Política de utilização de Cookies em Revista Saúda Este website utiliza cookies que asseguram funcionalidades para uma melhor navegação.
Ao continuar a navegar, está a concordar com a utilização de cookies e com os novos termos e condições de privacidade.
Aceitar
24 novembro 2017
Texto de Carlos Enes Texto de Carlos Enes

Um farmacêutico ligado à rede

​​​​​​​​​​​​​​​João Almiro manteve a vida inteira um vínculo forte com as farmácias e as suas organizações.

Tags
​A relação de João Almiro com a rede de farmácias foi sempre exigente e clara. O farmacêutico de Campos de Besteiros barafustou, fez sempre muitas perguntas e prestou informações preciosas. Quando ele apareceu, o meio farmacêutico estranhou-lhe o tom resolvido e a impaciência. Depois, deixou-se encantar pelo espírito científico que punha em cada reunião e o carácter que espalhava aos quatro ventos. No dia em que pediu apoio para ajudar os outros, as farmácias de todo o país entranharam o sonho dele como causa colectiva. 

A inscrição da Farmácia Almiro, de Campo de Besteiros, no Grémio Nacional das Farmácias foi deferida de 27 de Março de 1953, assim como quatro postos de medicamentos associados, nas aldeias de Paranhos de Besteiros, Pontinha, São João do Monte e Tourigo. O Labesfal, Laboratório da Farmácia Almiro, nasceu na mesma data.  

A dupla condição de farmacêutico e fabricante de medicamentos tornou especialmente complexa e exigente a relação de João Almiro com a estrutura corporativa do Estado Novo. Logo no mês de Setembro, o farmacêutico perguntava ao Grémio qual «a bonificação no Açúcar Castor para a indústria farmacêutica, quer para os produtos consumidos na Metrópole, quer para exportação». Em vez de uma resposta, na volta do correio recebeu dois caminhos alternativos no labirinto burocrático:

– Deve expôr o assunto ao Grémio dos Industriais de especialidades farmacêuticas e, se não o conseguir, deverá solicitá-lo directamente à Administração Geral do Açúcar e do Álcool. 

Em 1966, João Almiro confrontou o Grémio com o problema da dupla tributação de uma pequena empresa do Interior do país, decorrente do facto de acumular as actividades de dispensa e preparação de medicamentos. O organismo revelou empatia para com o problema, mas também falta de autonomia para o resolver.

– O Grémio fez uma exposição ao Senhor Ministro das Corporações, na qual salienta esta anomalia.

Com a separação do casal, ocorrida nessa época, João Almiro ficou com seis filhos a cargo. Para além do Labesfal, passou a assumir também a direcção técnica e a gestão da farmácia, desde sempre a cargo de Ruth Abrantes. Nada de mais, para um homem com vontade de ferro e nervos de aço. Respondeu às circunstâncias difíceis com práticas de excelência e objectivos ambiciosos. 

Era um consumidor ávido de literatura científica  e recordista de presenças em congressos internacionais. Também nunca parou de modernizar tecnologicamente o laboratório. Instalou a primeira fábrica do​ Labesfal em Campo de Besteiros. Impôs-se, como ele dizia. Mas nunca chegou a ser propriamente rico. Se a facturação do Labesfal crescia em flecha, as despesas também, à medida que o farmacêutico foi acolhendo e assumindo o encargo de cada vez mais crianças abandonadas e adultos sem eira nem beira, que chegaram a ser para cima de uma centena. 

João Almiro desenvolveu um estilo de vida austero, que propagava como uma doutrina.

– Não é preciso luxos! Os luxos não fazem falta para nada!

Nascido  no meio de uma rebelião com origem no Minho, João Almiro estava fadado para uma relação tensa e por vezes tempestuosa com o poder instalado em Lisboa. Nunca aceitou passivamente as suas leis e códigos. Não precisou do 25 de Abril para protestar, assinando por baixo. Contestou taxas, preços de matérias-primas e tabelas salariais. É disso exemplo um ofício dirigido ao Grémio em 22 de Novembro de 1973, reclamando contra o valor das horas extraordinárias a pagar aos ajudantes de farmácia, por causa do serviço nocturno:

Tomo  a liberdade de manifestar o meu desacordo, dado que é incompatível com o movimento da maior parte das farmácias. De um modo especial nas farmácias de província, e pior ainda aquelas que se situam em localidade em que a farmácia é única. Como é única tem de estar sempre de serviço e o seu movimento não comporta tal encargo.



A sequência de ofícios mostra um carácter persistente e destemido. Sempre que sentia a Justiça do seu lado, João Almiro não desarmava. Logo a seguir à Revolução, em Dezembro de 1974, confrontou a Associação Nacional das Farmácias (ANF) – ainda governada por uma comissão instaladora e sem estatutos reconhecidos pelo Estado – com o mesmo problema de insustentabilidade de uma pequena farmácia do Interior do país, obrigada a estar permanentemente disponível para abrir a porta, 365 noites por ano. A resposta não tinha mudado.

– Como a farmácia é única na localidade estará sempre de serviço permanente.

No ano quente de 1975, o Labesfal sofreu com o aumento vertiginoso do preço do açúcar, facto que encarecia significativamente o fabrico de xaropes.  João Almiro tornou a escrever à ANF, perguntando se a indústria farmacêutica poderia ter acesso a essa matéria-prima com desconto. A resposta da Comissão Administrativa parecia decalcada da redigida pelo Grémio, 22 anos antes.

– Para eficiente esclarecimento, deve V.Exa procurar informação junto da Comissão Reguladora dos Produtos Químicos e Farmacêuticos. Também poderá dirigir-se à Direcção-Geral de Preços.

A organização burocrática do Estado sobrevivia ao PREC e mantinha o controlo sobre a actividade económica. Longe do epicentro da turbulência política, os operários de Campo de Besteiros continuavam a produzir 28 especialidades farmacêuticas, em 44 apresentações. Eram disso exemplos os comprimidos Almicalma e Almibile, os xaropes Almicalcio e Broncoral, a pomada Furuncol, o elixir Hagasical, gotas oculares, supositórios e soro fisiológico. 

A Farmácia Almiro é que continuava a ser uma fonte de preocupações e prejuízos. Em 1978, João Almiro envia uma carta inflamada à ANF, exibindo incompreensão e grande frustração com a receita legislativa democrática que se abatia sobre o sector, fortemente influenciada pelos sindicatos, cuja deriva reivindicativa não entendia



– Há ainda o caso gravíssimo do horário rígido das 9 horas às 19 horas, com 2 horas para o almoço. Porque não as 9 horas para cada empregado, mas com desencontro de horas? Numa aldeia como a minha, tenho os empregados da parte da manhã a conversarem ou até a bocejar por não terem que fazer; e à tarde, por volta das 17 horas, vem o médico da Caixa, andamos todos atarefados e precipitados a aviar as receitas. À hora do almoço e depois das 19 horas, que é quando os verdadeiros trabalhadores (gente do campo) regressam a casa, tenho de interromper o almoço ou o jantar para os ir atender e ficar de guarda à Farmácia, para poder servir o meu verdadeiro público.

A ANF, por essa altura, já era uma organização profissionalizada e combativa. Respondeu ao associado com um parecer jurídico de cinco páginas. João Almiro ficava informado, ponto por ponto, das posições assumidas em sede de contratação colectiva e junto do poder político. O documento inventariava as vitórias alcançadas e as frustrações, sobre as quais a ANF estava de acordo com o associado e mantinha em agenda para o futuro.

– Lutámos nesta contratação colectiva pela não elevação das tabelas salariais em vigor, dado que, quanto a nós, o sector não estava em condições de poder suportar acréscimos salariais. Utilizámos todos os meios ao nosso alcance, desde os Ministros à Assembleia da República. A Portaria publicada não é recorrível judicialmente. Assim, solicitamos a V.Exªs. que nos indiquem com brevidade quais as vias que falta utilizar para uma defesa mais tenaz, profícua e completa dos Associados. 

Esta troca epistolar tensa iluminou a relação. Muito provavelmente, João Almiro sentiu que, finalmente, havia em Lisboa quem defendesse a viabilidade económica da sua farmácia. Ainda por cima, com a frontalidade e intransigência que sempre lhe pareceram adequados à sua própria conduta. João Cordeiro só viria a assumir a presidência três anos depois, mas recorda o clima vivido nesse tempo com um sorriso.

– É natural que a geração anterior tenha sentido alguma desconfiança em relação ao mais novos. Até porque aquele período inicial foi marcado por grande instabilidade política. Mas esse receio dissipou-se quase de imediato e construímos uma relação impecável com o Dr. João Almiro.​​​​​

A correspondência seguinte retrata o estabelecimento de uma parceria afinada, que evoluiria para uma relação de amizade de João Almiro com os principais dirigentes da associação e de cumplicidade com as farmácias de todo o país. 

– Não me recordo de nenhuma reunião no distrito de Viseu onde ele não estivesse presente.

Um exemplo perfeito dessa simbiose é uma carta de 12 de Janeiro de 1984. O farmacêutico e fabricante de medicamentos João Almiro pedia parecer jurídico à ANF, porque tinha «sérias dúvidas» em fornecer pomadas e outros produtos de fabrico Labesfal, que ainda constavam da Farmacopeia Portuguesa, a estabelecimentos registados como “drogarias”.



– Como produtores que somos, aparecem-nos por vezes situações embaraçosas que desejamos resolver sem prejuízos para as Farmácias e, por isso, temos procurado esclarecer-nos junto de V.Exas.

O farmacêutico de Campo de Besteiros mantinha a ANF permanentemente informada das actividades sindicais que detectava no terreno. Em 1986, por exemplo, fez chegar à Direcção um panfleto que incentivava os profissionais de farmácias a reivindicar a “semana americana”, com o objectivo de «as farmácias passarem a encerrar aos sábados».  João Cordeiro agradeceu o alerta.

– O assunto foi convenientemente analisado, tendo-se deliberado enviar com urgência uma circular às Farmácias.

João Almiro era dos clientes mais frequentes da escola de formação contínua, bem como dos centros de informação sobre medicamentos da ANF. Frequentou dezenas de cursos e pedia regularmente literatura científica, bem como legislação e consultoria jurídica, domínio em que exibia pouca vocação e até mesmo paciência. Apoiava-se, pois, na ANF para gerir a actividade da Farmácia Almiro, mas também a própria actividade industrial do Labesfal. 


Inauguração das novas instalações do Labesfal, em 24 de Junho de 2002

Quando a sida começou a ameaçar a vida dos rapazes e raparigas que tinha em casa, a associação respondeu com o pioneiro Programa Troca de Seringas. O combate à toxicodependência sempre tinha sido para ele uma cruzada solitária. A constituição de um exército de farmácias deu-lhe uma grande alegria. Foi dos primeiros a inscrever-se. Deu o exemplo.​
Notícias relacionadas