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17 dezembro 2016
Texto de João Gorjão Clara (Médico e professor de Medicina Geriátrica) Texto de João Gorjão Clara (Médico e professor de Medicina Geriátrica)
Velhos são os trapos

​​​​​​​A idade não é uma doença.

Os alunos de Medicina da minha geração tiveram como referência na aprendizagem um médico canadiano, William Osler.

Tão eminente professor, cientista e pedagogo, quando ingressou na Universidade de Oxford afirmou que depois dos 60 anos os seres humanos deviam ser cloroformizados (entenda-se, eliminados pelo clorofórmio), subscrevendo a opinião de Anthony Trollope, um novelista muito prestigiado no seu tempo.

Osler afirmava que a nossa capacidade mental e intelectual se ia dissipando depois dos 40 anos e que não éramos tão produtivos e úteis à sociedade como até aí. O mito de que envelhecer é ficar doente e as nossas capacidades intelectuais se comprometem ainda persiste. A realidade é bem diferente. Ser velho não é ser doente. Os velhos adoecem porque têm doença(s) e não porque são velhos.

A maioria dos seres humanos mantém as capacidades intelectuais (memória, atenção, raciocínio, criatividade) até bem tarde na vida. Só discretas perdas podem ser atribuídas ao envelhecimento. Se assim não acontecer, então estão doentes e devem procurar apoio médico.

A principal causa da perda das funções intelectuais é o desuso. O cérebro exercita-se como os músculos e as células cerebrais podem multiplicar-se em número e interligações. A plasticidade neuronal (nome por que foi denominada esta propriedade cerebral, descoberta no final do século XX) desfez o conceito de que envelhecendo perdemos qualidade mental.

Acredito que ao lerem este artigo, a informação tenha ficado retida no vosso cérebro, pois a plasticidade neuronal permite que a todo o momento os estímulos externos moldem e actualizem a nossa base de dados cerebral.

Saberia Osler que Miguel Angelo esculpiu a Pietá Rondanini aos 89 anos, que Ticiano pintou a batalha de Lepanto aos 95 e a descida da cruz aos 97, Goethe escreveu Fausto aos 83, Victor Hugo escreveu Torquemada com 83 anos, Verdi compôs Otelo aos 74 e Falstaff aos 84?

É fundamental fazer exercício físico e mental todos os dias, mas também viver cada momento da vida, porque, como nos ensinou Chaplin: «A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a  cortina se feche e a peça  termine sem aplausos»
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