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11 fevereiro 2017
Texto de Carlos Enes Ilustração de Mantraste Ilustração de Mantraste Texto de Carlos Enes
Amo-te, logo escrevo
As cartas de amor são o melhor da  História.
O verso de Álvaro de Campos, como os amantes, caiu nas bocas do mundo:

Todas as cartas de amor são ridículas

O amor traz à Terra as crianças e muita literatura, de cordel a grandes romances. Mas é na primeira pessoa, em epístolas inflamadas, que se manifesta em estado puro. «A minha felicidade é estar perto de ti. Há uns dias pensava que te amava, mas agora sinto que te amo mil vezes mais do que na última vez que te vi». Milhões de adolescentes escrevem assim, mas estas frases escreveu-as de coração aos saltos Napoleão Bonaparte – rapaz corso de 27 anos que viria a coroar-se imperador de França e a dominar com botas de ferro grande parte da Europa – a Josefina, belíssima viúva seis anos mais velha do que ele, por quem pingou amor e ciúmes desesperados.

A surdez e um amor impossível por uma mulher até hoje desconhecida concorreram para deixar um dos maiores génios da História da Humanidade vários anos em crise criativa. «Não poderás mudar esta situação que exige que não sejas toda minha, nem eu todo teu?», escreveu-lhe com lágrimas de sangue Ludwig Van Beethoven. 

«Meu Deus, porque tenho de estar separado quando amo desta forma?», retornou ele, na manhã seguinte. O compositor pode ter sido infeliz, mas o talento sobreviveu ao desgosto. Já surdo e solitário, dez anos depois de falhar no amor escreveu a Nona Sinfonia, com o Hino à Alegria no coração do quarto andamento. «Não é o nosso amor uma construção  celestial? Por isso mesmo é tão sólido como a abóbada do céu». As cartas de amor de Beethoven são férteis em pensamentos sobre a grande música e a condição humana. «Há momentos em que penso que o discurso falado não é nada, não consegue dizer nada!».
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O amor é uma fonte inesgotável de grandiosas metáforas. Henrique VIII, rei de Inglaterra de 1509 a 1547, comparou-o a «um facto de astronomia», no auge da paixão por Ana Bolena. «Quanto mais longos são os dias, mais longe está o Sol, e apesar disso mais abrasado é o calor. Assim é o nosso amor: a ausência afasta-nos, mas aumenta o fervor – pelo menos da minha parte». Católico fervoroso, por amor a Ana Bolena rompeu com o Papa e fundou a Igreja Anglicana. O amor vê coisas incríveis, apesar de ser cego – e por vezes trágico. O rei viria a trocá-la por uma aia e a ordenar a decapitação da mulher a quem se declarara, por escrito, «vosso criado». Pinga-amor  incorrigível, Henrique VIII casou seis vezes e ainda anda a seduzir as mulheres do século XXI, na série televisiva  "The Tudors", tomando de empréstimo as feições de modelo Hugo Boss de Jonathan Rhys Meyers.

Surpreendentes são as cartas de Mozart, outro génio imortal que sofreu com ciúmes da esposa. «Peço-te que tenhas atenção não só à tua como também à minha honra com o teu comportamento, e também às aparências», escrevia ele, com «o querido retrato» de Constanze Weber à frente dos olhos.

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser
Ridículas.

Quando «o amor passou», Fernando António Nogueira Pessoa guardou-as e pediu a Ophelia Queiroz que as guardasse também. «Eu preferiria não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão». O poeta seguia na direcção da espantosa viagem literária e mística dos seus heterónimos. «O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam». Mas despedia-se com o cuidado de guardar delicado respeito à memória amorosa de dois seres humanos mortais.

«Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles. Que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor».

No outro extremo da delicada corda do amor viveram os grandes ditadores do século XX, responsáveis pelas maiores carnificinas e vergonhas da Humanidade. «Durante a viagem pensei muitas vezes em ti, cada vez que via jovens casais apaixonados entrar na carruagem», escreveu Benito Mussolini a Ida Dalser, num comboio a caminho de Roma. Conquistou-a, fez-lhe um filho, mas acabou por declará-la louca e mandá-la internar.

Na Rússia, Estaline atraiu Nadia, uma secretária de Lenine 22 anos mais nova, a uma carruagem de luxo que lhe serviu de quartel-general nas primeiras campanhas de expropriação de cereais aos camponeses. Tornaram-se amantes num ambiente forrado a sedas azuis, de onde eram emitidas ordens de fuzilamento às rajadas. «Olá, Taka. Tenho tantas saudades tuas, Tatochka. Sinto-me mais sozinho do que um moxo cornudo», escrever-lhe-ia, já no auge do poder. A política de morte dos bolcheviques semeou tempestades no casal. Nadia foi encontrada morta na cama, com uma arma ao lado. Suicidou-se ou foi assassinada pelo marido, no regresso de uma noite de farra e bebedeira? O historiador Simon Sebag Montefiore acredita que, por uma vez, o ditador sofreu por amor.​

«Aquela criatura supremamente política, capaz de um desprezo inumano por milhões de homens, mulheres e crianças que morriam de fome, mostrou mais humanidade naqueles poucos dias que se seguiram do que em qualquer outra altura da sua vida».

Eva Braun, como Nadia, também tinha 17 anos quando conheceu Adolf Hitler, em 1929, no estúdio do fotógrafo Heinrich Hoffmann. Relacionaram-se sempre paredes meias com a morte, com a rapariga a tentar por duas vezes o suicídio. O ditador vivia com uma sobrinha, Geli Raubal, que em 1931 foi encontrada morta em casa com a pistola dele. A grande preocupação de Hitler foi controlar o escândalo na imprensa. Para ele, «as mulheres eram um objecto, um adorno num mundo de homens», descreve o historiador Ian Kershaw. Eva viveu uma década nas proximidades de Hitler, mas sem nunca ter direito a manifestar qualquer discordância ou sequer opinião de natureza política.
 
No glorioso dia 30 de Abril de 1945, em que o führer se rendeu com um tiro na cabeça, Eva suicidou-se como era seu destino, com um comprimido de cianeto. Tinham-se casado na véspera, em pleno bunker, com as bombas sobre Berlim como marcha nupcial. «Para Hitler, Eva Braun era apenas uma coisinha atraente, na qual ele encontrava o tipo de relaxamento que procurava», viria a relatar Hoffman. «Mas nunca, verbalmente, visualmente ou gestualmente, alguma vez se comportou de maneira a sugerir qualquer interesse mais profundo por ela». Hitler não escrevia cartas de amor.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor É que são Ridículas. 

Algumas das cartas citadas neste artigo foram retiradas da compilação “As Grandes Cartas de Amor”, selecção de Elizabete Agostinho, Guerra e Paz, 2016​