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19 julho 2016
  Saúde
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Sónia Balasteiro
Parkinson: Um jogo de equilíbrio

​​​​​​​​​​​​​​João Belo vive com a doença de Parkinson há cerca de duas décadas. Com os primeiros sintomas, o seu mundo desabou. Mas ele soube criar um novo, em que cada dia é uma conquista.

Num instante, o mundo foge debaixo dos nossos pés. O céu desaba. Sabemos que a vida, tal como a conhecíamos, mudou para sempre.

O corpo, esse eterno sábio, avisa. No caso de João Belo, que convive com a doença de Parkinson há cerca de 20 anos, o primeiro alerta chegou da perna direita. Foi em 1991, apenas dois anos após o seu segundo casamento.
 
No princípio, sentiu uma «dificuldade em apoiar o calcanhar». Começou a coxear.

Não soube interpretar o aviso. Nem quando várias pessoas repararam que lutava por manter o equilíbrio e lhe perguntaram o que se passava. A companheira estranhou, um cliente a quem preparava uma grande campanha de publicidade também.
 
Não dera nenhuma pancada, nada lhe doía. Não havia nada que explicasse aquele coxear.

O corpo tentou comunicar uma vez mais. Estava no banco quando aconteceu. «De repente, a caneta começou a saltar-me da mão, não conseguia segurá-la». Os seus movimentos também começaram a ser mais lentos. 

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Em 1992, um especialista em desporto, após alguns exames, aconselhou-lhe uma actividade física de correcção do andar. Praticou-a dois anos, mas novos sintomas  apareceram. O médico disse-lhe, por fim, para consultar um neurologista. O conselho foi repetido por dois primos médicos que, no funeral da avó, repararam no estranho movimento que fazia com a perna, numa altura em que passou a ter de lidar também com uma espécie de espasmos que lhe roubavam o controlo do próprio corpo. Da sua vida.​

Só em 2000 consultou um neurologista. Nesse ano, João Belo acordou para um pesadelo. Percebeu então que o seu mundo desabara. «Quando descobri que tinha Parkinson já estava muito desgastado pelos sintomas. Mesmo assim, saber o diagnóstico, perceber que é irreversível, foi duro, um choque», confessa. Contava apenas 36 anos.

Tinham sido quase dez anos desde que a perna direita lhe dera os primeiros sinais.
 
«Quando há um sintoma que se arrasta, as pessoas devem tentar perceber o que se passa. Os meus arrastaram-se durante muitos anos».

Encontrou o neurologista certo, Castro Caldas, que o acompanha até hoje. Inserido, pelo casamento, numa família em que as quezílias faziam parte do dia-a-dia, normalmente devido a questões relacionadas com dinheiro e património, João Pedro Belo decidiu separar-se da então companheira de longa data. «Estava sempre ansioso, era um ambiente demasiado tenso», recorda.

Alterou a lente com que olhava o mundo. «Localizei as janelas negativas que aceleravam a doença». Por exemplo, «Tinha muito dinheiro, mas não felicidade». Com a medicação também estava numa espécie de travessia do deserto. «Os sintomas eram terríveis, só pioravam». Não se sentia bem onde quer que estivesse, deixou de conseguir andar. Deixou de sair de casa. A pressão psicológica tornou-se «insuportável».

Até que percebeu que a doença de Parkinson não lhe tinha roubado uma faculdade fundamental: a capacidade de pensar. E tinha muito tempo para fazê-lo. Começou a escrever. A escrever sempre que podia. Os amigos que o viam alvitraram: «Até parece que estás a escrever um livro!».

Sem perceberem, mostraram-lhe como salvar-se. Estava numa encruzilhada: era hora de reverter a doença. «Percebi que precisava de um psicólogo». Surgiram, de repente, duas coisas «muito positivas». «Juntei as folhas todas, organizei-as e comecei a vendê-las. Isso fez com que saísse de casa».

Deixou as lamentações. Aprendeu truques de controlo da mente, a tomar sempre os medicamentos à hora certa. Em 2004, reformou-se. Com a separação ficara sem dinheiro. Mudou-se para casa da irmã e aprendeu a viver com pouco. Com muito pouco. De pensão passou a receber pouco mais de 200 euros mensais. «Tinha moedas antigas e comecei a trocá-las nas feiras de Algés, de Belém». A troca directa e a imensa humildade de saber estar vivo passaram a fazer parte do seu dia-a-dia.

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Em 2007, entregou a carta de condução voluntariamente. Recuperou-a apenas em 2014. Entretanto, foi aprendendo a lidar com os sintomas da doença. «Aprendi a forma de colocar a perna da forma certa quando tinha bloqueios paralisantes». E aprendeu a conversar com o João Pedro, uma espécie de alter ego que o acompanha quando começa a hesitar. «Digo: se a doença apareceu também tem de ser expulsa. Tento ver sempre as coisas pelo lado positivo».

E é com esperança que fala. «A cura pode estar ao pé de nós e não a vermos. Tenho de ir atrás dos meus objectivos, evitar que me apareçam os sintomas, os bloqueios paralisantes. A pessoa deixa de saber o que fazer, como lidar com os medos, que aumentam as tremuras.»

Acredita que, pelo menos até aos 60 anos, não terá mais «bloqueios paralisantes». Hoje, João sabe quem é. Vive sem medo. Publicou o seu livro “Sem Medo do Parkinson: Apoio Psicológico aos Doentes”, que irá ser distribuído no Brasil. Aos poucos, a ansiedade, que piorava, e muito, os sintomas começou  a desaparecer.
 
Continua a fazer fisioterapia e, no monte que mantém no Alentejo, nada, anda de bicicleta, faz caminhadas, sente-se vivo. Tem um projecto: divulgar o seu livro, dar a cara e ajudar outras pessoas cujas vidas mudaram para sempre.

E, aos 57 anos, pouco teme. Afinal, o mundo fugiu-lhe debaixo dos pés. João Belo soube, com toda a humildade, resistir e criar um mundo novo. Sobretudo, aprendeu a viver. ​

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