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3 março 2016
  Saúde
Texto de Rita Leça Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Rita Leça
Quando o equilíbrio fica doente

​​​​​Os primeiros sinais de algo errado chegaram na adolescência, mas só muito mais tarde conseguiu emprestar um nome à sua condição: doença bipolar.

Tem 48 anos, é funcionária pública, é doente bipolar. Chamemos-lhe Patrícia, que o equilíbrio profissional e pessoal foram árduas conquistas. É que «o estigma ainda é grande», assegura, optando pela prudência na hora de decidir sobre a revelação da sua identidade.

Conta que os primeiros sinais de que algo de diferente se passava consigo chegaram quando frequentava o 10.º ano de escolaridade e um episódio de varicela a obrigou a uma paragem de duas semanas. «Estudava num colégio interno muito exigente e quando regressei às aulas percebi que tinham avançado muito na matéria. Fiquei com medo de chumbar e de ter de sair do colégio, onde tinha as minhas amigas».
 
Durante um mês, com a ansiedade ao rubro, foi incapaz de dormir uma única noite inteira. Os ruídos tornaram-se companhia indesejada: «ouvia todos os relógios da minha camarata». Encontrou-se apática, com pensamentos negativos, por vezes suicidas. Consultou um psiquiatra que lhe apontou uma crise nervosa e lhe prescreveu uma medicação que «me deixou zombie: de dia andava cheia de sono, sem conseguir concentrar-me, e à noite não dormia». Foram os pais que a ajudaram a ultrapassar a situação. Com esforço, passou o ano escolar, e o assunto ficou arrumado no passado,  desvalorizado.

Estava no terceiro ano da faculdade quando um incidente veio pôr a nu um conjunto de fragilidades que a obrigaram a repescar o tema e a reavaliá-lo.
 
«Andava, por essa altura, numa grande euforia. Parecia que estava sempre sobre o efeito de speeds: queria ir a todas as festas, estava superconfiante, gastava dinheiro de forma desmesurada». Características que aparentavam ser as de uma pessoa «naturalmente alegre», como Patrícia se define; mas eram mais do que isso. Após uma discussão com o então namorado, teve um aparatoso acidente de automóvel. Poucas foram as mazelas físicas, mas o seu comportamento tornou evidente um problema maior: mentiu ao enfermeiro que a socorreu, disse-lhe que estava grávida.

Foi uma amiga que a aconselhou a procurar um médico psiquiatra no Porto. Acompanha-a até hoje. 

«Lembro-me de me ter perguntado na primeira consulta: "Está a ver como faz sofrer os seus pais?" Aquilo abriu-me os olhos». Tinha 29 anos quando ficou internada, duas semanas, no Hospital Magalhães Lemos, e foi só então que se apercebeu da verdadeira gravidade da sua doença.

A perturbação bipolar, também chamada de doença maníaco-depressiva, é caracterizada por uma oscilação acentuada do humor entre crises depressivas e crises de mania. No primeiro caso, o doente cai num estado de tristeza e desespero, perdendo a vontade de fazer até as coisas mais banais. No segundo, a auto-estima eleva-se aos píncaros, entra-se num estado de humor elevado, expansivo, eufórico ou irritável. A duração das fases é, ela própria, instável e o diagnóstico médico pode não ser simples, porque a doença é facilmente  mal-interpretada.

Mas uma vez diagnosticada, o doente inicia um «processo interior muito profundo. Primeiro de aceitação e depois de autoconhecimento, para identificar os sinais e pedir ajuda imediatamente. Deixar arrastar para ver se passa é sempre uma má opção», testemunha Patrícia, para quem «a pessoa tem, em primeiro lugar, de aprender a contar consigo própria».

O percurso de Patrícia é feito de mais duas crises e um internamento, altos e baixos de uma vida com um casamento, vários empregos, algumas tentativas para engravidar sem sucesso. Conta que nos piores momentos chegou a rejeitar o marido - «estourei-lhe o dinheiro todo do cartão» - e a criar atritos no trabalho. À medida que relembra as desventuras de uma doença onde nada é o que parece, nota que «o que eu sentia não era alegria. Era euforia. E a euforia é uma máscara da tristeza».

Hoje baliza-se muito: cumpre a medicação, tem atenção redobrada às horas de sono, ao dinheiro que gasta e se existe uma excessiva tendência para interpretar tudo. É que «nos piores dias, até as matrículas podem ter um significado oculto. Tudo ganha um segundo sentido. Tornamo-nos muito esotéricos». Recorda os tempos em que se julgava vítima de vudu.

Há 13 anos que não sofre uma crise. «Tenho muita sorte com a minha família, com o meu marido, com o meu médico e com as minhas chefias. Sempre foram muito compreensivos», admite, aludindo a casos nos grupos de ajuda mútua que frequenta e que lhe permitem perceber que nem sempre é assim. «Há muita solidão e incompreensão». Por isso, o seu primeiro conselho para quem enfrenta o mesmo problema é ir à ADEB – Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, onde pode encontrar ajuda especializada. «Está provado que é nas pessoas solitárias, sem família, sem apoio no trabalho ou que estejam em processo de divórcio, por exemplo, que a perturbação bipolar tem mais incidência. Quanto mais só uma pessoa se sente, maior é a propensão para ter uma crise, para piorar. Esta é, sem dúvida, uma doença dos afectos». 
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