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26 fevereiro 2017
  Opinião
Texto de Mário Beja Santos (técnico de defesa do consumidor) Texto de Mário Beja Santos (técnico de defesa do consumidor)
Vacina da gripe: a razão que todas as razões desconhecem

​​​​​Por que é que não me posso vacinar contra a gripe na farmácia como no centro de saúde?

No final do último ano, passei uma tarde inteira na urgência do Hospital de São José. Um familiar muito querido adoeceu subitamente, esteve horas a fazer exames e eu, que o acompanhava, estive horas numa sala de espera, sentado num banco, a ver imensos utentes com máscaras e a ouvir tosses nos mais variados tons: cavernosos, sibilantes, arrepiantes… 

Havia espancados, atropelados, inebriados e arrastados por polícias, mas a gripe era a rainha, deitando abaixo gente de todas as idades e feitios que, para queimar tempo, trocava histórias entre si: ​

- «Eu não me vacinei. Trabalho a dias de manhã, não posso perder tanto tempo no centro de saúde para me vacinar». 
- «Tomo conta de dois netos, nem me passou pela cabeça levá-los para o centro de saúde. Agora tenho esta gripe de todo o tamanho e a minha filha foi obrigada a desinquietar os sogros, tão velhos e doentes». 

Pus-me a pensar nisto, nesta cena de filme catástrofe e em como poderia ser outra a história se os sistemas de saúde estivessem mais de acordo com a vida das pessoas e soubessem optimizar recursos, alguns tão simples como uma vacina. 

A gripe é um caso “engraçado”. Entre nós, os grupos de risco (seniores, grávidas, trabalhadores de saúde…) têm vacina grátis nos centros de saúde e o resto da população pode vacinar-se na farmácia, pagando, como eu, cerca de dois euros. Acontece que eu já sou sénior, mas tenho lá tempo para perder num centro de saúde? E como eu, muitas outras pessoas. A diferença é que boa parte não vai depois à farmácia. Não se vacina, ponto. 

A situação é absurda. Mas por que motivo não posso eu, que pertenço a um grupo de risco, vacinar-me comodamente, de modo gratuito, na farmácia? O que é que impede o Estado de o protocolar? Por que tenho de ir perder tempo para centros de saúde? Por que tenho de fazer médicos e enfermeiros perder tempo comigo quando poderiam estar dedicados ao tratamento de doentes? 

Será preconceito? É que não faz grande sentido, já que, de acordo com a legislação actual, às farmácias é autorizado, desde 2008, administrar todas as vacinas fora do Plano Nacional de Vacinação, pelo que falta de experiência ou inabilidade técnica não são argumentos. 

Mais: muitos outros países autorizam a administração de vacinas por farmacêuticos. É o caso dos EUA, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido, Irlanda. Neste último, dá-se aos doentes a opção de poderem vacinar-se contra a gripe no centro médico ou na farmácia. E com óptimos resultados: o número de vacinados cresceu exponencialmente, reduziu-se a mortalidade. Em suma, optimizaram-se todos os recursos disponíveis, houve menos doença e menos gastos em saúde, ganhou-se horas de trabalho tão necessárias para criar riqueza.

Cá, continuamos a assistir a serviços de urgência entupidos, centros de saúde à pinha, serviços hospitalares em alvoroço. E eu continuo sem perceber o que significa, na prática, o doente ser o motor do sistema de saúde. 
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