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27 junho 2016
Texto de Carlos Enes e Maria Jorge Costa Fotografia de Alexandre Almeida Fotografia de Alexandre Almeida Texto de Carlos Enes e Maria Jorge Costa
Sorria, é inevitável

​​​​​​​​Na última sessão do 12.º Congresso, o economista Miguel Gouveia surpreendeu a plateia com a previsão de um futuro risonho para a rede de farmácias.

​«O futuro das farmácias é risonho», atirou com convicção à plateia Miguel Gouveia, um dos mais experientes economistas portugueses dedicados às políticas de saúde. Poderia ter parecido uma provocação aos proprietári​​os e farmacêuticos de oficina, mais de dois mil, ali sentados para assistir à sessão de encerramento do congresso. Depois de dez anos de cortes, ataques, mais cortes, falências, outros cortes, penhoras e promessas por cumprir, hão-de eles rir-se de quê? Daqueles sofisticados projectos de aproveitamento da rede de farmácias relatados pelos oradores da Austrália, EUA e Reino Unido? Como, se vistos daqui esses países parecem a cada dia mais distantes? A verdade é que o orador português arrancou sorrisos tímidos de esperança a muitos homens e mulheres protegidos pela penumbra da sala. Também, quando se pôs com aquilo já levava vantagem: quase meia hora de argumentos e números, grandes como prédios quando projectados na tela gigante que abraçava o palco.

Primeiro, foi a estatística da OCDE a abanar o plenário. «Já repararam numa coisa?», perguntou o professor da Universidade Católica. «Portugal é o país da Europa que está a envelhecer mais rapidamente», respondeu a si próprio. Ai, pensou toda a gente. Já sabíamos que as pessoas têm mais medo do que filhos, que se calhar não vai haver reformas, isto um dia estoira outra vez. Agora, assim de repente ficarmos os anciãos da família também é demais, que a Europa é grande. A premissa parecia grávida de um monstro. Mas, «o que sabemos nós sobre o envelhecimento?». Nova pergunta retórica, com uma resposta surpreendentemente interessante. Primeiro, se alguém se esqueceu, viver é bom. «O problema não é a quantidade, mas a qualidade de vida». Parece óbvio, mas falar é fácil. Então, vamos aos dados. «E os dados, o que nos dizem os dados?». Claro, há mais doenças crónicas, a diabetes e a hipertensão parecem pandémicas, um horror. A tal surpresa é que não, isso não tem de ser sempre trágico. «Os indicadores de incapacidade também estão em níveis cada vez mais baixos». Sol na eira e chuva no nabal? – a pergunta retórica agora é nossa. Sim, mas não em todo o lado. Os sistemas de saúde que têm a intervenção certa «conseguem controlar e reduzir a produção de doença, a repetição de episódios agudos». Portanto, «os dados são contraditórios».

O que nos ensinam eles, aqui sentados em Portugal? «O grande desafio que temos pela frente é como vamos tratar uma população tão envelhecida sem produzir constantemente doenças, como vamos manter estes grupos de pessoas fora do hospital», declarou o economista. E, é aí que entram as farmácias, a rede de serviços de saúde mais próxima da comunidade. «O futuro das farmácias é risonho porque as necessidades do sistema de saúde são precisamente as coisas em que elas são especializadas», sentenciou. Revisão terapêutica, programas de prevenção primária, rastreio de doenças, cuidados domiciliários, promoção de estilos de vida saudável. «Há uma variedade enorme de serviços com valor acrescentado em ganhos de saúde que podem ser feitos nas farmácias, com excelente value for money para os contribuintes, como dizem os economistas», concluiu Miguel Gouveia. Ele é economista mas podia ir para ministro, pensou em coro a plateia.

 

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