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22 janeiro 2016
Fotografia de Carla Bessa Texto de Carlos Enes
António Arnaut: «Quando apareceu a corrupção, vim-me embora»

​​​​​​​​​​​​António Arnaut foi um dos fundadores do Partido Socialista mas, no início da década de 80, decidiu abandonar a política, incomodado com o crescimento do carreirismo.​

​Revista Farmácia Portuguesa – O que o levou, em 1983, a abandonar a política?
António Arnaut – Foi quando a política deixou de ser um dever cívico e passou a ser uma carreira, ou um carreirismo, que é pior. Vieram os carreiristas, os medíocres.

RFP – Já havia a corrupção que por aí vai hoje?
AA – Não, não era tanta, agora é uma coisa asfixiante. Quando apareceram os fumos de corrupção, mesmo dentro dos próprios partidos, pensei: «Devo ficar aqui a lutar contra o meu próprio partido, ou devo desertar da luta?». Ponderei isso, profunda e dolorosamente. Não tenho vocação para lutar contra o meu próprio partido. Gosto de lutar contra os meus adversários, que aliás respeito, gosto desse combate democrático. Mas eu não tinha capacidade de adaptação à intriga e a essas coisas. Um homem, realmente, não pode estar no meio das chamas sem se queimar. As chamas acabam por chamuscá-lo. Então, sacudi o pó dos sapatos e vim-me embora. Mas continuei a desenvolver a minha actividade política do ponto de vista ético e cívico, até criticando o Partido Socialista quando era caso disso.

RFP – Presumo que tenha sido uma decisão angustiante.
AA – Eu trato isso no meu romance Rio de Sombras. Quando eu saí da política por essas razões, que me deixaram uma ferida profunda, ainda não cicatrizada, desabafei com o Miguel Torga. E ele disse que eu tinha de escrever sobre isso, que seria um relato importante para o país, uma coisa de proveito e indicação ética para o rumo que o país devia tomar. Eu resisti: «Não, eu não vou falar do que se passa no interior do meu próprio partido, como não falo do que se passa na minha família». Então, o Torga insistiu: «Se é assim, conte isso em ficção». E eu andei 20 anos para escrever o romance. Regressei à advocacia, tinha muito trabalho. Enquanto estive na política não advoguei, porque acho que é moralmente incompatível.

RFP – Na sua biografia há um episódio que me intriga profundamente: 1 de Março de 1959, o senhor ainda não tinha sequer acabado o seu curso…
AA – Acabei em Julho.

RFP – Precisamente. Tinha 23 anos, e atreveu-se a subscrever a célebre Carta dos Católicos a Salazar, contra os métodos da PIDE. Diga-me, sinceramente, não temeu sofrer represálias, até físicas?
AA – Claro que sim. Já tinha sido incomodado pela PIDE. Colaborava no República, já tinha tido avisos. Só não fui preso porque o presidente da câmara de Penela era meu amigo e intercedeu por mim.

RFP – Então, não pensou duas vezes antes de se meter naquilo?
AA – Não!

RFP – Está bem que ainda devia ser um jovem, um homem solteiro…
AA – Não. Eu casei em Abril.

RFP – Então, ia oferecer à sua mulher, como abertura de uma vida em comum, uma temporada na cadeia?
AA – (Ri-se) Oiça, oiça: Já em 1958, a minha mulher e eu ganhámos as eleições na nossa freguesia, com o Humberto Delgado. Portanto, eu assumi o risco, que era um risco relativo. Aquela carta surgiu na sequência da carta do Bispo do Porto. Tivemos um processo por crime contra a segurança interna e externa do Estado.

RFP – Foi arguido nesse processo…
AA – Mas lá surgiu uma amnistia, porque aquilo ameaçava tornar-se num grande escândalo. Eu na altura era católico, deixei de o ser na Guerra Colonial.

RFP – Esse é outro ponto interessante. Como é isso de dizer que perdeu a fé, mas continua a ser um «cristão agnóstico»?
Porque Jesus Cristo foi um profeta dos valores da dignidade humana, da civilização. Foi um revolucionário, um revolucionário!

RFP – Era o Che Guevara da época, é isso?
AA – Um Che Guevara, um Mandela, um Luther King, mas noutro patamar, mais elevado. Porque há dois mil anos, imagina o que terá sido dizer que é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus? Aquele Sermão da Montanha, o sermão das Bem-aventuranças, é um sermão revolucionário. A minha admiração por Cristo não se esvaiu por ter perdido a fé.

RFP – O que perdeu foi a crença na reincarnação?
AA – Isso não sei se existe, mas vivo tranquilamente, sem nenhum problema metafísico. E vivo tranquilamente porque nunca fiz mal a ninguém, nunca quis fazer mal a ninguém, fiz sempre aos outros o bem que pude. Eu sinto-me muito tranquilo com isso. A doutrina social da igreja é muito próxima do socialismo e dos valores maçónicos.

RFP – Mas deixou de acreditar no espírito?
AA – Não, não, o espírito é outra coisa. Nem deixei de acreditar no sagrado. Por exemplo, a poesia é sagrada. O amor é sagrado. A verdade é sagrada. Eu tenho é um conceito de sagrado diferente dos crentes em sentido estrito. O crente acredita que há um Deus que lhe vai pagar o bem que fez através da salvação. Eu, não. Muitos crentes às vezes procedem de certo modo com o objectivo de virem a obter mais tarde uma recompensa.

RFP – A mercadejar a fé.
AA – Também há muitos crentes com outra postura. Sabe que a fé não exclui a razão. Mas a razão, escavada até ao fundo da nossa consciência, pode excluir a fé nesse sentido mais corrente. Eu tenho fé, mas é fé no homem, fé numa sociedade melhor, fé no devir colectivo.

RFP – No momento em que conseguiremos ser uma fraternidade.
AA – A utopia maçónica é justamente a criação da fraternidade universal. Tenho fé em que a sociedade marchará para patamares cada vez mais elevados de dignidade e igualdade. Não há nenhuma incompatibilidade entre valores cristãos, socialistas e maçónicos. Mas a utopia é que move o Mundo.

RFP – O que aconteceu na Guerra Colonial de modo a provocar essa alteração em si?
AA – Não sei precisar, mas até já escrevi sobre isso. Estive um ano em Ambrizete, sempre a ir à missa. Um dia, já em Nambuangongo, levantei-me para ir à missa. E como uma luz de uma vela que se apaga, mesmo sem haver brisa, concluí que não tinha razão nenhuma para ir.

RFP – Mas houve algum episódio de guerra traumático?
AA – Não, nada. Simplesmente, perdi a fé. Talvez tenha havido circunstâncias, mas nenhuma que eu possa isolar. Sabe, nós somos movidos por águas interiores, de que às vezes não nos apercebemos, mas que explicam os movimentos à tona da água. E eu perdi a fé como uma vela que se apaga. Mas não tenho problema nenhum. Sou igual, sou o mesmo. Só não vou à missa.

RFP – Como entrou para a Maçonaria?
AA – Foi por convite do Fernando Vale, médico e meu mestre, em 1972, que muito me honrou. Ele já me tinha levado, em 1965, para a Acção Socialista.

RFP – Pode explicar a um profano o que um homem precisa de fazer, o que muda na sua vida, qual é a construção, para chegar a Grau 33 e a Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano?
AA – Acreditaram em mim, ter-me-ão reconhecido algum mérito. O mérito que eu tive foi o de acreditar no futuro, que podemos melhorar a vida das pessoas, acreditar que é possível reduzir as injustiças e as desigualdades, já não digo acabar com elas. Foi sempre esse o rumo da minha vida, tanto no Partido Socialista, como na Doutrina Social da Igreja, como na Maçonaria. Eu sou assim antes de qualquer coisa, talvez por ser poeta, o poeta tem uma certa sensibilidade. Eu acredito que é possível mudar o Mundo, acredito na dignidade intrínseca profunda da pessoa humana. É por isso que sou contra as injustiças, as prepotências, a exploração do homem pelo homem.

RFP – Portanto, o menino da Cumieira é anterior a essas opções todas e explica o seu percurso.
AA – Sim, sim. Precisamente.

RFP – Mas foi precoce, mesmo para a época.
AA – Comecei a assinar o jornal República com 14 anos. Havia gente que ia para a escola descalça. E gente que morria sem dinheiro para chamar um médico. E eu pensava: Isto não está certo. E quando comecei a ver que as coisas não estavam certas, comecei a rebelar-me. Comecei a ler muito e a ser o que sempre fui: republicano, socialista.

RFP – E revolucionário, não é?
AA – Sou revolucionário pela palavra. Aliás, quando apresentei o projecto do SNS na Assembleia da República, chamei-lhe revolucionário, porque ele queria transformar radicalmente o que existia.

RFP – O problema é que a corrupção e o tráfico de influências são fenómenos que também atingiram a Maçonaria.
AA – A maçonaria devia ser o último reduto em que a fraternidade pudesse ser infiltrada por outras lógicas. Aconteceu depois do 25 de Abril o que já tinha acontecido após a proclamação da República. Para se aceder a um cargo político era importante ser da Maçonaria. Disso resultou a entrada na Ordem de pessoas que não tinham preparação. Houve menos cuidado na selecção das pessoas. Hoje há várias maçonarias e não podemos falar delas por igual, embora o que se passa em cada obediência afecte as outras. Mas isto é produto do tempo. Vivemos um tempo em que os valores da dignidade humana foram postos de parte por esta corrente negocista, egocêntrica.

RFP – Já a comparou à peste negra.
AA – Sim, escrevi isso sobre este neoliberalismo selvagem que nos ataca. Eu defendo a igualdade de todos perante a lei e a comunidade, a igualdade no acesso aos direitos fundamentais, de acesso à educação, à saúde, à cultura. Por isso defendo um Estado social de direito, forte e interventivo. Porque a liberdade desacompanhada dessa igualdade permite sempre o abuso do fraco por parte do forte. Só há liberdade entre iguais. Não basta falar da liberdade dos mercados, de capitais. A liberdade do homem só se garante pelo respeito dos seus direitos fundamentais. Aqui é que se faz a clivagem entre direita e esquerda. Uma certa direita, do neoliberalismo, valoriza apenas a liberdade. Criticam o Obama porque acham que cada um deve ter a liberdade de morrer sem tratamento médico, querem um sistema em que os fortes passem à frente dos fracos.

RFP – O senhor continua a ser dos maiores defensores de um serviço público de saúde.
AA – Estarei sempre na primeira linha desse combate. A concepção dos neoliberais é a de que o Estado se deve afastar de todas as prestações sociais, deve deixar tudo ao mercado. Na saúde, por exemplo, admitem que o Estado tenha umas coisinhas mínimas para os muito pobres. Eu não aceito isso, nem me resigno, porque não defende a dignidade das pessoas, que só pode ser garantida pela igualdade no acesso. Eles entendem que a saúde é um negócio, que é uma mercadoria, quem tem dinheiro que a pague. Essa concepção é aviltante para a dignidade humana. Só um Estado forte pode garantir igualdade de direitos fundamentais. Depois, a partir desse patamar, já é possível que o mérito e as capacidades de cada um ditem algumas diferenças, mas sem ferir a dignidade de ninguém, nem esse equilíbrio entre todos. Felizmente, há a direita social. Veja o Papa Francisco, que diz que esta economia mata.

RFP – E o senhor não se conforma.
AA – Jamais. Hoje o que conta é o ter, não é o ser. Já os meus avós me diziam: «Filho, olha que vale mais o ser do que o ter». Procurei conduzir-me por esses valores. Eles não dão é o resultado material que muitos ambicionam. Nunca precisei disso. Sinto-me rico porque tenho muitos amigos. Mas olhe que há muitas pessoas como eu, não são é conhecidas. Repare no caso do João Almiro, que fez aquela obra extraordinária e fora da terra dele quase ninguém sabia.

RFP – O que o marcou mais na vida pública?
AA – Há dias pediram-me para fazer esse exercício, de escolher os três grandes momentos da minha vida. Pondo de parte os filhos e as coisas familiares, que reservo para a intimidade, os momentos luminosos da minha vida, por ordem, foram os estes: A fundação do Partido Socialista. Chorei. A aprovação da Constituição. E a aprovação da Lei do Serviço Nacional de Saúde.

RFP – Mas o senhor teve grande protagonismo noutras coisas importantes, como por exemplo chegar a Grão-Mestre…
AA – ​Tive e tenho grande honra nisso, mas não teve a mesma importância.​