vou só comer qualquer coisa. 

–  Vai. Vai... 

Rafael é uma andorinha. Já não vive lá em casa. Mas, quando a fome aperta, a porta continua aberta. «Sabe como funcionam as andorinhas, não sabe? Elas vão e vêm. Quando estão preparadas voam, mas depois voltam. Este é uma andorinha. Encontrou uma miúda e voou». A explicação de João Almiro ajuda a perceber a inscrição na varanda que dá para a rua principal: «Andorinhas». Foi assim que o farmacêutico baptizou a casa de família, onde agora vive com cerca de quarenta pessoas. O número varia consoante os voos, mas já por lá passaram centenas. Eram alcoólicos, ladrões, prostitutas, dementes, criminosos a aguardar julgamento, outros em cumprimento de pena suspensa, encaminhados pelos tribunais. 

«Gente como nós», enfatiza o dono da casa, enquanto espera pelo almoço. No quarto, tem um armário dedicado aos processos judiciais dos seus filhos do coração. Faz centenas de quilómetros para ir acompanhá-los ao tribunal, gasta fortunas com advogados, não os quer entregues a defensores oficiosos. Visita-os nas prisões. 

 

«Vamos comer», a vontade de João Almiro é uma ordem. Entram no refeitório, um a um, em silêncio, porque o «doutor ensinou que a hora da refeição é sagrada». Hoje são 21 andorinhas ao almoço. Dezoito homens e três mulheres. Marina e Elisabete trataram da sopa de alface e da carne estufada com esparguete. São quatro mesas. O farmacêutico senta-se à cabeceira da mais central. 

«A última vez que fui ao supermercado, tive de esperar pela reforma para passar o cheque, mas há comida na mesa. Não lhes vais faltar o pão», desabafa, enquanto dá cor aos lábios com um tinto da região. Aqui não há luxo. Pratos e copos de inox. Sustentar a casa, só a casa, custa cerca de cinco mil euros por mês. Falta o resto. Com os medicamentos para todos, a despesa mensal atinge perto de 10 mil euros. «O dinheiro que ganho na farmácia não chega. Mas, enquanto for vivo, vou continuar». 

A conversa fez arrastar o almoço. Quase uma hora depois, o chefe da mesa solta a frase mágica: «Podem levantar-se». Levantam-se todos à voz do “doutor”. Ninguém ousa fazê-lo antes. Quem quiser interromper a refeição tem de pedir licença e explicar porquê.

No pátio, Marina ajuda a estender a roupa. «Cada peça tem um número, para sabermos de quem é». No salão, Paulinho vagueia junto à mesa de bilhar, como quem encontra um mundo de bolas coloridas. «Venho cá comer sempre. Já não moro cá, mas o doutor disse para eu vir sempre que quiser. Ele ajuda-me. Sempre que preciso de ir a Tondela, ao hospital, o doutor pede a alguém que me leve. Quando é preciso medicamentos, o doutor tem.» É assim que Paulinho resume o amor que sente. 

Está na hora do café. «Hoje é no Salinas, doutor?», pergunta Marina. «É. Hoje é no Salinas», responde Almiro. À terça-feira, o café é na Pastelaria Salinas. À quinta e ao sábado, também. Segundas, quartas e sextas, a bica, cheia e com dois pacotes de açúcar, é nos bombeiros. Ao domingo, vão todos à esplanada do Parque. «Foi a maneira que ele arranjou para dar dinheiro a ganhar a toda a gente», explica a senhora do bar dos bombeiros. 

Da casa dos Andorinhas ao Salinas são pouco mais de 200 metros. Almiro leva o carro, Marina vai com ele, os outros seguem a pé. A mulher que o acompanha vive em sobressalto. Marina tem medo do fim, apesar da morte não assustar o homem que a criou. «Quem me mandou para aqui, que resolva isto no dia em que eu cá não estiver. Eu sou só um instrumento», afirma João Almiro, um homem cheio de fé. «Quem pinta não é o pincel, é o artista. Eu sou só o pincel. Estou aqui até durar e são eles que fazem com que eu não fique à espera do fim. Para me levantar preciso deles, para me vestir preciso deles. Sou eu quem precisa deles».

Oito quartos, quatro casas de banho, três salas, uma cozinha e o refeitório. O ninho parece sempre pequeno. Não há uma divisão que não esteja com vida dentro. Que o diga aquela mulher ali, aninhada ao canto do pátio, vestida de rosa. Ai, se o mundo soubesse. Fica só entre nós. Maria venceu a mulher da vida e refaz-se mulher a cada dia. A maior alegria de João Almiro é ver pessoas refazerem-se, renascer, ganharem asas e voarem.​

Jorge tirou um curso de cozinha e outro de serralharia​

 

Ao volante da carrinha de João Almiro, Jorge sente-se útil e com responsabilidade. «Está a ver estas árvores? Foram todas plantadas por nós. Agora vou levá-lo ali a ver as nossas vacas e depois vamos às batatas. Estamos na fase de tirar a erva para elas poderem crescer. Mas também temos milho e feijão», orgulha-se o homem que chegou aqui menino. Tinha 9 anos quando entrou no Convívio Jovem, vinha fugido dos maus tratos do padrasto. «Encontrei o pai que nunca tive».

Já lá vão vinte anos. Jorge tem agora 29 e vários instrumentos para cavar a terra da vida. «Tirei dois cursos, um de cozinha e outro de serralharia. O “doutor’” ofereceu-me a carta porque fui apanhado a conduzir sem ela e depois estive quatro anos fora, mas voltei». É uma andorinha, como João Almiro gosta de dizer. «Ele nunca fecha a porta a ninguém. Podemos ir tentar a nossa sorte lá fora porque sabemos que, se não correr bem, a porta está aberta», explica com os olhos fixos no horizonte. Lá onde sonha um dia «ter uma casa e constituir família». 

Quem olha para aquele corpo franzino não imagina o que lá vai dentro. Jorge sabe o que aprendeu e com quem aprendeu. Talvez por isso, é com as mãos sujas de terra que conta a história do “ucraniano” que estava abandonado em Portimão. «Ligaram para cá a saber se o doutor podia aceitá-lo, porque estava no hospital de Portimão com problemas de álcool e não tinha cá família. E nós, claro, aceitámos porque era mais um irmão a precisar de ajuda. Esteve cá três anos, doente. O Paulinho tomava conta dele, dava-lhe banho, mudava-lhe a fralda, dava-lhe comida à boca, mas ficou pior e teve de ser internado. Sabe o que aconteceu? Morreu dias depois. Sabe porquê? Porque lhe davam comida com sonda. Nós demos-lhe sempre comida à boca. Enfim, o pior é que quando morreu não apareceu ninguém a reclamar a o corpo. Ele está enterrado ali, ao lado da Bibi, no cemitério do Campo.» Silêncio.

É fácil reconhecer João Almiro na cabeça e no coração de Jorge. «Nós somos como irmãos. Temos de nos ajudar uns aos outros. Quem somos nós para julgar a pessoa que vem? Roubou? Bebeu? Esteve preso? E daí?». E daí? 


Samuel trabalha num matadouro


Tinha 13 anos quando decidiu escrever, pelo próprio punho, uma carta ao “doutor” a pedir-lhe ajuda. «Queria sair da miséria. Em casa passava fome, levava porrada e não me deixavam estudar», recorda Samuel. Já passaram 22 anos. Hoje, tem 35 e poucas dúvidas: «Se não tivesse encontrado o “doutor”, ou estava preso, ou no cemitério». 

João Almiro e Samuel recordam com sorrisos o primeiro dia. «O doutor foi buscar-me numa Renault Trafic e depois estava toda a gente à minha espera. Foi mesmo bom». É bom quando as coisas mudam, assim, e nunca mais voltam a ser o que eram. «Comecei a estudar, tirei a carta, fui a Itália, à Grécia, à Croácia…Eu sei lá. Sempre com a ajuda do “doutor”, claro». Samuel conta a sua história na hora de almoço. No matadouro, onde trabalha, pára-se das 13h às 14h. Tempo suficiente para ir a casa de João Almiro matar o bicho. É lá que ainda vive, mas agora com uma companhia especial. O pai, em guerra com o álcool, vive debaixo do mesmo tecto. «Já lhe perdoei tudo e ele aqui está melhor, não está sozinho. É bom voltar a viver com ele», sorri, fintando a ironia da vida. 

Samuel é um dos orgulhos de João Almiro. «Foi ele quem ajudou o Tó Mané. Ele que lhe conte», desafia o farmacêutico. O filho do coração aceita a deixa. «Sim. Era alcoólico. Era eu quem o levava para os tratamentos. Fui buscá-lo ao hospital de Barcelos, levava-o a Coimbra... Ai esse homem… Quando se viu curado ofereceu-me uma mota». A vida de quem vive com João Almiro está cheia de testemunhos destes. Todos por todos é o lema, até porque há um medo partilhado pela família do coração: «Quando acabar o Dr. Almiro, acaba tudo.»


O reencontro emocionado com a irmã de Betinha


«É ele», ouve-se ao longe. João Almiro prepara-se para sair de casa. Em frente à porta, um carro estacionado com três pessoas lá dentro. «É mesmo ele», repete a voz. 

Como se o mundo deixasse de girar, o farmacêutico petrifica e há um corpo que se lança nos seus braços. A imagem conta o resto. Uma mulher abraçada a João Almiro com os olhos molhados. «Não se lembra de mim, doutor? Não nos vemos há dez anos. Sou a irmã da Betinha. A Betinha». Perguntar a João Almiro se não se lembra disto, ou daquilo, soa sempre a brincadeira. Ele lembra-se de todos. 

Betinha é uma mulher mongolóide que João Almiro foi buscar ao hospital, ainda menina, porque os médicos lhe davam poucos meses de vida. «Mandaram-na para casa para morrer. Teve de dormir na minha cama, encostada a mim, por causa do frio. Foi há vinte anos. Ainda está viva». 

O relato de Almiro é interrompido pela irmã de Betinha. «Foi o senhor que lhe salvou a vida. Foi o senhor!». O farmacêutico sorri e afaga-lhe a face, naquele jeito só dele, que mistura timidez e doçura. 

– E como está essa saúde, doutor? 

– Vai andando…

– O senhor está aí para durar. Tem de durar mais 20 anos, pelo menos.​


Marina teme o futuro sem João Almiro


Marina, até aos 3 anos, viveu fechada num curral com o irmão. O mundo era aquela imensa escuridão, onde alguém a alimentava com restos de comida atirados para o chão. Tinha medo de tudo, até da luz que mal conhecia. Não falava, não sabia falar. Mas encontrou João Almiro. «Se não fosse o doutor, eu estava morta. Foi um pai. É um pai. Deu-me tudo, tudo, tudo e esteve sempre sempre ao meu lado». O farmacêutico de Campo de Besteiros mudou-lhe a vida e o destino. «Até me deu mimo a mais. Deu-me casa, deu-me educação, levou-me a conhecer a Holanda, a Alemanha, Roma, a fazer um cruzeiro… Também fomos a Paris com o dinheiro que o doutor juntava», recorda Marina, enquanto vai semeando sobre a mesa as fotografias das viagens.

A mulher que recorda o mundo é a mesma que diz que há coisas que não se esquecem, mas perdoam-se. Marina vive na esperança de ouvir a mãe contar-lhe tudo o que se passou, afinal, naqueles tempos de escuridão. Espera, mas não desespera, até porque já tem dois filhos a quem quer dar o amor que recebeu. Marina tem três anos e o Francisco já fez dois. Apesar da mãe já não viver na casa dos Andorinhas, as visitas são regulares. «Querem vir ver o avô. Sim. Não lhe chamam doutor Almiro. É o avô. Deitam-se para cima dele, pedem chocolates, chupas, nem imagina! Gostam tanto dele. E ele trata-os como se fossem netos».​

Marina vive com Rui Pedro. Conheceram-se no Convívio Jovem. Cresceram juntos. No dia em que precisaram de sair, de abraçar o mundo que Almiro lhes mostrou, encontraram outra vez a ajuda do pai do coração. «Estamos numa casa dele e ele não nos deixa pagar renda. Tem um coração muito bom. É por isso que eu estou sempre a pensar: quando o doutor morrer, o que vai ser desta gente toda? O doutor podia estar com os filhos e com os netos a gozar a vida e está aqui com eles». Há coisas que não foram feitas para ser lidas aos olhos de cada um de nós, mas para serem sentidas ao ritmo do coração do “doutor”.​

 

​​Artigo publicado originalmente na revista Farmácia Portuguesa n.º 210​​

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