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28 março 2017
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Sónia Balasteiro
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​​​​​​A Farmácia da Serra, em Alvares, tem a cura para a solidão.

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Farmácia Portuguesa #219 Farmácias reais
Hoje, Ermelinda, de 85 anos, veio buscar um medicamento à Farmácia da Serra, em Alvares, mas não só: tem um pedido para Joel Teixeira. «Oh doutor, eu tenho aqui uma cartinha e vinha pedir-lhe, se não se importa, que ma lesse», diz ao jovem farmacêutico, após a dispensa do medicamento. 

Existe, entre ambos, uma grande cumplicidade. Apesar de Joel ter sido o último dos três farmacêuticos que se juntaram ao director-técnico, Joel, de sorriso enorme no rosto, assente de imediato, informando a saudável anciã de que a correspondência está endereçada à filha. «Mas leia na mesma, que eu logo já lhe digo ao telefone o que é», insiste Ermelinda. 

A confiança e boa-disposição dos dois são contagiantes. Ermelinda, explica o farmacêutico, trabalhou muitos anos na lida da casa e no campo, mas não conseguiu aprender a ler. Ler correspondência é um dos auxílios prestados na singela Farmácia da Serra, adquirida, há sete anos, por José Coroa, que assume a direcção- técnica, e a irmã, Ana Cristina. 

Escondida no meio da serra da Lousã, a poucos quilómetros de Góis, Alvares é terra de cem almas. Poucas, demasiado poucas crianças – duas, a que se somam dois adolescentes. A população servida pela farmácia, dispersa por várias aldeias, é sobretudo idosa. 

 


Ainda Ermelinda não saiu da farmácia e ouve-se um carro a chegar. A estrada que atravessa a aldeia fica mesmo em frente. É a “ti” Maria, que passa os dias na casa que partilhou com o marido, no cimo da aldeia, onde hoje tem a companhia do cão: Hoje, Ermelinda, de 85 anos, veio buscar um medicamento à Farmácia da Serra, em Alvares, mas não só: tem um pedido para Joel Teixeira. «Oh doutor, eu tenho aqui um a cartinha e vinha pedir-lhe, se não se importa, que ma lesse», diz ao jovem farmacêutico, após a dispensa do medicamento. Existe, entre ambos, uma grande cumplicidade. Apesar de Joel ter sido o último dos três farmacêuticos que se juntaram ao director-técnico, Ermelinda, de 85 anos, não sabe ler, por isso traz a correspondência à farmácia de ambos, e as noites em Góis, na casa da filha. Chega com José, que lhe deu boleia. «Normalmente, venho de casa da minha filha logo de manhã, com o doutor Joel, mas hoje tinha uns exames para fazer e vim mais tarde, com o doutor José». 

À noite, regressará, como todos os dias nos últimos cinco anos, desde que enviuvou, de boleia com o farmacêutico. «Quando o meu marido faleceu, a minha filha pediu-lhes este favor. Eles têm sido incansáveis. Muito amigos comigo», explica a septuagenária, enfatizando as palavras. 



As boleias, numa terra em que a maioria das pessoas não possui veículo próprio, é outro auxílio prestado pelos profissionais da Farmácia da Serra. «As pessoas vêm cá diariamente e é sempre necessária alguma ajuda», diz José. «A vila fica a meia hora de distância», explica Joel. 

Mas o carro serve também para outras coisas: «Entregar medicamentos, fazer recados. Vamos todos os dias à sede de concelho, e levamos e trazemos coisas. A senhora dos Correios também nos pede ajuda», continua o farmacêutico. 

A confiança entre Zélia Baieta, de 48 anos, nascida e criada em Alvares, e os farmacêuticos, é grande. «Transportam-nos valores e fazem recados. E pedimos para nos levarem documentos. Também envio documentos meus, pessoais, que é preciso entregar no banco, e pagamentos de assinaturas de um jornal do município», explica a funcionária da Junta de Freguesia de Alvares, que é presença assídua na Farmácia da Serra. «Venho aqui buscar tudo. E venho entregar, mesmo para os bombeiros. Envio os documentos para Góis e digo para irem lá à farmácia buscá-los. Facilita-me a vida para que não vá lá de propósito por causa disso». 



É costume os utentes irem à farmácia de Góis, conta o director-técnico, «buscar coisas que enviaram daqui». A verdade, continua, é que numa aldeia tão envelhecida, «não há alternativas». 

Fala da proximidade gerada com os utentes. «É um relacionamento peculiar. Como há esta confiança, pedem-nos para fazer uns recados. Vamos todos os dias para a vila e pedem-nos para fazer umas coisitas pequeninas. Como comprar pilhas quando acabam em casa», descreve. E há outros auxílios essenciais, numa terra onde não há médico há mais de um ano e meio: o adiantamento de medicamentos, até haver a receita. 

Os pedidos para que lhes leiam cartas, como aconteceu com Ermelinda, são frequentes. Até mesmo correspondência pessoal. «Há muita gente que não sabe ler e que nos pede», diz José Coroa. Os farmacêuticos, solícitos, ajudam no que podem. 

E há o remédio para a solidão. «Há pessoas que vêm diariamente só para conversar», descreve Joel. José conclui. «A presença da farmácia dá conforto às pessoas. Os aglomerados populacionais estão dispersos pelo concelho, há solidão. Havia um senhor que vinha cá todos os dias porque tinha companhia. Considerava-se o guardião da farmácia. Há mais ligações afectivas também».


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